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Giulia Martinovic
Rio Claro / SP

Um presente para Nancy

-Mas filho, porque você simplesmente não lhe dá uma flor?
-Mãe, eu quero presenteá-la com algo que a impressione muito.Quando a vi pela primeira vez sentada na varanda de sua casa, iluminada pelo sol outoniço e rodeada por violetas, campânulas e rosas, nunca mais consegui esquecê-la!
-Deve ser realmente uma moça bela - disse a mãe sorrindo-, nunca o vi tão romântico como hoje!
-Eu acho que estou apaixonado! -exclamou suspirando.
-Ah, o meu coração de mãe já me avisava...
-Fiquei sabendo que hoje é o aniversário dela. Eu estava pensando em dar-lhe uma pulseirinha de cristal. Provavelmente custará todas as minhas economias, contudo, creio que valerá a pena!

Tirou o seu cofrinho de dentro da gaveta da cômoda, trazendo-o para cozinha.

-Está decidido - disse por fim, colocando o dinheiro no bolso da calça.
-Faça o que achar melhor Dorian - murmurou, pensando no quanto foi difícil para ele economizar paulatinamente o parco dinheirinho que ganhava de mesada para comprar uma bicicleta. Acrescentou: - Mas se desejas de fato agradá-la, e lhe mostrar afeição da forma mais sincera possível, lembre-se que a simplicidade será a melhor senda para encontrar a chave que abrirá o coração de uma jovem. A meu ver, neste mundo, não há presente mais precioso do que uma flor e...

Ela interrompeu o que falava, pois o menino, ignorando seus conselhos, já havia cruzado o jardim. Permaneceu alguns instantes estática olhando-o sair, e depois fechou a porta, julgando-o tolo e inexperiente.

O garoto entrou na primeira loja da rua, Beauty Home.
- Desejo comprar uma pulseira de cristal - pediu ofegante. Creio que deves saber a qual me refiro, não? Todas as meninas usam, estão na última moda.

A dona da loja mostrou-lhe uma caixinha recheada com pulseiras, imitações de cristal Zarovski de diversas cores e tamanhos.Ele olhou-a com desdém.
-Elas não brilham como deveriam - escarneceu.
-É porque não são originais - explicou-, mas possuem muita beleza. Vai querer comprar algumas, mocinho?
-Obrigado, mas não vou querer nenhuma.

Então se dirigiu à segunda loja, Homesickness.
-Gostaria de comprar uma pulseira de cristal - anunciou esperançoso.

Mas a robusta vendedora meneou a cabeça.
-Sei das quais se está referindo, mas infelizmente não as compramos mais. São demasiadamente caras e difíceis de serem vendidas em uma loja pequena como a minha. Não gostaria de ver outra coisa?

Saiu desanimado e caminhou a passos largos em direção ao Shopping. Entrou em uma imensa loja , Royal Jewels, a mais conhecida da cidade, freqüentada somente por pessoas ricas.
-Por obséquio, vocês vendem pulseiras de cristal?- indagou engrossando ligeiramente a voz.
-Sim - respondeu um senhor alto, apontando uma das vitrines-, as mais elegantes pulseiras de cristal!

Algumas delas eram feitas de cristal juntamente com ouro, outras com diamantes e rubis, dentre outros modelos; todos eles possuíam um preço altíssimo.
-Eu gostaria - disse hesitante enquanto olhava maravilhado para as variedades de pulseiras-, que me mostrasse algo mais simples, dessas que possuem apenas uma volta, com cristais pequeninos.

O vendedor trocou alguns olhares oblíquos com o gerente. Era óbvio que aquele garoto não possuía dinheiro o suficiente para comprar em uma joalheria de luxo.
-Não trabalhamos com artigos comuns. - replicou um deles - Talvez você ache o que está procurando na loja da frente.
-Ah... Obrigado.

Dirigiu-se à loja Sophia Rose, com pouquíssima esperança de encontrar a delicada pulseira de Nancy.
-O que deseja? - perguntou uma senhora extravagante.
-Uma pulseira de cristal. Existe alguma delas aqui?
-É claro que sim!- exclamou, soltando logo em seguida uma gargalhada retumbante-. De que cor e de quantas voltas?
-Lilás, de uma volta.

