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Antologia on line
 
 

Francisco Maciel de Oliveira Borges Neto
Santos / SP


O final do filme

 

Carlos e Bárbara já tinham viajado a vários lugares do mundo quando se apaixonaram. Visitar as mais diversas paisagens era o hobby predileto dos dois. Mas ao contrário do que se pudesse imaginar, acabaram se conhecendo em uma locadora de vídeo, quando, inadvertidamente, colocaram as mãos juntas em cima do mesmo filme, o último que restava com o título "No Amor e Na Guerra". Sorriram, fixaram os olhos um no outro, comentaram a coincidência e se apresentaram, aproveitando as mãos que ainda se tocavam. Conversaram trivialidades sobre cinema enquanto debruçavam sobre si olhares constantes e disfarçados. Mas apesar da notória afinidade foram demonstrando não ceder, e como já apresentavam os pródomos da paixão, combinaram de assistir o filme juntos, após um débil constrangimento dissimulado.

Carlos era alto, moreno claro realçado por um bronzeamento inveterado, os olhos grandes e castanhos sob sobrancelhas grossas, o cabelo preto e curto não era teimosamente arrumado, pois sabia do charme de tê-lo parcialmente à toa, vestia uma calça azul marinho e uma camisa branca com as mangas dobradas no antebraço e dois botões abertos, que deixavam os pelos à mostra, o corpo esbelto e de músculos bem distribuídos do jovem empresário não se escondia. Bárbara era apenas um pouco mais baixa, exibindo a pele branca e saudável, os olhos verdes e incisivos, a boca de lábios redundantes, os cabelos dourados desciam ondulados e vivos até quase a cintura, que era fina e delicada, dando a impressão a qualquer homem da facilidade de erguer aquela mulher pela cintura até sentir de perto o cheiro perfumado do umbigo, mas a roupa de ginástica da advogada denunciava aquele farto e esplendoroso corpo maduro, onde tudo se notava exuberante, nada em excesso.

Porque era solteira, independente e morava sozinha, ofereceu sua sala para a sessão. O empresário divorciado aceitou de pronto a sugestão, pois havia voltado a morar com os pais. Ambos tinham a mesma idade, trinta anos. E foi na meia-luz produzida pelo filme, no tapete macio da sala, entre pipocas, almofadas e controles remotos, que Carlos, com todos os seus músculos em tensa ebulição, sentiu o corpo colossal e sedento de Bárbara estremecer de desejo em suas mãos grandes e grossas, as quais se ajustavam firmemente na cintura rítmica e veloz da fêmea, que urrava apoiada sobre o veludo e jogava os cabelos loiros e desvairados pra trás, enquanto ele, inebriado, imaginava que estes fios dourados também se ajoelhavam implorando serem puxados com força. E juntos fizeram a primeira viagem em direção ao êxtase, às estrelas. Havia passado apenas trinta minutos do filme.

Seriam aqueles os ingredientes perfeitos para uma inesquecível viagem a dois no final do ano que se aproximava? - questionaram-se Carlos e Bárbara, deitados em seus quartos e olhando para o teto. Ele desejava aproveitar as férias de dezembro na Austrália, desbravar as praias e arrojar sobre pranchas de surfe, projeto que ansiava há algum tempo. Ela planejara todos os detalhes de sua ida a Nova Iorque, curtir a neve e sentir o clima natalino no hemisfério norte. Criou-se, então, um impasse. Mas eis que este não demorou a ser desfeito, pois a independência de Bárbara e a auto-suficiência de Carlos, entre outras, resolveram o imbróglio. Tácitos, deixaram nas entrelinhas o término da relação recém iniciada. Cada um faria a sua própria viagem.

Ele conheceu as praias mais badaladas, ficou bronzeado como nunca, surfou as ondas mais radicais e até flertou com algumas estrangeiras. Porém, amiúde, a sucessão de ondas sinuosas desenhava incansavelmente os contornos lascivos do vasto corpo de Bárbara; no verde mar, os verdes olhos; nos grãos de areia da praia brilhavam as luzes do Natal nova-iorquino. Ela brincou na neve, passeou no Central Park, vestiu suas roupas mais elegantes, fez compras de Natal e até flertou com alguns estrangeiros. Mas, sem querer, enquanto formava com delicadeza uma bola de neve, sentia como se estivesse esfregando com suas mãos o braço forte e o peitoral lúbrico de Carlos; a lareira não aquecia suas entranhas tão intensamente quanto o sol australiano. Onipotentes, concluíram apenas como ardentes recordações de uma tresloucada paixão.

Voltaram ao Brasil e contaram as novidades a todos. Depois, sozinhos, deitados em seus quartos e olhando para o teto, lembraram que não tinham assistido ao tão desejado filme. Ela, prática, havia comprado o filme durante a viagem. Ele, supersticioso, foi em outra locadora receando nova coincidência. Degustaram a película cena por cena, desta vez sem interrupção, e concluíram, num ato de profícua reflexão, que aquele não era o desenlace que desejavam para o filme que estavam encenando.

Após um diálogo terno e convergente, encontraram-se no terraço da cobertura onde ela morava. O reluzir da lua acomodava a penumbra e o zênite estipulava os limites daquelas almas aflitas. Os lábios ávidos se coseram, cadenciados, o despir se fez lascivo e os pelos eriçados se entrelaçaram. Os corpos fundiram-se na volúpia do olfato entorpecente na pele vaporosa, do paladar salivante, do inaudito do uníssono gemente, da visão caleidoscópica dos movimentos harmoniosos, e enfim, do tato revelado no toque sagaz em busca de todos os recônditos do prazer. Olhos nos olhos, sentados e abraçados. Carlos havia erigido o império da sensualidade, Bárbara tomara posse do trono e reinava soberana e absoluta, o que os levaram ao esplendor extasiante do apogeu. Configurava-se, neste momento, uma viagem insólita em direção a um lugar muito mais distante e edificante que as estrelas: as profundezas de suas próprias redenções e resignações. Havia passado apenas trinta anos do filme de suas vidas.

 
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Sensualidade em Prosa & Verso - Edição 2009