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Leonardo Moreira de Andrade
Salvador / BA

Eu e Caetano



[Aquele Olhar]

A frase debruçou-se sobre a força da língua e os olhos de Caetano, grandes, viçosos e donos do breu, olhavam-me com certo desdém, como quem olha um velho amor em outros braços que não os seus. O rio que descia na escada frontal daquela velha casa colonial seguia o seu rumo, areia, pedra, cachoeiras, secas, nascentes até chegar ao mar que é aonde tudo começa e finda, como nossa estória. Eu continuei a minha retórica e aqueles olhos, olhos de Caetano, olhos de quem chora à seco, continuaram de forma austera a percorrer minha fala e gestos, eu tinha medo daquele sujeito. Eu poderia estar a falar das mais belas fabulas às mais apoteóticas catástrofes e aqueles seriam os mesmo olhos incrédulos sobre qualquer perspectiva, do lirismo ao clichê, dos cravos ao bidê, aquele cão maldito se chamava Caetano.

[Ele e Eu]

Dele sabia-se pouco, sobre as quatro patas chegara por aqui, lânguido como se espera de um recém nascido, em uma cesta qualquer, com farrapo envolvido à beira do rio. Seria ateu, profano dizer que tal companhia não invadia a solidão e a colocava para fora, por muitas vezes éramos nós, eu e ele numa casa esquecida no meio do nada e sendo assim não poderia eu reclamar de suas rabugices e muito menos da forma como me olhava, acima de tudo "Cae" era um ótimo ouvinte.

[Astronomia, fases da lua, marés e outros fenômenos naturais]

Lembro-me que certa feita, no verão passado, fui com o Caetano até a margem do rio e ensinei-lhe algo sobre astronomia, fases da lua, marés e outros fenômenos naturais ( lembro daqueles olhos como se fosse hoje ) mas foi no inverno desse ano que se deu a desgraça em nossas vidas. Depois de dois dias interruptos de uma tempestade o rio à frente da casa subiu alguns metros, lembro-me daqueles olhos presos à fúria com que o rio levara a margem e as árvores ao seu redor, eram os mesmos olhos de felicidade. Ao anoitecer o rio já havia invadido a casa à altura do umbigo (eu estava amarrado a uma cadeira com rodas).

[Um outro Olhar]

Se não me foge a memória foi nesse exato momento que vi pela primeira e de fato ultima vez algo que não era inerente à aquele olhar, algo se perdeu dentro de Caetano, o fio da vida. Por já não sentir as pernas devido a ruptura da porção inferior da medula, não percebi que a hipotermia se apossava do meu corpo, os músculos faciais se contorciam e em espasmos faziam dos dentes belas castanholas, aquilo me fazia sentir mais frio e o desconforto do medo diante a minha fragilidade só aumentavam os tremores e o descontrole muscular. Como nunca tivera feito anteriormente, Caetano se lançou ao meu socorro como o desespero de um filho a um pai (ele não era para mim parte da prole).


[A porta]

Eu senti a morte então, era bela, serena e anestesiante como drogas que durante a mocidade havia experimentado e as quais não pretendo elucidar nessa minha ultima memória. Os olhos perdidos de Caetano pairavam sobre os meus cansados de viver, eu sentia o tremor sobre a sua pele, parecia a extensão da minha, a alma esvai-se de pouco a pouco e logo restar-nos-ia a carne pura. O ranger da porta anunciava o prefácio e o epílogo de tudo que viria, a água vazava pelas maçanetas douradas das portas imensas e inertes do casarão. Às vezes entre o temor e a esperança do ultimo gozo olhava para o teto aberto daquele que era o meu casarão, e absorto viajava entre aquelas constelações que começavam uma luta bravia contra o cinza chumbo das chuvas, essa fora a ultima fotografia irreal. A morte abriu-me os olhos.
Depois de um estrondo, o velho casarão tornou-se minúsculo e amorfo, úmido e esverdeado pelo limo e mofo, o teto que antes ficara a uma distancia indubitavelmente imensa do meu cocuruto, achatou-se e por pouco não se encostou à careca lustrosa que se abria no couro cabeludo, ex-cabeludo.

[O Caetano]

"Aquele cão maldito se chamava Caetano."


Com a morte, a cegueira perdeu o seu trono e a utopia que com os anos e a solidão haviam se estabelecido sobre a minha mente, caíram como cortinas vermelhas e pesadas de veludo. Só aí e somente aí percebi que aqueles olhos só poderiam ser os mesmo, a alma primitiva que lhe habitava não poderia nem se quer como ultimo desejo expor-se pelas portas na face e transparecer seus maiores anseios, Caetano era uma cão, um cão maldito, um cão canino.

[O epílogo]

Foi aí então que a porta desceu abaixo e arrancou de nossas massas a alma, libertou-me do cárcere daquelas rodas inúteis e de Caetano libertou a alma para que essa alcançasse vôos, os mais altos e transmissíveis, vôos que os olhos de cão aprisionavam. Ainda vi bailar daqui de cima os dois corpos inchados, flutuando rio a fora até o mar. E foi lá que pela última vez vi aquelas tais gaiolas das quais não queremos ver-nos ligados mais, jamais, nunca mais!


 
Seleta de Contos de Autores Contemporâneos - Edição Especial - Dezembro de 2008