Antologia
de Poetas Brasileiros Contemporâneos - Vol. 26

Poeira
O passado é poeira fininha
Entranha-se
incrusta-se
agarra-se aos pelos
penetra nos poros
nunca mais sai de nós
Escondemos nos bolsos
nas bolsas
em alforjes
baús
Levamos nas mãos e nos olhos
trazemos nas marcas
nas cicatrizes
nas rugas
Deixamos escapar nas palavras
no silêncio
nas orações
Ninguém nos rouba
nos toma
o mata
destrói
Ninguém nos liberta
o vive
revive
e dele precisa
mais do que nós
De realmente meu
nem a mim me tenho
pois sou feito do que já não existe mais...
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Antologia
de Poetas Brasileiros Contemporâneos - Vol. 27

Temporal
Eu queria fazer desabar sobre o mundo
a minha raiva
as minhas dores
os meus medos
as minhas tristezas
o meu desespero
as minhas angústias
as minhas emoções
em gotas de palavras
numa chuva de palavras
Que de nada servissem telhados
sombrinhas
capas
marquises
abrigos
Viriam como canivete
flechas
temporal
granizo
Acertariam o alvo sem hora marcada
ao amanhecer
ao meio-dia
madrugada
Cegariam
ensurdeceriam
calariam
se fariam sentir
Mas isto é só uma poesia
A verdadeira água que cai
eu não deixo que caia aqui...
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Antologia
de Poetas Brasileiros Contemporâneos - Vol. 28

Migalhas
Nós
da solidão
me parece que temos
para eles
uma tabuleta no peito
Aceitam-se esmolas
Palavras rasgadas
pedaços de palavras
meias-palavras
palavras falsas
Carinhos inacabados
carinhos sem jeito
restos de carinho
carinhos com defeito
Fatias de tempo
tempo ocioso
tempo apertado
estilhaços de tempo
Prazer incompleto
resíduos de prazer
prazeres aos pedaços
prazeres vencidos
Amores puídos
amor refugado
amor rejeitado
migalhas de amor
Por fora minha loucura sorri
e eu aceito
Por dentro chora a minha razão
e eu morro mais um pouco...
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Antologia
de Poetas Brasileiros Contemporâneos - Vol. 29

Ruas
As ruas do meu sonho
levam-me a lugares proibidos
a lugares que não são meus
a lugares que não são mais
a lugares que eu não sei
Praias e horizontes
jardins e desertos
labirintos e pontes
becos e praças
cais e precipícios
castelos e prisões
pra beira do rio e para os braços do mar
Umas sabem onde me deixam
outras me deixam ao léu
umas pra longe daqui
e outras pra perto de mim
As ruas do meu sonho são ruas retas numa folha de papel
Nas ruas do meu sonho
deixo as lágrimas negras que não saem pela minha boca...
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Antologia de Poetas
Brasileiros Contemporâneos - Vol. 30

Silenciosamente
Se eu nascesse com
o poder da palavra
eu falaria
mas
eu nasci com o peso do silêncio
e eu escrevi
De nada adiantou
Enquanto escrevi
pensei
e ao pensar
me perdi
e ao me perder
mais silenciosamente fiquei
Ao final
tudo o que escrevi
tem muito pouco do que eu teria dito
Eu não sou este que escreve
sou aquele que ouve depois
Eu não sou aquele que fala
eu sou este que empresta a palavra e se cala
É como se quem não sou escrevesse
para me torturar com a leitura
do que não me saiu pela boca...
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Livro de Ouro da
Poesia Brasileira Contemporânea - Edição 2006

A margem
do mar
O rio que desce
da minha montanha
só tem uma margem
Parado à beira do meu rio
só vejo a margem do lado de cá
Quando do lado de cá é dia
do outro lado
se é que ele existe
é noite do lado de lá
Parado à beira do meu rio
à noite
eu vejo o seu começo
Parado à beira do meu rio
de dia
eu não vejo o seu fim
Espelho-me nas águas do meu rio
De dia eu sou uma farsa
à noite sou a verdade de mim
O rio que desce da minha montanha
só tem uma margem
É rio do lado de cá
Do outro lado do meu rio
se é que ele existe
fica a margem do mar...
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Antologia Poética
"Os Donos da Vida" - Edição 2006

Emprestado
A vida em mim
tem o meu nome
Chegou carimbada
É daquele cara
Faço com ela
o que eu queira
e
com o que ela queira
o que eu quiser
Dou de presente ou fico para mim
Jogo fora ou aproveito
Uso com cuidado ou dou logo um fim
Já o amor em mim
não é meu
Peguei emprestado
Estava aí no ar
Veio das estrelas
da lua
de outros corpos
do mar
Enquanto em mim
sou seu
Quando eu for embora
irá de mim
levando o que é meu...
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Antologia
"Os mais belos Poemas de Amor" - Edição 2006

Gostosa
ilusão
Começa do
nada
nada pode ser
e tudo será
Se agarra a um gesto
se prende a um olhar
ecoa palavras
lê até pensamentos
Se embala nos sonhos
cria intenções
preenche vazios
refaz os caminhos
realiza magias
inventa desejos
mistura fragrâncias
inverte os sentidos
recria os fatos
sufoca a razão
com muita razão
Simula destinos
emudece o silêncio
apaga todo não
dirige as ações
uma doce prisão
supremo prazer
gostosa ilusão
infinita emoção
amor...
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Antologia de Poetas
Brasileiros Contemporâneos - Vol. 31

Breu
Quando fecho os olhos
e quanto mais os aperto
e a escuridão invade mais e mais a minha cabeça
eu enxergo
e me vejo
e me sinto
e me encontro
Quando abro os olhos eu não vejo nada
Tudo se funde e se confunde
Tudo o que eu tenho é o que já não tenho mais
Tudo o que em mim está e me aquece
é o que me dá frio pensar que está longe de mim
Saio de mim e me entrego a quem sou eu
O meu coração só brilha no breu...
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