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Antologia
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O tempo dirá
Sem nenhuma reação aparente, perdurou a dúvida. Teria que ser mais ousado? E maquinou outra chance, outra oportunidade teria que ser criada. Com ares de "inocência" esboçou um galanteio que lhe daria a senha da continuidade: \"São bonitos seus cabelos\"! Ao falar os tocou de forma suave, porém roçando-lhe os dedos no cangote, de forma \"acidental\", como da outra vez. Na verdade nada ingênuo, conhecia a anatomia feminina, afinal era profissional da área biológica, conhecia como ninguém as regiões erógenas do corpo humano. Já dera palestras sobre o assunto para jovens casais candidatos ao matrimônio. Tudo parecia inútil. Embora latente o desejo, ela transparecia desconhecer o ambiente, nenhuma reação era sequer esboçada. De recusa ou de assentimento. Nada. E a dúvida perdurou. Teria ela realmente estado insensível por todo o tempo? Talvez ficasse aborrecida e, por delicadeza ou necessidade de fazer o trabalho, a tudo suportara, mesmo a contragosto. E o restante do horário do expediente insinuava indiferença, disfarçada normalidade. Tudo sem novidade, nenhuma ação ou reação. Final do expediente, hora da partida. Na despedida outra tentativa. Se desse errado não tentaria mais. Desistiria. A coragem era pouca para ser mais explícito nas intenções, mas ainda assim tentaria. Afinal, se desse errado, nada perderia, apenas sofreria algum constrangimento que, com o tempo, passaria e tudo seria esquecido. Caso desse certo poderia ser o início de um romance, talvez até uma união duradoura, sem casamento, pois isso parecia fora de moda. O melhor seria cada um em sua casa, a rosa de longe cheira mais. Não é esse o ditado popular? Ao se despedir ela estendeu-lhe a mão, que foi ligeira e suavemente beijada. Ele elevou a mão até a cabeça da moça, ergueu-se até a ponta dos pés (ela era mais alta que ele), aproximou-se-lhe do rosto e percebeu a fragância de um perfume agradável, embora indefinido. Deu-lhe um rápido beijo na testa, de forma convencional como se fossem duas pessoas formais, talvez em uma solenidade ou em um momento cerimonioso qualquer. Ato contínuo ao beijo ela, inesperadamente, alcançou-lhe a boca e o beijou calorosamente, o que foi correspondido. Como se estivesse arrependida pelo gesto impulsivo, agiu bruscamente, simulando censura: por que você fez isso? Ao perceber que ela buscava uma justificativa para seu ato por ela mesma censurado, censura essa que a impelia a transferir para o parceiro, como se isso amenizasse a culpa condenada por seu superego, ele a tranquilizou: por que se preocupar? Não aconteceu nada de grave!. E ela se foi, fechando atrás de si a porta, deixando inquieto aquele profissional que só pôde descarregar suas energias da libido no banheiro. Após o ato solitário da descarga erótica ele forçou a barra pessoal para que tudo voltasse à normalidade. Pretendia esquecê-la, era profissional em início de carreira, um envolvimento mais sério poderia dificultar-lhe o futuro. Inútil tentativa: ela já fazia parte de seu cérebro, sua mente dominada pela ausente presença da moça. O dia seguinte chegou com um sol frio, angustiado pela dúvida: teria ultrapassado os limites no primeiro dia? Teria corrido com a caça? Os minutos eram eternos, a hora arrastava-se na lentidão dos minutos. Ela, de fato, deixou de comparecer para o encontro de continuidade da consulta. Passou a sexta-feira e também o sábado sem que desse sinal de vida. A cada leve sussurrar da jardineira da repartição parecia o prenúncio de sua chegada, emoção que, vez após vez, enchia-se de desolação. Parecia um fim, mesmo sem começo. Afinal o passado do primeiro dia representou tão pouco para o muito que passou a ser esperado. No domingo, o encontro dos dois no bingo do clube. Enquanto se cantava cada pedra, uma após a outra, ela era disfarçadamente procurada com o olhar, com fingida indiferença. Na verdade ele queria chegar até ela, desculpar-se pelo atrevimento, pela ousadia daquele dia na repartição. A amizade entre os dois teria que continuar. Assim que a multidão dispersou ele percebeu que ela ensaiava partir e se aproximou: tem que ser agora ou nunca! Mentalizou. Toda sua experiência no trato com mulheres pouco lhe encorajava, parecia um adolescente tímido, porém decidido. Não poderia deixar para