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Rubercil
da Silva Ribeiro
Volta
Redonda / RJ
Meteram
o 357...
Após sobreviver a quase duas horas de flagelo
num trânsito infernal, Gaspar chega para mais um dia de trabalho
com costumeiro atraso: - E aeh rapaziada! Qualé a boa?
Dona Geni, trazendo uma xícara com cafezinho para o amado chefe
foi logo perguntando: - O senhor não soube?
- Do quê, Dona Geni? - Indagou despretensiosamente.
- Meteram o 357.
- Quando foi isso?
- Ontem, por volta das sete da noite na faixa de Gaza.
- Poxa, justamente o meu buzão? Ainda bem que me atrasei na
saída. Mas... digam-me como foi isso?
Imediatamente, alguém ávido por anunciar as novidades
se encarregou da narrativa: - O coletivo rolava tranquilo na seletiva
da Brasil, até que de repente uma voz quebrou o silêncio: – Perdeu
motô! Passa a grana sem estresse. Era um negão chapado,
cheio de disposição e turbinado com uma doze na mão.
O pobre motorista já acostumado com ocorrências do gênero
foi logo suplicando: - Ok! Ok! Perdi, só não esculacha
os passageiros. Muita calma nessa hora... - Mas antes mesmo que terminasse
o apelo um estampido ensurdecedor ecoou no interior do veículo
deixando todos atônitos. Era alguém que aperreado da vida
resolvera acabar com a festa do vagabundo. O pobre diabo tombou ali
mesmo sem saber o que o atingira.
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Chegando em casa cansado e louco por um banho, Gaspar foi logo interpelado
por sua mulher: - Você soube o que aconteceu ontem com o 357?
- Não. Respondeu com a cara mais deslavada.
- Meteram ele. Teve troca de tiro e o escambau.
- Não sei onde é que vamos parar com toda essa violência.
Respondeu Gaspar querendo encerrar o assunto.
- A partir de amanhã você vai ir e voltar de “Limusine
Carioca”. - Sentenciou a devotada patroa cheia de argumento.
- Mas meu bem, a passagem custa quase o dobro e como você sabe
a grana anda curta aqui em casa.
- Não interessa! Faço faxina, lavo roupa pra fora, mas
você não pega mais aquela bagaça dos diabos. E
não se fala mais nisso!
Àquela altura até a sogra do desconsolado Gaspar aproveitava
o ensejo para destilar seu veneno:
- Eu lhe falei, minha filha, pra você não se casar com
esse pé-rapado. Você não quis me ouvir e deu no
que deu. Agora corre o risco de ficar viúva recebendo uma merreca
de pensão e com três pirralhos pra criar. Você deveria
ter feito como sua prima Mariana, casou-se com o finado Zé do
Bonde e hoje mora feliz numa mansão lá na Moreira Cesar
com carro na garagem e tudo.
- Mas mãe, ele era traficante.
- Não interessa! O que importa é o saldo bancário.
A velha futriqueira chegou na casa do pobre Gaspar pra passar um final
de semana, mas montou acampamento no quarto das crianças, e
lá se vão cinco anos de desassossego.
Não havendo outro jeito, com o voto vencido, o resignado Gaspar
teve que se enquadrar às ordens da patroa.
Apesar dos pesares sua viagem tornara-se mais prazerosa a bordo da
confortável Limusine que oferecia aos diletos passageiros entre
outras coisas, ar condicionado, TV, música ambiente... Fato é que
todo aquele luxo o deixava mais disposto pro trabalho e até pra
família.
Até que numa fatídica sexta-feira todo seu sossego teve
fim. Voltando do trabalho a bordo de sua carruagem de sonhos, teve
seu habitual cochilo despertado por uma voz grave e assustadoramente
audível: - Perdeu, motô! Passa a grana, sem estresse...
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