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Crônicas
selecionadas |
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Washington
Santos Alves |
As frutas da minha avó Crônica publicada na Antologia "Novos Talentos da Crônica Brasileira"- Vol.4
A
sessão onde eu demoro mais tempo, e onde isso mais acontece, talvez
seja a de frutas. Gosto daquele colorido, dos cheiros, das formas e das
texturas. Quando a sessão está bem arrumada e repleta, melhor
ainda, sinto-me numa espécie de pomar. Artificial, climatizado,
mas um pomar. E
foi pensando assim que cheguei ao supermercado às sete horas da
manhã, justamente no momento da sua abertura. Pouca gente, pouca
concorrência, tudo à minha disposição. Um supermercado
só para mim. Quase. Aliás, o supermercado que eu sempre
pensei em comprar, se fosse rico. Quando
chego à sessão de hortifrutigranjeiros termino fazendo uma
viagem no tempo, ao tempo em que eu era criança ou adolescente
e ia com a minha avó à feira ou à vendinha fazer
compras. Ela gostava de frutas, meu pai também, e eu aprendi com
eles. Mas claro que não gosto de todas. Melancia é um exemplo,
que, aliás, detesto. Além disso, tínhamos em casa
alguns bichinhos de estimação, todos de minha avó,
que também adoravam: um papagaio, que um dia quase arrancou o meu
dedo; alguns passarinhos, dentre eles um pássaro-preto, preferido
dela; e um cágado. Ah, tinha, também, um gato, que não
gostava de frutas, mas, sim, de passarinhos, tanto que um dia comeu o
meu Papa-capim. Miserável! Além das frutas que comprávamos,
tínhamos no quintal: araçá, manga, pinha, ouricuri
e dendê, que além do coquinho, dava, também, muita
lagarta. Procuro
comprar todas as frutas das quais eu e os meus meninos gostamos, apesar
de saber que, muitas vezes, não vamos dar conta de todas elas.
Mas os olhos! Compro de vez em quando frutas diferentes, importadas, apesar
de caras, para poder experimentar. Existe cada uma realmente bem estranha
ou esquisita. Na hora da escolha, cada uma tem o seu ritual, são
escolhidas como se fossem participar de uma competição:
tamanho, textura, cor, maciez, cheiro, aparência, pele ou casca,
peso... É um tal de pegar, apertar um pouquinho, cheirar, girar
na mão, comparar, devolver, pegar outra, pôr no saquinho... Para minha sorte, a sessão estava com uma diversidade de frutas bem grande, e eu terminei enchendo, enchendo mesmo, o carrinho. Mais itens só de frutas do que tinha a minha lista inteira. Satisfeito, passei pelo caixa com facilidade, pus tudo no carro e levei para casa. Em casa existe um outro ritual. Colocar tudo na pia, lavar cada uma e deixar escorrer a água para secar. Nesse
momento, a pia fica com um visual bastante agradável e apetitoso.
Já dá vontade de começar a comer algumas, o que,
muitas vezes, acontece. Depois de um tempo ponho tudo nas fruteiras. Hoje,
pela quantidade, tive que improvisar algumas com algumas vasilhas plásticas. No momento, a minha cozinha está assim, com cheiros de infância, com cara de criança, com ar de lembranças. Tem abacaxi, pêra, maçã, goiaba, uva, banana, limão, tangerina, acerola, caqui, manga e kiwi. Algumas, ainda hoje, irão para a geladeira. Mas não tem papagaio, nem pássaros, nem cágado, nem ninguém todos os dias, com quem as frutas dividir. Tenho peixinhos, que só comem ração.
