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Michele Mitsuy Tangi
Maringá / PR

Natural

Gritei exaustivamente aos ventos o mal que me desejava. Refresquei com as águas dos rios a face já enrubescida pela raiva. Senti dor.

Por menos, não estaria eu a cavalgar em mulas descompassadas e tolas na esperteza, tão pouco refervescendo tristes memórias desta solidão. Fácil (com o perdão da palavra aos desavisados) seria recaucar-me de partículas mega-energizantes envoltos pela Verdade. Segue um ser vil, desenganado pela vontade.

Tardei ao desenganar-me por aqueles olhos, desejados e obcecados de luxúria e de paixão. Nada pude contra aquela miséria, mas fui categórico ao satisfazer-me dela. Ensandeci. Esfriei os ânimos banhando os músculos de gelo puro, barulhento e intenso como gota de água em óleo fervente. Consegui apenas enganar o estômago e desviar os olhares da sanidade. Perdi todos os pontos.

Buscando, então, alívio as próprias atitudes, recorri à flora como recurso insofismável. Comprei sementes de todos os tipos, das mais variadas, desde arrudas, alecrins e jurubebas, até cedros, carnaúbas, orquídeas. Iniciei a plantação. Que maravilha! Tudo tão colorido, tão vasto, tão carregado de frutos! Aquela paisagem que agora meus olhos saciavam sem pudor algum amortecia paulatinamente todas as minhas contradições, todos os meus remorsos. Transformou-se num tapete macio e perfumado, a paisagem. Nele deitei cada fio de cabelo, no intuito de que cada um fosse purificado. Acabei por umedecer os poros com ardor. As rosas (ai, as rosas!) faziam questão de derrubar pétalas por pétalas sobre minha face. Que ternura! Espírito e coração incendiaram-se de infinita paz.

Inverno rigoroso queima todas as folhas, seca todos os frutos e congela a alma...
Golpeou-me com tanta tristeza e brutalidade que perdi as pernas, perdi o chão. Ainda a buscar novos consolos, novos emplastos, recorri à fauna. Três foram os bichos que me seduziram: uma vaca, uma galinha e um gato. O primeiro pela sua robusteza, por sua força; o segundo, ela paciência e o gato, pelos pêlos. (negos e longos como o universo). Tratei-os com tanto frenesi que cheguei a deitá-los na alma, conferindo-lhes proteção. A cada lambida da vaca, senti secar magicamente meus temores, meus ódios. Ria com o bico da galinha, quando esta bicava meu dorso ao pegar o milho que ali eu a alimentava. Tangia-me os desejos com tanta dedicação, que jamais lhe ofereci um banho, ao gato. Manti o frenesi abusivamente...

A vaca ficou louca, a galinha morreu de gripe e o gato morreu engasgado com os próprios pêlos... Tornei-me agressivo. Usei de paciente brutalidade para mudar as opções. Fui contra a natureza. Com perfumes ocres e apodrecidos, juntamente com paisagens grotescas e infernais, voltei-me contra a natureza. Organizei queimadas, trafiquei peroba, derrubei a Piracema. Apoiei arpões. Dos jacarés aproveitei até os ossos; das araras até as peles, das cobras até o veneno. Aumentei a poluição, protestei contra o ozônio, passei óleo nas costas do Atlântico. Enfim, detonei a passividade.Sabia que indo contra, automaticamente ela se voltaria contra mim. Ação e reação.

Como todas as tarde de domingo, saudosas e insuportáveis, um milagre aconteceu. Um graveto, um único graveto foi a causa de tanta paz. Distraído, tropecei no galho, caí de cabeça numa raiz de mangueira, engoli folhas de arruda. Atordoado pela queda, rolei dois momentos, espalhei sangue. Atraí com isso uma cobra imensa, cujo veneno paralisou-me os membros. Sem reação, fiquei por ali alguns dias. As nuvens se juntaram e formou-se o temporal. Com a enxurrada, fui levado até o rio, que proporcionou-me viagens desastrosas. Ao cair no oceano, lá estava a Orça a esperar-me faminta. Gozei cada osso que ela mastigava. Fermentei no espaço. Digerido em águas calmas, amarrou-se o pensamento nos pés daqueles olhos obcecados de luxúria...

 
     
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Seleta de Contos de Autores Contemporâneos - Edição Especial - Dezembro de 2008