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Conto publicado no Livro "Tempo de Tudo" - Autores Brasileiros" - Novembro de 2011

Rubercil da Silva Ribeiro
Volta Redonda / RJ

 

Meteram o 357...

 

Após sobreviver a quase duas horas de flagelo num trânsito infernal, Gaspar chega para mais um dia de trabalho com costumeiro atraso: - E aeh rapaziada! Qualé a boa?
Dona Geni, trazendo uma xícara com cafezinho para o amado chefe foi logo perguntando: - O senhor não soube?
- Do quê, Dona Geni? - Indagou despretensiosamente.
- Meteram o 357.
- Quando foi isso?
- Ontem, por volta das sete da noite na faixa de Gaza.
- Poxa, justamente o meu buzão? Ainda bem que me atrasei na saída. Mas... digam-me como foi isso?
Imediatamente, alguém ávido por anunciar as novidades se encarregou da narrativa: - O coletivo rolava tranquilo na seletiva da Brasil, até que de repente uma voz quebrou o silêncio: – Perdeu motô! Passa a grana sem estresse. Era um negão chapado, cheio de disposição e turbinado com uma doze na mão. O pobre motorista já acostumado com ocorrências do gênero foi logo suplicando: - Ok! Ok! Perdi, só não esculacha os passageiros. Muita calma nessa hora... - Mas antes mesmo que terminasse o apelo um estampido ensurdecedor ecoou no interior do veículo deixando todos atônitos. Era alguém que aperreado da vida resolvera acabar com a festa do vagabundo. O pobre diabo tombou ali mesmo sem saber o que o atingira.

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Chegando em casa cansado e louco por um banho, Gaspar foi logo interpelado por sua mulher: - Você soube o que aconteceu ontem com o 357?
- Não. Respondeu com a cara mais deslavada.
- Meteram ele. Teve troca de tiro e o escambau.
- Não sei onde é que vamos parar com toda essa violência. Respondeu Gaspar querendo encerrar o assunto.
- A partir de amanhã você vai ir e voltar de “Limusine Carioca”. - Sentenciou a devotada patroa cheia de argumento.
- Mas meu bem, a passagem custa quase o dobro e como você sabe a grana anda curta aqui em casa.
- Não interessa! Faço faxina, lavo roupa pra fora, mas você não pega mais aquela bagaça dos diabos. E não se fala mais nisso!
Àquela altura até a sogra do desconsolado Gaspar aproveitava o ensejo para destilar seu veneno:
- Eu lhe falei, minha filha, pra você não se casar com esse pé-rapado. Você não quis me ouvir e deu no que deu. Agora corre o risco de ficar viúva recebendo uma merreca de pensão e com três pirralhos pra criar. Você deveria ter feito como sua prima Mariana, casou-se com o finado Zé do Bonde e hoje mora feliz numa mansão lá na Moreira Cesar com carro na garagem e tudo.
- Mas mãe, ele era traficante.
- Não interessa! O que importa é o saldo bancário.
A velha futriqueira chegou na casa do pobre Gaspar pra passar um final de semana, mas montou acampamento no quarto das crianças, e lá se vão cinco anos de desassossego.
Não havendo outro jeito, com o voto vencido, o resignado Gaspar teve que se enquadrar às ordens da patroa.
Apesar dos pesares sua viagem tornara-se mais prazerosa a bordo da confortável Limusine que oferecia aos diletos passageiros entre outras coisas, ar condicionado, TV, música ambiente... Fato é que todo aquele luxo o deixava mais disposto pro trabalho e até pra família.
Até que numa fatídica sexta-feira todo seu sossego teve fim. Voltando do trabalho a bordo de sua carruagem de sonhos, teve seu habitual cochilo despertado por uma voz grave e assustadoramente audível: - Perdeu, motô! Passa a grana, sem estresse...


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