|
|
|
Antologia
on line |
Gélcio
de Barros Sormani Pouco o bastante
Heber estava casado com Elza, dez anos mais nova que ele e suficientemente atraente para despertar, de imediato, os pensamentos mais libidinosos na mente do amigo. Libidinosos, sim, mas sempre prudentes e discretos, na medida do possível, é claro. Elza, embora atraente, não era tão bonita assim, a ponto de despertar paixões avassaladoras. Era baixinha, morena, olhos verdes, mas tinha um belíssimo par de seios, sempre ousadamente camuflados por trás das suas clássicas blusas de voal. Elam belos, sim, qualquer um podia perceber ao primeiro olhar. E era isso justamente que fazia dela uma mulher diferente, sensual. Ela sabia disso, e daí, com certeza, a preferência por aquelas blusas esvoaçantes. Gustav, já beirando os sessenta anos, estava viúvo há cinco. Nesse período, nenhuma outra mulher conseguira despertar seu Eros adormecido, por mais que algumas voluntárias mais despojadas tivessem tentado tal proeza. Ele parecia conformado com a viuvez, era daquele tipo de homem que costuma sepultar também o desejo na tumba do amor partido. Mas a chegada de Elza mexeu seriamente com seu ânimo. A vontade de olhar para os seios de Elza era quase que incontrolável. Sempre que estavam juntos, fosse num restaurante ou nas freqüentes visitas que se faziam mutuamente, Gustav esperava um momento propício, longe dos olhos de Heber, para fixar-se naquelas arfantes protuberâncias que pareciam sempre estar bailando ao sabor dos ventos. Sonhava com eles, imaginava-os desnudos, palpáveis, doces e gananciosos. Só sonhava, imaginava, fantasiava. Só isso. Nenhum ato mais ousado, nenhuma consideração mais impertinente, nenhuma tentativa. Elza há muito havia percebido o controlado desejo de Gustav, mas sentia-se incólume, imaculada; confiava nele e até gostava daquilo. Ele era um homem inteligente, culto, tinha até algum charme. Mas era amigo do seu marido. Mas nem por isso deixava de excitar-se ao se sentir alvo daquela cobiça. Era sempre assim, como um jogo de mitos e tabus. Quis
o destino, entretanto, que depois de dois anos Heber fosse transferido
para Colonia, no nordeste do país. Este nomadismo era a sua
sina como engenheiro de estradas. Naquela noite, todavia, Elza não vestiu uma das suas maravilhosas blusas de voal, mas um leve vestido branco de malha, com um generoso decote deixando os seios como que flutuando à sua frente. Era como se os apresentasse a Gustav, naquele jantar de despedida, na sua quase totalidade. Gustav
conteve-se o quanto pôde, e pôde até que num
raro, estudado, e milimetricamente decidido momento, enquanto Heber
preparava um creme de aspargos com croutons, aproximou-se de Elza
e, com suave ousadia, desceu a alça do seu vestido até
que o seu seio direito se exibisse plenamente. Elza não esboçou
qualquer reação. Gustav sequer o tocou. Apenas olhou,
olhou... Depois, levantou novamente a alça, como que devolvendo
o manto à sua deusa. Tudo isso em três ou quatro segundos.
Não mais do que isso. |
|
Publicado
na Antologia "Sensualidade em prosa e verso" - Edição
2008 - Outubro de 2008 |