----- Os sonhos ao lado Crônica publicada na Antologia "Novos Talentos da Crônica Brasileira"- Vol.3
O
cheiro da feijoada chegava até ao sétimo andar, onde moro,
e eu fazia viagens naquele aroma, lembrando-me das feijoadas do meu tempo
de criança: feijão, “chupa-molho”, lingüiça,
costela defumada, toucinho, temperos...E eu, que “não tenho
problemas com comida”, finalmente me deliciava com arroz, o caldo
da feijoada, farinha e ovo frito... Outros eu via comendo das suas marmitas
trazidas de casa e bebendo água em seus capacetes, sorvendo de
volta suas energias no suor do árduo trabalho em suas jornadas
diárias. O
edifício está começando a ser habitado, e agora eu
tenho acompanhado esse seu novo momento. Um casal num andar, uma senhora
e uma moça em outro, três pessoas no décimo. Não
sei se todas as pessoas que eu vejo vão ser moradores, mas ajudam
a compor a paisagem humana do que antes eram só cimento, vazio
e solidão. No apartamento do casal teve uma festa há alguns
dias para receberem os amigos. Eventualmente, algumas luzes ficam acesas
por um tempo em alguns apartamentos, depois eles parecem que ficam vazios,
como um sinal de que começam a ser ocupados. Tenho
visto desembalar, arrumar, pôr, dispor, mudar e ficar. Vejo sofás,
estendedor de roupa, cama, televisão, rede. Dois ou três
já têm plantas e flores na jardineira. Em um deles eu vi
uma criança com uma moça que parecia uma babá. Só
não vi nenhum cachorro, ainda. Onde antes havia só o branco
e o azul, comuns, das paredes comuns, hoje existem cores preferidas, cores
mais divertidas, mais queridas, mais vivas e mais vividas. Já existem
carros no estacionamento, música no ar, conversas, pessoas usando
a piscina e, num certo mau costume, roupas penduradas nos parapeitos das
varandas. Do primeiro ao quinto e no oitavo já tem gente morando, tem história sendo construída, tem história sendo reconstruída, vidas fazendo viagem, sonhos realizados, sonhos vividos, sonhos sendo novamente sonhados. Lembro-me de mim, que descuidei dos meus e não consigo viver sem os sonhos que eu pus de lado. ----- O último segundo Crônica publicada na Antologia "Novos Talentos da Crônica Brasileira"- Vol.2
Pensando
em tantas coisas, viajei. Pensei nas previsões que se jogam no
ar, nos pedidos que se lançam ao mar, nas preces que se fazem aos
céus, nos compromissos que se assumem em escritos, nas promessas
que se falam aos ouvidos, nos perdões que se pedem sinceros e sentidos,
pensei em planos, em esperanças, em sonhos, e pensei na realidade.
Pensei nas pessoas que não mais estão, nas que não
mais estarão, e imaginei, quem sabe, aquelas que virão.
Um ano, talvez, uma vida, em cerca de duas horas. Decidi
levantar-me e continuar dentro desses pensamentos fora da cama. O sol
já havia se levantado há algum tempo, e eu deveria fazer
o mesmo. Achei
que naquele último dia eu merecia tomar um bom café da manhã.
Sou fã de um bom café da manhã. A época era
propícia: panetones, bolos, queijos...Tomei um banho para ficar
mais esperto e fui até à padaria da esquina, que àquela
hora já estava bem movimentada, com as pessoas se preparando para
as suas ceias e festas. Dezenas de bandejas por sobre os balcões
estavam à espera dos ansiosos compradores, e muitas outras dezenas
já saíam nas mãos daqueles mais precavidos e madrugadores:
bandejas sortidas de presuntos e queijos, pães-de-metro, perus,
pãezinhos-delícia, salgadinhos diversos, bolos, frutas...
No meio daquela animada confusão fiz as minhas escolhas, passei
pelo caixa, e deixei a primeira festa do dia para trás. Não
cheguei a ir para casa, resolvi compartilhar o que eu havia comprado,
com alguém que eu achava que merecia um bom café da manhã
e merecia ter um pouco de festa. Liguei e fui até lá. Deliciamo-nos
com tudo aquilo e conversamos sobre muitos assuntos, mas apesar de ainda
cedo, tínhamos, cada um, coisas a fazer, então me despedi
e fui embora, deixando aquela segunda festa, também, para trás.
Muitos
afazeres me esperavam em casa, era dia de limpeza e que coincidia com
o último dia do ano, portanto, a casa merecia uma limpeza mais
caprichada e meticulosa. Pus música para tocar - coisa rara, pois
gosto de fazer a limpeza em completo silêncio, só com os
sons do meu pensar – e me envolvi com a faxina da casa e dos meus
pensamentos. De vez em quando eu olhava pelas janelas para ver o mundo,
o sol, o céu, o mar, as pessoas lá embaixo, e numa dessas
vezes vi um grande e lindo navio de passageiros, cisne branco, adentrando
à baía. Imaginei-o em sentido contrário e viajei
com ele pelo mundo. Faço assim com todos. Na
hora certa, saí de casa e fui para o local da festa. Apesar de
tudo à minha volta: música, pessoas que amo, o mar, fogos...,
eu continuava a pensar naquele dia. Na contagem dos cinqüenta e nove
para o zero-zero, o último segundo, percebi que toda aquela festa
– comidas, bebidas, roupas, presentes, luzes - não era para
o dia, o dia inteiro, as suas vinte e quatro horas, mas apenas para o
seu último segundo, o marco, a última chance ou a primeira
chance. É o que todos esperam, uma nova contagem, uma recontagem
a partir do zero, do nada. Um
segundo que poderia ser preenchido com uma palavra, um abraço,
um beijo, um olhar, e, assim, o meu ano não mudou.
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