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Tiago Paradiso de Oliveira Real
São Paulo / SP

 

A rotina do menino Antonio




Antônio não era um garoto como qualquer outro. Dentre as condições mais desfavoráveis, cresceu junto aos dez irmãos objetivando uma vida melhor.

Certa vez, questionado sobre o seu futuro, respondeu: “Quero ser caminhoneiro.” Na verdade, ele queria mesmo um prato de comida e uma cama para dormir.

A fim de ajudar a mãe nas despesas de casa, abandonou cedo a escola, quando ainda cursava a antiga terceira série do ensino fundamental.

Trabalhava na agitada Estação da Luz. Ao som dos apressados passos dos passageiros, tentava vender doces. Tinha uma meta diária a ser cumprida: arrecadar vinte reais; fosse vendendo, fosse pedindo. Caso contrário, seria duramente castigado por seu terceiro padrasto. Castigo este, aplicado com frequência.

Socorro, proprietária de uma barraquinha de cachorro quente, sempre que encontrava o menino, ficava com dó e oferecia-lhe um lanche. De posse do alimento, o maltrapilho tinha de sair de lá, e rápido, para não espantar a freguesia.

Diferentemente de seus amigos, se é que assim podemos conceituá-los, nunca furtou. E olha que oportunidades não faltaram para tanto. Bom caráter.

No bolso da calça rasgada, carregava consigo um amarelado recorte de jornal que continha a foto do Cafu beijando a taça da copa do mundo de 2002. Fã de futebol. Timidamente, cantarolava pelas ruas: “Eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor!”*

A noite, no barraco da família, quando não apanhava, a esperança ressurgia. Lembrava vagamente das poucas palavras de seu falecido pai: “Filho, para ser alguém na vida, precisa estudar.”

Exausto, no velho colchão, dormia serenamente. Só assim, podia sonhar.

*Trecho da Canção “Vamos lá Seleção” (Composição: Petrúcio Amorim).

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