|
Hélio
Sena
Massapê / CE
A
cor da noite
Eu era apenas um frangote quando minha
professora de Educação Artística disse (se bem
me lembro!) que o branco era a REUNIÃO de todas as cores, e que
o preto era justamente a AUSÊNCIA delas.
Pra mim, naquele momento, isso não fazia a menor diferença:
eu não gostava de arte, não gostava daquela professora
idiota, eu não gostava de nada!
Mais tarde, já adulto, me tornei um animal noturno...
(Um notívago – é assim que se fala, não é?)
Por favor, não me julgue, pois eu era apenas um AUSENTE de mim
mesmo. Minha prisão não tinha grades – e essa é
a pior. E lá no meio desse tumulto todo, somente o preto alucinante
da noite conseguia REUNIR os cacos menorzinhos do meu... do meu –
existe palavra correta pra substituir “coração”?
Eu não sei, nem lembro a última vez que peguei num dicionário...
Mas, pra falar a verdade, agora até agradeço não
saber!
O que eu sei bem é que me esgueirava rápido por entre
as sombras, disfarçado na escuridão. Ia rápido
e sozinho – e às vezes em bando. Mas sempre sem medo; sempre
perigosamente...
Pois foi assim – de perigo em perigo – que uma noite me
deparei com aquela antiga professora.
Quando vi a talzinha no bar, não tive logo a certeza se era ela
mesma ou não. Tava velha e feia, e bebia solitária no
pé do balcão. Me aproximei e fiquei observando por algum
tempo, antes de falar com ela:
– Dona Carmem?
Ele me olhou surpresa, e bastante séria:
– Quem é você?
– Fui seu aluno na sexta série...
– É?
– A senhora dava arte. Falava das cores primárias, secundárias...,
daquele pintor estrangeiro que um dia cortou a própria orelha...
Ela bebeu uma dose.
– A senhora lembra de mim?
Ela respondeu com ironia:
– Olha, se eu fosse me lembrar de cada aluno que eu tive!
E então lascou uma gargalhada ferina bem no meio da minha testa...
Ia mandar ela se foder – ela e uma gentalha que ficou me olhando
–, mas fui pro outro lado do balcão e pedi uma cerveja.
Acabei o mais rápido que pude, sempre olhando atravessado pra
megera, e saí da espelunca com um incontrolável desejo
de vingança.
Esperei uma eternidade lá fora, mão na cintura, nervosa,
acariciando o meu tresoitão...
Quando a professora – cambaleando – deixou o bar, eu segui
ela pela calçada.
Num trecho mais escuro, agarrei ela por trás e cochichei no seu
ouvido:
– A senhora não lembra mesmo de mim? Do seu aluninho?
– Não...
– Tem certeza, vagabunda?
– Tenho...
Disparei três vezes – pra ela aprender a lição.
|
|
|