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Vera Lucia Fávero Margutti
Maringá
/ PR
Uma
chance a mais
Idoso
75 anos, sempre fora ele quem cuidava, zelava, dava manutenção
em sua casa, subindo nos telhados, arrumando parte elétrica,
encanamentos, pinturas, até grandes e pequenas reformas. O que
podia e sabia fazer não deixava que outros fizessem, não
gostava de pagar, evitava gastos uma vez que vivia da aposentadoria
e do aluguel que recebia da frente comercial da casa, que alugara.
Hipertenso, dizia sempre que a pressão alta era sua velha companheira,
já sabia mantê-la controlada. Apesar de sempre ter levado
vida difícil, ter passado por grandes perdas, doenças
e cirurgias, nesse período da vida se sentia forte, saudável:
“um jovem de vinte anos, um menino!” - ele dizia.
Numa tarde logo após o almoço,
21 de março de 2011, ele resolve fazer um furo no teto da sala
e puxar um fio de energia da parte de cima de seu sobrado, muniu-se
de uma furadeira e demais ferramentas, subiu em uma cadeira de assento
cerâmico depois em um balcão de 1 metro de altura para
alcançar e fazer o furo necessário no teto. Subiu e desceu
algumas vezes e não percebeu que a cadeira escolhida estava com
o assento solto, quando concluiu o serviço e foi descer pisou
em um canto da cadeira o assento virou e sofreu uma forte queda caindo
de costas, bateu com a cabeça e desmaiou. Sua esposa que estava
por perto, desesperada correu para socorrê-lo e sem precisar a
gravidade, acorda-o tentando resgatá-lo a todo custo, passando-lhe
salmoura e algumas ervas, dando-lhe os primeiros socorros. Ele acorda
do desmaio levanta-se cambaleando, deita-se em um sofá, eis que
aparece um filho, contam o ocorrido e o filho prontamente o leva ao
pronto-socorro. Chegando ao hospital foi rapidamente atendido e os exames
necessários foram feitos, na tomografia acusou traumatismo craniano
e se formaram coágulos no cérebro. Ficou internado seis
dias em um complexo hospitalar e teve alta.
Já em casa, repousando e tomando certinho toda a medicação
recomendada ainda assim sentia fortes dores nos lados e na cabeça,
mas seis dias se passaram e sofrendo muitas dores, levaram-no a uma
clínica radiológica mais perto e novas radiografias foram
feitas e apresentaram quatro costelas quebradas. Foi em seguida imobilizado
na região com uma cinta e recomendado muito repouso.
Passados dois dias em que se manteve na cama sem nenhum esforço,
começou a sentir falta de ar e grande desconforto, levado às
pressas novamente ao mesmo hospital, novos exames foram realizados e
acusou: embolia pulmonar. Novamente internado, novas tomografias, foi
levado a UTI uma vez que o quadro havia se agravado com a embolia. Realizado
exames das pernas para averiguar de onde vieram os êmbolos do
pulmão, descobriram que estava com trombose, o tratamento nesses
casos seria medicamentos à base de anticoagulantes, que refinam
o sangue, mas os mesmos não puderam ser administrados, devido
os coágulos que se formaram no cérebro, diagnosticados
por muitas ressonâncias magnéticas, com as possibilidade
de derrame que poderia levá-lo a óbito ou a consequências
como perda da fala, de memória e outros...
De mãos atadas os médicos se reuniram e buscaram alternativas
de socorro imediato antes que novos trombos subissem para pulmão,
coração... graças à tecnologia avançada
na área vascular uns filtros foram implantados na veia cava do
abdômen e pernas, impedindo assim a passagem de novos trombos.
Outros medicamentos alternativos foram administrados dando tempo para
que o cérebro absorvesse o sangue que ali se juntou com a queda
que sofrera. Cinco dias de UTI com pressão, batimentos cardíacos
normais, teve alta para o quarto permanecendo ainda mais cinco dias
no hospital. Sofrendo muito com os sintomas da trombose, como dores
e inchaços, se achava padecendo, pagando todos os seus pecados.
Homem fervoroso, sua fé nunca abalada, sempre otimista diante
das intempéries da vida, lutava com todas as suas forças
e esperanças pra ter uma nova chance de vida. “Se for da
vontade de Deus”, repetia sempre, “estou preparado para
morrer, se Ele achar que ainda tenho que cumprir minha missão
nesse mundo, me dará uma chance a mais”. Obrigou-se a mudar-se
do seu velho sobradinho onde vivia a mais ou menos vinte e cinco anos
para uma casinha térrea alugada, para se livrar das escadas,
que de agora em diante representaria um grande perigo. Com apenas dois
dias que havia se mudado, começaram dores de cabeça forte,
levado imediatamente ao hospital, mais uma vez internado! Dessa vez
não houve alternativa, senão a cirúrgica, para
drenar o sangue da cabeça. Muito sangue foi drenado e ele e os
familiares sofrendo, assistindo todo aquele sangue se escoando, junto
com a suas forças e vitalidade.
No terceiro dia do pós-cirúrgico, seu quadro agravou-se
muito, apresentando a perda da fala e movimentos de uma das mãos.
A filha que o acompanhava naquele momento mais triste da sua via cruzes,
foi providencial levando a situação à junta médica,
que no mesmo instante o examinou e já o encaminharam para mais
uma operação! Dessa vez abrindo-lhe o crânio da
testa à nuca, na tentativa de salvar-lhe a vida. Sem nenhuma
garantia que sairia vivo da cirurgia e muito menos sem sequelas. Foram
momentos de intensa angústia para ele, que a tudo acompanhava
lúcido e muito mais ainda para os familiares.
Naquele sábado negro 21-de maio, muitos familiares e amigos se
uniram em oração pedindo clemência a Deus pela vida
daquele ente tão querido de todos: um servo de Deus nessa terra!
E Deus em sua infinita misericórdia ouviu a preces e lhe concedeu
uma chance a mais de vida. Um verdadeiro milagre! Atestado pelos médicos
e todos que o conhecem. Sente-se que nasceu de novo, esta saudável,
com boa memória, sem nenhuma sequela... E agora mais do que antes
"trabalhando para Jesus" como ele diz, exercendo sua função
de ministro de Eucaristia da Palavra, na paróquia onde ajudou
a construir. Voltou à sua rotina normal, dirigindo sua vida e
seu carrinho. Com o tombo diz ter aprendido uma grande lição:
idoso é idoso... menino é menino!
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