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José Heber de Souza Aguiar
Porto Alegre / RS

Dilemas dum celibatário



sigo-te feito nuvem a cobrir o brilho
de tão ardente raio a morrer
na tua pele, no jeito teu de ser
acariciando-te como o sorriso criança dum filho

carrego-te em sonhos, em meu querer profundo
és minha lágrima, minha angústia e até encanto
o amor que nunca tive, minha paixão em pranto
derramada na sina desastrosa desse meu mundo

bate-me à boca a tua dura prova
quando queres do meu ser tudo o que não posso
fazer-te a mais bela, quando o nosso
segredo venha a nos dar vida nova

fazes-te de morta pondo-me sempre à prova
és a mais louca, a mais cruel, a mais quente
de todas as mulheres, a que me meu corpo mais assente
a princesa Daiana da mais florida cova

a Santa do mais alto andor és tão somente
a deusa a quem se curvam todos os humanos
a hora da primavera, os dias mais floridos dos anos
em que passam despercebidas as pobres horas mais carentes

não consigo ver-te, és filhote perdido no ninho
a mais protegida criatura da mãe-ave contente
quero deixar-te (sei que minh'alma mente)
quando quero-te minha eterna guia, meu caminho

a natureza te protegeu, fez-te a mais linda flor
a irradiar beleza, perfume e esperança
no jardim esquecido onde pões-te solita criança
a viver triste, amaldiçoada por tão grande amor

ah, alma! por que tão sempre dura e dócil
entranhada à natureza cruel do teu amor
plantada eternamente na fina dor
gerada antes do teu ser em fóssil?

quero-te sempre louca, sempre rouca, sempre tu
deixa-te leve em corpo, mente, alma e solidão
dedicar-te-ei a minha mais bela poesia em canção
ao ver-te mulher, a tentação em corpo nu

é puro e óbvio o amor que tens a tudo
faço-me grande, pequeno e invisível
para ser parte desse teu amor indizível...
é quando sofro, choro, me iludo

pasmo fico, tolo, torto, morto, mudo
num mundo curto, limitado, perdido
a querer sempre o que não posso, ferido
levanto, mudo a face, visto escudo

para me proteger de ti, minha eterna tentação
que vai e vem quando não espero
nego-te a existência de meu amor e nunca o revelo
nem digo o quanto mexes comigo e me confunde a emoção

vejo-te sempre em minha frente ao natural
vens a meu encontro, beijas-me a boca e me abraça
quando se me apresenta o senso moral e tu logo passa
e fica o julgamento do que me fizeram crer que era um mal

mas o desejo é grande e minha força pequena
porque és insistente, o que me envaidece
tirando minha segurança, teu amor me enfraquece
e passo a desejar-te, outra vez, minha pequena

meu sonho é sempre curto, um dia termina
e não a levarei nesses mochos e cansados braços
não a terei naquele calor fraterno dos amassos
e nem serei o teu amor eterno de quando menina.

 
     
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Publicado na Antologia "Sensualidade em prosa e verso" - Edição 2008 - Outubro de 2008