depois. Arriscou uma frase: você não voltou para continuar a consulta? Ficou aborrecida com alguma coisa? Antes que ela respondesse qualquer coisa, continuou a perguntar: quando você vai voltar para a pesquisa? Ou já a fez em outro lugar? A resposta foi natural como se nada tivesse ocorrido de anormal. E era verdade, nada havia de errado, ele estava convencido disso. E ficou transbordante de alegria com a resposta. Ela voltaria no dia seguinte, na segunda-feira. Naquela tarde tudo parecia mais colorido, o adolescente que vivia nele ressurgiu, voltou a sonhar. A noite veio, longa, dormira pouco, levantara diversas vezes. A insônia pelo pensar na moça o deixou inquieto. O relógio parecia ter ponteiros com pés de chumbo. O dia custou a raiar e o sol veio grande e quente, grande como sua esperança e quente como sua emoção. Afinal de novo o dia seria suave. O amor parecia confirmar, porém ele prometia a si mesmo que seria cauteloso, ficara assustado com a possibilidade de perder a musa que o inspirou diversos quadros na moldura da emoção. Finalmente uma voz o chamou. Era ela, dengosa, sensual, bonita, sedutora. A saudade foi recompensada. Tudo como se nada tivesse ocorrido de constrangedor, o susto havia passado. Para que se preocupar com o perigo, se o lobo ameaçador, agora pacificado, dera lugar ao cordeiro manso e dócil? Cumprimentaram-se afetivamente com um beijo e se acariciaram ligeiramente, sem maiores intimidades. Voltaram os dois para as atividades de rotina, ele em seus afazeres, ela na pesquisa. Porém o tempo era precioso demais para ser perdido. Algo teria que ser feito, e com urgência. Aquela calmaria aparente teria que dar lugar à verdade, que era o fogo que queimava cada um dos dois que se faziam de indiferentes, compenetrados. Finalmente os olhares novamente se cruzaram como faíscas em curto circuito prontas para propagação das chamas em incontido incêndio de dois corações, assustadora e gostosamente apaixonados. Ele
se levantou solenemente, caminhou em direção à
mesa em que a moça se encontrava e acariciou-lhe os cabelos,
beijando-lhe a nuca. Ela virou-se-lhe a face parcialmente, colocando-se
como de perfil, tocou-lhe a face carinhosamente e se beijaram. O interstício de tempo dedicado ao trabalho foi camarada, passou logo e chegou novo momento de afeto na despedida. Beijos e novas investidas rumo ao desconhecido e inexplorado mundo da sensualidade. Pelo menos essa era a impressão vivida no momento. Após tatear aquelas duas colinas protegidas pelo tecido de malha macia ele investiu sutilmente com as mãos por debaixo da blusa para um contato que só Edipo poderia explicar melhor. Talvez Freud também explicasse. Diante de uma tênue reação opositiva, quase mesmo com os intermitentes nãos que mais pareciam sins, como se dissesse prossiga, eu quero sentir mais emoção, toda essa emoção que fora recalcada durante toda uma adolescência vivida na espera desse momento. Ela cobria os seios com as mãos, contudo, na medida em que as investidas dele se tornavam mais ousadas, as mãos mudavam, estrategicamente, de posição, ele chegou solemente ao De Milus. E ela perguntava, talvez sem querer resposta verbal: o que você está fazendo? Não, não faça isso! Em sussurros ele respondia: Nada. Não estou fazendo nada! Quero apenas fazer um carinho gostoso em você. Ela recuava a mão, ele avançava, já agora liberando uma daquelas peras morenas, sensuais, rijas, mamilo saliente pela excitação. E ele ousou ainda mais, arriscou-lhe um beijo morno no seio moreno, que foi incontinentemente recomposto com a blusa, apressando-lhe a saída, com a promessa de voltar no dia seguinte para a continuidade do trabalho. *
* * * * As glândulas da amamentação foram pacifica e favorecidamente liberadas. Como se de veludo, os dedos clínicos examinavam centímetro por centímetro de emoção e sensualidade. Agora com o auxílio dos lábios, como se profissionais mais experientes estivessem a concluir o trabalho, agora de sucção. Ela fechava os olhos, gemia bem baixinho, comprimia os seios com maior força contra a gulosa boca do parceiro. Parceria é palavra pequena, vazia de significado para expressar tanta emoção e sensualidade vividas naquele momento. Uma verdadeira simbiose. Enquanto isso as mãos exploradoras buscavam outros campos daquela território convidativo para aventuras cada vez mais ousadas. Desciam pelas costas, atingiam duas outras protuberâncias indefinidamente de proporções superiores, as mãos eram pequenas para conquistá-las de uma vez. Pequenas mas eficientes, era como se uma bússola as teleguiassem rumo ao triângulo do amor. Coxas quentes, bem torneadas, enriqueciam o ambiente, onde outra De Milus dava lugar a novos avanços. A vigilância, porém, foi prudentemente acionada. Ela se recompôs com censura: não deveríamos estar fazendo isso! Como bom estrategista ele recuou com o propósito de continuidade no dia seguinte. *
