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O desafio de Cassiano
Um dia Floriano morreu, e Cassiano sofreu muito. Eram amigos há mais de trinta anos, desde os tempos do ginasial em Araraquara. Floriano era católico, e sua esposa, Alaíde, é claro, mandou rezar a missa de sétimo dia. E Cassiano foi, a memória do amigo justificava essa deferência. Na igreja, poucas pessoas. Cassiano sentou-se sozinho num dos últimos bancos, mais para marcar presença do que propriamente para rezar, afinal, rezar para quê? Sentou-se e ficou ali quietinho lembrando do amigo, lembrando até mesmo das coisas que não deveria lembrar num recinto sagrado: mulheres, bebedeiras, farras... Terminada a cerimônia, os poucos parentes e conhecidos que se dignaram comparecer, dirigiram-se ao hall lateral para os cumprimentos de praxe. Cassiano ficou onde estava. Sentia-se estranhamente confortável ali, apreciando a arquitetura e a bonita ornamentação da nave interna. Mas eis que, de repente, Cassiano sente a presença de alguém de acabara de sentar-se no banco atrás do seu e que, afetuosamente, pôs a mão direita no seu ombro. Cassiano olhou de soslaio e o mais que conseguiu ver foi aquela mão que muitas vezes apertou a sua em momentos sempre especiais da vida. E, antes mesmo de virar-se, ouviu a tal pessoa sussurrar perto do seu ouvido: “Obrigado por ter vindo, meu amigo!” Cassiano ficou imóvel, não olhou pra trás. A “tal pessoa” tirou, então, a mão do seu ombro e sumiu do campo da sua visão periférica. Cassiano disfarçou e olhou pra trás. Ninguém. Ninguém, mas que aquela mão e aquela voz eram de Floriano, disso ele não tinha a menor dúvida. Agora, o desafio era explicar. |
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de Contos de Autores Contemporâneos - Edição Especial
- Dezembro de 2008 |