| |
Antonio
Auggusto João
São
Paulo / SP
Boneca
de pano
Um dia desses estava percorrendo o bairro onde nasci e fui criado,
em São Paulo - Capital. A cada rua que eu passava, lembrava
dos momentos da minha infância, lembrava do meu pai e minha
mãe que hoje não estão mais aqui e dos mínimos
detalhes ocorridos em minha vida. Cheguei até a parar uma vez
pra sentir o cheiro dos lugares, se estavam com os mesmos cheiros
de quando eu era jovem, muito jovem e cheio de esperanças com
a vida. O progresso chegou fulminante no bairro. O Ipiranga prosperou,
enriqueceu, valorizou, mas mesmo assim não perdeu o charme.
Tentei achar alguém da minha infância. Besteira, as pessoas
crescem, os corpos se modificam, infelizmente alguns partem antes
da hora, mas na minha mente, na saudade, eu queria que as pessoas
fossem as mesmas como antigamente, quem sabe para que Deus pudesse
me dar mais uma chance para estar com minha filha. Vivi vinte e oito
anos no bairro. Me casei, saí do bairro e fui morar a 25 quilômetros
de distância, em Itaquera, onde vivo há vinte e um anos.
Muitas coisas aconteceram em minha vida depois que sai do Ipiranga.
Lembro da minha filha no colo de minha mãe, momento raro de
felicidade. Chorei porque meu pai não teve tempo de conhecer
meu filho. Na certa ele o compararia a mim quando criança.
Imagino assim. Depois que minha filha se foi aos catorze anos, minha
vida acabou. Se não fosse meu filho, eu já teria entregado
os pontos há tempos. Penso todos os dias que um dia ainda vou
encontrar minha filha, do mesmo jeito que ela sempre foi. Vou lhe
abraçar e entregar a boneca de pano e o manto que ela insistia
em não largar, chupando o dedo quando estava com vontade de
chorar ou na hora de dormir. Aconteça o que acontecer comigo,
eu rezo pra que esses detalhes nunca se apaguem da minha memória
e que Deus permita que um dia, em qualquer lugar, em qualquer situação,
em qualquer vida, eu possa lhe entregar a boneca de pano, pra que
ela possa dormir tranquila, serena, como em todos os momentos da vida
em que eu estive com ela. Saudades de Carol. Seu pai de ama.
|
|
|