* * * * O triângulo de vênus já era território conhecido, acariciado, onde se destacava uma amêndoa lubrificada por um mel cuja fragância exalava inebriante perfume pelo ambiente onde apenas os dois eram atores e público. Como se agentes criadores do recém inventado amor. Ela se extasiava, os lábios sequiosos desciam em amparo às mãos para a complementação de uma seção onde só a emoção e o êxtase tinham lugar. Um novo visual, antes apenas tocado, agora também admirado por dois olhos gulosos, famintos de emoção e prazer. O monte de vênus, agora descoberto, era a atração maior. E ela dizia: não faça isso, eu não aguento mais, isso é tortura. As palavras eram vazias de significado, pois a cada avanço, agora dos lábios, ela favorecia, abria a guarda, liberava o ambiente para o felizardo explorador. Como para tudo há limite, quando o órgão da fala e da percepção do sabor atingiu o ponto G ela, em sobressalto, terminou a sessão. Isso não! Recompôs-se e partiu. No dia seguinte voltaria. *
* * * * O fecho ecler foi facilmente deslizado e a De Milus afastada para um lado, permitindo novos avanços e prometendo maiores emoções, antes jamais experimentadas pelos dois. Os grandes lábios, depois os menores, finalmente o ponto do "y" de cabeça para baixo. A umidade pelo óleo aromatizado aumentava a excitação, ela liberava por inteiro o paraíso do amor e ele utilizou racionalmente de suas energias, levando-a aos píncaros da excitação. Ela fechava os olhos como se para não se tornar cúmplice daquela aventura que ela mesma favorecia, incentivava. E a operação-prazer prometia novos lances, agora era ele que liberava o protagonista de eros, liberando a divindade grega para o colóquio dos deuses, onde os entes da mitologia se confundiam em um congraçamento de eros, afrodite, vênus, falus... por fim toda uma legião, uma plêiade de personalidades ilustres da literatura universal formadora da emoção greco-latina. E no festival mitológico ela contorcia, arfava, sussurrava desconexas orações e ele não se deu por vencido. Sentiu-se encorajado e permitiu que seu herói buscasse um encontro mais íntimo com a heróina de sua amada. Porém, quando os dois se tocaram, no choque ambos se despertaram e ela encerrou a incompleta sessão. Ficara, contudo, a promessa do reencontro no dia seguinte. Na despedida ela se permitiu tocar com as mãos aquele personagem que, em seus planos, um dia seria de completa intimidade. O id venceu o superego naquela memorável manhã. A sessão de amor tivera início mal chegara. A própria indumentária favorecia o cerimonial. Ela trajava tão somente uma capa presa por botões na abertura frontal, dos ombros a um pouco abaixo dos joelhos. Cada botão cedia lugar ao aumento das emocionadas incursões, com a multiplicação da excitação das partes envolvidas no solene ato. E os dois, pela primeira vez, se permitiram a intimidade quase que absoluta, pele desnuda, corpo-a-corpo, corpo-no-corpo, verso e reverso, anverso, a integridade do verso. Todos os membros tocavam todos os poros, a sucção recíproca, pela primeira vez, gratificou a ambas as personagens do espetáculo, onde o prazer era a palavra de ordem. Porém, no momento em que ela mesma, com as próprias mãos, indicava a direção do mastro rumo à gruta doce regada pelo mel-prazer, maná da vida, os sinos tocaram e tudo se despertou. O encontro final das duas celebridades da mitologia deixou de acontecer. O superego, finalmente, autoritário, acabou coma festa, que deixou de se consumar. O paraíso, em sua intimidade e profundidade total terá que aguardar novos tempos. Isto porque uma legião de fatores, estranhos, porém pertinentes, impediram que tudo se consumasse. Talvez para o bem dos gregos e goianos. E o futuro dirá o que de fato virá. |
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Publicado
na Antologia "Sensualidade em prosa e verso" - Edição
2008 - Outubro de 2008 |