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Eu e Caetano
A frase debruçou-se sobre a força da língua e os olhos de Caetano, grandes, viçosos e donos do breu, olhavam-me com certo desdém, como quem olha um velho amor em outros braços que não os seus. O rio que descia na escada frontal daquela velha casa colonial seguia o seu rumo, areia, pedra, cachoeiras, secas, nascentes até chegar ao mar que é aonde tudo começa e finda, como nossa estória. Eu continuei a minha retórica e aqueles olhos, olhos de Caetano, olhos de quem chora à seco, continuaram de forma austera a percorrer minha fala e gestos, eu tinha medo daquele sujeito. Eu poderia estar a falar das mais belas fabulas às mais apoteóticas catástrofes e aqueles seriam os mesmo olhos incrédulos sobre qualquer perspectiva, do lirismo ao clichê, dos cravos ao bidê, aquele cão maldito se chamava Caetano. [Ele e Eu] Dele sabia-se pouco, sobre as quatro patas chegara por aqui, lânguido como se espera de um recém nascido, em uma cesta qualquer, com farrapo envolvido à beira do rio. Seria ateu, profano dizer que tal companhia não invadia a solidão e a colocava para fora, por muitas vezes éramos nós, eu e ele numa casa esquecida no meio do nada e sendo assim não poderia eu reclamar de suas rabugices e muito menos da forma como me olhava, acima de tudo "Cae" era um ótimo ouvinte. [Astronomia, fases da lua, marés e outros fenômenos naturais] Lembro-me que certa feita, no verão passado, fui com o Caetano até a margem do rio e ensinei-lhe algo sobre astronomia, fases da lua, marés e outros fenômenos naturais ( lembro daqueles olhos como se fosse hoje ) mas foi no inverno desse ano que se deu a desgraça em nossas vidas. Depois de dois dias interruptos de uma tempestade o rio à frente da casa subiu alguns metros, lembro-me daqueles olhos presos à fúria com que o rio levara a margem e as árvores ao seu redor, eram os mesmos olhos de felicidade. Ao anoitecer o rio já havia invadido a casa à altura do umbigo (eu estava amarrado a uma cadeira com rodas). [Um outro Olhar] Se não me foge a memória foi nesse exato momento que vi pela primeira e de fato ultima vez algo que não era inerente à aquele olhar, algo se perdeu dentro de Caetano, o fio da vida. Por já não sentir as pernas devido a ruptura da porção inferior da medula, não percebi que a hipotermia se apossava do meu corpo, os músculos faciais se contorciam e em espasmos faziam dos dentes belas castanholas, aquilo me fazia sentir mais frio e o desconforto do medo diante a minha fragilidade só aumentavam os tremores e o descontrole muscular. Como nunca tivera feito anteriormente, Caetano se lançou ao meu socorro como o desespero de um filho a um pai (ele não era para mim parte da prole).
Eu senti
a morte então, era bela, serena e anestesiante como drogas
que durante a mocidade havia experimentado e as quais não pretendo
elucidar nessa minha ultima memória. Os olhos perdidos de Caetano
pairavam sobre os meus cansados de viver, eu sentia o tremor sobre
a sua pele, parecia a extensão da minha, a alma esvai-se de
pouco a pouco e logo restar-nos-ia a carne pura. O ranger da porta
anunciava o prefácio e o epílogo de tudo que viria,
a água vazava pelas maçanetas douradas das portas imensas
e inertes do casarão. Às vezes entre o temor e a esperança
do ultimo gozo olhava para o teto aberto daquele que era o meu casarão,
e absorto viajava entre aquelas constelações que começavam
uma luta bravia contra o cinza chumbo das chuvas, essa fora a ultima
fotografia irreal. A morte abriu-me os olhos. [O Caetano] "Aquele cão maldito se chamava Caetano."
[O epílogo] Foi aí então que a porta desceu abaixo e arrancou de nossas massas a alma, libertou-me do cárcere daquelas rodas inúteis e de Caetano libertou a alma para que essa alcançasse vôos, os mais altos e transmissíveis, vôos que os olhos de cão aprisionavam. Ainda vi bailar daqui de cima os dois corpos inchados, flutuando rio a fora até o mar. E foi lá que pela última vez vi aquelas tais gaiolas das quais não queremos ver-nos ligados mais, jamais, nunca mais!
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de Contos de Autores Contemporâneos - Edição Especial
- Dezembro de 2008 |