Valdeck Almeida de Jesus
Salvador/BA
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Valdeck é funcionário público federal,
nascido a 15 de fevereiro de 1966, em Jequié/BA, mas desde 1993 reside em Salvador.
É poeta e escritor, e atualmente cursa Teatro na Ufba e turismo na Faculdade São Salvador.
Suas habilidades na área literária se restringem
a escrever poemas, alguns
publicados nas antologias “Poetas Brasileiros
de Hoje –1984”, editado pela Editora Shogun Arte
, do Rio de Janeiro; “Transcendental”, publicado
em Salvador em 1998, pela Editora Gráfica da Bahia.
Tem poemas publicados nos jornais de grande circulação da capital e do interior do estado.
valdeckjesus@ig.com.br |

Amor com ela
Ela me quer
Que me ama
Ela me beija
E não reclama.
Me dá a vida
Me faz feliz
Me ajuda sempre
Sempre me quis.
Ela me adora
Não me deixa só
Por mim ela desata
Da vida o nó.
Não ajudo ela
Não a recompenso
Faço pouco por ela
Só em mim penso.
Ela é a natureza.
Eu sou o homem.

A vida
Começou como um ser unicelular
Que se debatia nas águas
Labutou, esperneou,
Até firmar-se no planeta,
Mas o que ele não sabia é que
Seu destino seria se debater
Pelo resto da sua existência
Na fila da Previdência
Nas ruas da indigência
Ou mesmo com a indiferença
À mão estendida e faminta.
É um feto, fruto de estupro
Resultado do sexo sem amor
Gravidez indesejada
Prostituta de família
Filho doente ou sem um pai
Mãe sem coração e sem alma
Que não ama a procriação.
Nasce a criança e vive com fome
Sem educação, sem moradia
Sem remédio e sem saúde
Sem uma casa onde residir
Faltando brinquedo e parque infantil
Sem carinho e sem educação
Convivendo com a violência
Bala perdida, fome, droga e superstição.
Cresce e se acostuma com a vida difícil
Sem esperança e sem perspectiva de futuro
Sem profissão, sem projeto, sem sonhos
Numa vida atribulada e mal administrada
Sem cultura e sem pé no chão
Somente tristeza, violência, concorrência
Falta de fé e de crença na própria vida
Com medo de uma bala perdida.
Vida adulta, prostituta ou prostituto
Vendedor ou entregador de armas
Drogado, viciado e também em mentir e representar
Correr, esconder, cagüetar, entregar
Desemprego, hospital sem médico
Favela, morro, esgoto a céu aberto
Viver ou morrer ao descoberto
Passar fome, dormir no chão
Correr da morte, enfrentar a situação.
Terceira idade, se chegar lá...
Sofrer na fila do INSS para se aposentar
Morrer de fome, falta de paz, de alegria
Encolher, entristecer, sair da folia
Amar, sonhar, com uma morte sadia
Sem dor, sem fome, sem falta de amor
Asilo, abrigo para velho, albergue
Ou um papelão onde passar a noite
Frio, calor, fome, falta de banho
Dores, calores, tristezas e desejos
De morrer e de sumir do mundo estranho...
É muito bonito viver
Mas se não há o que comer
Onde dormir, agasalhar-se
Com quem dividir a tristeza
Ou a alegria da mágica da vida
Tudo se torna uma tremenda
E angustiante jornada...
Não aconselho o aborto
Mesmo porque eu não estaria aqui
Caso minha mãe me jogasse no lixo
Mas é cruel trazer ao mundo
Um ser indefeso e incapacitado
Para sobreviver sozinho
Nesse ambiente imundo.
Começando, não começando
Terminando antes de começar
A vida é assim mesmo: surpreendente
Dura, difícil, sorrateira, traiçoeira
Mas ninguém prefere parar de viver
Por mais dura e insensata que possa parecer essa idéia
A idéia de morrer, de deixar o planeta,
De comer capim pela raiz, de ir para a cidade de pé junto
De bater o pé na cerca, de passar dessa para a melhor
De ter um encontro com Deus (ou com o diabo!)
De vestir o paletó de madeira
De ir para o Afá! É sempre uma idéia que ninguém gosta!
É uma luta ingrata, eu sei
Injusta, sem pé nem cabeça
E sempre ela acaba vencendo
Ela, a vida. Ela pode tudo e faz tudo
Temos o livre arbítrio, mas...
Se Deus não quizer, nada será feito.
Ou seja, temos nosso livre arbítrio
De escolher fazer o que já estava “escrito”
Seguir o destino, cumprir o nosso carma
Ou ficar com o outro livre arbítrio
De não ter escolha... não poder ir aonde der na telha.
Que me perdoem os puristas, os espíritas
Os espiritualistas, candomblezeiros,
Evangélicos, budistas, judeus, confucionistas
Que me perdoem os que não crêem em nada
Me perdoem os que crêem nos políticos
Em arma de destruição em massa
Em massa anunciada na TV
Que me perdoem os publicitários
Os marxistas, os artistas e aqueles que não fazem nada pela vida.
Mas acredito que todos nós temos um destino
Um destino escrito nas estrelas
Escrito pelas estrelas da televisão
Ou por alguém enviado de Plutão.
Nesse destino eu acredito:
O destino de viver setenta anos na terra
Sem terra, sem teto, sem médico
Sem salário, sem carro, sem esgoto
Um destino cruel, que todos aceitam
Aceitam pois estão vivendo esse destino
E os que não estão vivendo esse destino,
Por insensibilidade ou por caridade cristã, fecham os olhos
Oram, rezam, louvam ao Senhor
E deixam cada um a conduzir seu próprio destino.
Que destino, que nada... que dor, que sofrimento?
Todos podemos nos erguer, nos levantar, gritar
Esperar o tiro certeiro de uma bala perdida
Ou morrer de madrugada na fila de um hospital
Podemos agredir o sistema, morrer e deixar um mundo melhor
Mas não queremos ser Tiradentes, não queremos ser ninguém
Não queremos ser Madre Tereza de Calcutá
Tampouco Indira Ghandi... não queremos ser ninguém
Pois não queremos nos comprometer com nada
E a droga avança, o tráfico invade nossa casa
Pela televisão, pela mochila de um irmão
E fechamos os olhos, e fingimos não ver
E a bala certeira, a bala perdida
A mão do inimigo, do adversário
Alcança nosso ombro, nos aniquila e nos humilha
Faz da gente um trapo, um pedaço de gente
Que chora como um inocente
A perda de um filho, a perda de um irmão
E esquecemos de tudo no dia seguinte
E a vida continua, como sempre, bonita!
Porque “viver, é não ter a vergonha de ser feliz”,
“Cantar e cantar ... de ser um eterno aprendiz”...
“Eu sei que a vida devia ser bem melhor, e será”,
“Mas isso não impede que eu repita
“É bonita, é bonita e é bonita”...
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