A pulseira foi embrulhada em um papel da mesma cor e fechado por um laço de fita. -Ela irá adorar, espero - murmurou para si mesmo.

...

Lá estava ela! Sentada sobre o banquinho do jardim, junto ao canteiro de flores. Seus olhares se encontraram por uns instantes. Dorian respirou fundo, pensando no que iria lhe falar, mas não encontrava as palavras certas e nem a coragem. Dirigiu-se a ela ruborizado:
-Olá. - ele cumprimentou esforçando-se para esconder o nervosismo-Passo sempre nesta rua e, bem, sempre a achei... muito bonita, mas nunca tive coragem de dizê-lo.

A mocinha sorriu, mostrando uma fileira de dentes brancos e perfeitos. Seus azuis eram sonhadores e pareciam contemplar o infinito.
-Hoje é o seu aniversário, não é mesmo?
-Sim - ela confirmou em tom pueril. Parecia distraída, observando as flores se moverem ao sabor do vento.

Ele entregou-lhe o pequeno embrulho, sem tirar os olhos da face de Nancy para ver qual seria a sua reação. Sentia-se inseguro, era como se um cipó o sufocasse por dentro. Mas aliviou-se assim que viu o sorriso nascer em sua face alva e os olhos fixarem no presente com ternura.
-Oh, é muito graciosa - disse melodiosamente, enquanto colocava-o em seu pulso frágil. -Não precisava ter me comprado algo tão caro!
-Imagine. - replicou categoricamente com um gesto de mão - Gostaste deveras?
-Sim, sim! Agora, estou curiosa para saber como você descobriu o dia do meu aniversário. Conte-me, por favor!
-Eu estava passando de bicicleta pela rua, e você conversava com suas amigas; por acaso, ouvi você comentar que hoje completaria treze anos - falou hesitante, com as duas mãos nos bolsos da calça, pois se encontrava em tal estado de nervosismo que não sabia onde colocá-las. E como se adivinhasse o que ela iria lhe perguntar logo em seguida, disse:
-Ah, meu nome é Dorian Hindley.
-Bem, suponho que já saiba o meu não?
-Bem, na verdade, sei sim. É Nancy... Ouvi também outro dia, por acaso.
-Nancy Lippincot - prosseguiu em tom inefável, ao mesmo tempo em que brincava com sua pulseirinha, fazendo-a brilhar em vários ângulos e trocar reflexos com o sol. Olhou para ele, como se esperasse que dissesse algo mais. Entretanto, ao notar sua timidez, desmanchou o silêncio que pairava no ar dizendo:
-É um dos presentes que mais gostei.
-O mais bonito?- indagou.
-Muito obrigada - ela exclamou para não ter que responder ao que ele acabava de perguntar. -Eu gostei muito!

Dorian ficou calado por alguns instantes. Seu plano inicial era declarar-se à sua amada, mas percebendo a indiferença da garota, disse acanhadamente:
-Qualquer dia a gente se fala mais. Até...

A moça despediu-se em voz branda, acenando com a mão: Até!

No caminho de volta para casa, pôs-se a refletir sobre Nancy. Logo ela a quem ele imaginava possuir perfeição e gentileza abundante, revelou-se altiva e inexorável! Talvez, tenha achado a pulseirinha simples em demasia, afinal, certamente ganhara presentes mais valiosos de seus amigos e parentes ricos.

A moça, no entanto, neste mesmo momento dizia a si mesma:
-Eis um rapaz simpático, embora tímido. Eu lastimo, no entanto, que ele seja tão frio a ponto de me presentear com um objeto tão fútil e destituído de valor sentimental.

Deixou a pulseira de lado e olhou novamente para o canteiro de flores circundado de seixos. No meio dele, reinava a rosa rubra que ela havia ganhado de John, o filho do jardineiro. E durante muitas horas permaneceu hipnotizada, observando o singelo presente do seu novo namorado.

 
     
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Seleta de Contos de Autores Contemporâneos - Edição Especial - Dezembro de 2008