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Vinícius Lima dos Reis
Feira de Santana / BA

Olímpico

Já era noite quando chegou ao Ginásio. Treinaria sozinho pois havia dispensado o treinador durante todo o dia e resolvera praticar para que o mesmo não terminasse em branco. Temia!

As competições começariam em um mês mas hoje "não deu". Problemas familiares. Chorava!

Apesar de ser campeão olímpico, não tinha muitos ombros para acalentar-lhe, para debruçar-lhe as mágoas. Sofria!

Entrou e era tarde o bastante para esperar que a água já estivesse fria e não mais tivesse quem o assistisse. Salto ornamental era a sua modalidade e o fazia de forma esplendida. Quem o assistisse desejaria voar em meio àquele vazio e depois cair feito agulha na densidade molhada daquela piscina. Sabia!

Perseguia sempre o melhor mesmo sendo ele o próprio. Treinava insistentemente todos os dias em busca do salto, do mergulho perfeito. Mas naquele dia "não deu". Ansiava!
Como não havia ninguém, trocou a roupa ali mesmo, junto a escada. Estava escuro mas a lua clareava o tanto para enxergar os degraus e a silhueta dos objetos. Subia!
Foi até o trampolim mais alto. Daria uns dois ou três saltos e estes deveriam ser exatos. Desejava ardentemente compensar o dia perdido.

A noite estava perfeita. Nem sequer uma mosca competia naquele ar escuro e refrescante. E, lá de cima, a brisa trazia um ar mais leve, rarefeito, quase anestésico.
Em cima da plataforma alongou-se e lembrou de seu tempo de criança. Não muito distante mas abafado por anos e anos de treinamentos exaustivos. Brincou de se esconder, fez traquinagens e ainda, enquanto esticava o braço esquerdo ao longo do corpo, deu seu primeiro beijo. Sonhava!

Mas era necessário concentrar-se, esvaziar-se e não apenas se comportar como o melhor - deveria, apenas, ser ele mesmo. O verbo em evidência era o ser: não se comportar como uma agulha, deveria ser a agulha.

Aproximou-se do prolongamento e, com os calcanhares apoiando o seu corpo, deixou metade de seus pés para fora. Seus dedos flutuavam. Voava!

Abriu os braços como um equilibrista e já não pensava em nada, tão somente em um número: noventa. Pois é, noventa graus era o foco. Bailar, bailar, bailar e adentrar em exatos noventa graus expulsando a menor quantidade possível de água.

Do alto ainda podia-se ver todo o Ginásio, suas estruturas e todas as suas piscinas. E estas eram como vazias sob o perfeito luar daquela noite e, ainda, os sensores das câmeras de segurança pareciam seres à espreita, assistindo de longe o espetáculo. E este era o seu sentimento último: felicidade. Sorria!

Recuou, passo a passo, até o início da plataforma como se fora mergulhar direto para o piso onde se iniciava a escada. Arrebatou-se em inesperada arrancada e já era como um velocista a percorrer os cem metros. Corria!

Num salto, lançou-se em movimentos acrobáticos ainda sobre a plataforma e já era m ginasta. Ao final dela, saltou como num salto à distância, alto como num salto a vara (sem a utilização da mesma) e, no ar, era como objeto lançado (peso, lança, dardo, prato, tiro...) projetando-se no vazio. Girava!

Mas não voava como apenas no ar estivesse e a gravidade não lhe impunha sua força. Nadava!

Contorceu o seu corpo e músculos de várias formas e produziu mortais e giros inimagináveis. Começou a sua descida num movimento lento, forte e gracioso - era como mestre em arte marcial. Lutava!

Esticou o seu corpo e prolongou os braços (juntos) em direção ao alvo. Até aí, o tempo havia quase parado quando então a agulha, numa fração de um segundo, adentrou a piscina e nem uma gota sequer ergueu-se ao ar. Atingira o seu objetivo: o salto perfeito.
Confetes rubis impregnaram o ambiente. Pulsava!

Logo pela manhã os jornais noticiaram o feito inédito. E seu salto (perfeito) era exibido e reprisado várias vezes.

Ainda ao lado da piscina, sobre faixas de isolamento e placas de manutenção, estavam aqueles que o amavam, debruçados em lágrimas para vê-lo no pódio final da sua vida. Dormia!

 
     
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Seleta de Contos de Autores Contemporâneos - Edição Especial - Dezembro de 2008