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Conto publicado no Livro "Tempo de Tudo" - Autores Brasileiros" - Novembro de 2011

Johnathan Felipe Bertsch
Jaraguá do Sul / SC

 

Nas entranhas da boscagem

 

Dentro da selva nunca se encontra um ambiente que esteja em completo silêncio, que seja inaudível; sempre há algum ruído que possa lhe fazer temer.
Ele sabia que não seria fácil permanecer vivo entre aquelas raízes e galhos que lhe rompiam a pele, mas com a queda do seu pequeno avião monomotor a única esperança em que se podia agarrar era em seguir o mais longe possível, mesmo que para isso fosse necessário explorar os seus limites e colocar em risco a vida.
Ficar parado no mesmo lugar seria um suicídio e com toda a experiência como piloto de aviões aprendeu que quem aguarda por ajuda jamais será ajudado.
Naquele momento estava sozinho.
Resolveu começar os preparativos para passar uma longa noite. Era necessário abrigar-se no local mais alto possível para poder ter uma visão ampla de qualquer ajuda ou risco. E assim fez.
Uma caminhada cansativa até o cume de umas das montanhas lhe consumiu quase toda a reserva de energia; a única sorte é que trouxe consigo um vasto abastecimento de água.
Fazia muito frio; o vento lhe congelava os ossos.
Ele já esteve entremeado por aquela floresta quando criança, porém a sua memória lhe impedia de recordar uma visão tão bela. Por um vasto manto verde podia-se notar apenas a penumbra do anoitecer. Era um local de reflexão, um local de desespero, porém de muita harmonia.
As imensas árvores que o rodeavam pareciam querer lhe abraçar, ou quem sabe, convidá-lo a dançar entre uma noite intimativa. O medo não era constante, mas nunca conseguiu afastá-lo.
De uma forma extremamente grotesca pôde ouvir um rugido animalesco por toda a sua volta. O desespero instalou-se.
Apesar de cursar muitos preparativos sobre sobrevivência na selva nenhum deles pôde prepará-lo para o que estava por vir. Certamente agora ele era a caça.
Pensava em inúmeras maneiras de como fugir daquele lugar, mas nenhuma seria útil. Então, instintivamente, correu.
Por entre a relva foi deixando um pequeno rastro de destruição; por onde passou não sobrou um galho vivo se quer.
Enquanto corria, por apenas uma fração de segundo, fechou os olhos; foi o suficiente para não ver o que lhe acertou na cabeça.
Quando caído ao chão vagarosamente lhe retornou a consciência. Pôde ver uma criatura imensa, de longa pelagem negra e olhos ligeiramente avermelhados. O seu porte nenhum ser humano ou mamífero existente poderia ter. Deveria pesar uns duzentos quilos e atingir a altura de dois metros e oitenta. Caminhava como bípede, mas não possuía a habilidade humana. Suas feições eram de símio, mas poderiam ser facilmente confundidas com qualquer homem. De fato era um espécime singular.
Ele não conseguiu deixar de sentir certo afeto pela criatura; além de ser uma descoberta inacreditável aquilo que estava a sua frente poderia ser um elo perdido na escala evolutiva.
Mas antes de tentar qualquer aproximação afetiva teve uma resposta imediata do animal. Os caninos amarelados não estavam mais tão distantes. Agora estavam alojados entre o seu crânio, fazendo uma pressão absurda.
Em alguns instantes pôde-se ouvir apenas os estalares dos ossos.



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