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Luigi
Ricciardi
Maringá
/ PR
A fugacidade do instante
Solitário, cabisbaixo, sem amores. Ele anda pelas ruas a procurar
qualquer sentido entre as coisas sem sentido. Perdera há tempos
o significado dessa palavra. Em vãos, becos, espaços,
dentro e fora de si, ele procurava, já sem forças, algumas
razões. O amor passa como um vento frio em seus ouvidos, é
tormenta que incomoda seus tímpanos, e que não havia
ainda lhe trazido, sequer distantemente, as sobras de um sentimento
correspondido.
Refém das injustiças da vida, ele nunca vivera um grande
amor. Deveras não vivera partilhado, mas amara infinitas mulheres
observando-as pelas esquinas no seu olhar esquivo e tímido.
Andava curvado, deficiência de infância. Usava quase sempre
as mesmas roupas. Um grosso par de óculos era freqüente
adjetivo de seus sentimentos, era assim que o viam, nada mais que
dois pedaços de vidro, redondos e espessos. Dedicava-se com
afinco aos seus projetos e estudos, e era desdenhado por isso.
Nunca tocou uma pele macia, nunca dividiu cama com mulher alguma.
Nunca soube como é, depois de um frenesi em que se esvaem as
forças corpóreas, dormir abraçado a um corpo
aconchegante, e acordar, depois do sonho dos deuses, com carinhos
no rosto. Nunca respirou ofegante ao encostar sua face à face
alheia, nunca olhou profundamente nos olhos, nunca soube identificar
um cheiro angelical da pele divina.
Alguma coisa sem nome, indefinível, sem forma, conduzia-lhe
ao pavor do contato, e, consequentemente, à sua interiorização.
Preteria as pessoas, sua amiga era a solidão. Se alguém,
por trás da armação ocular, notava nele toques
de sentimento, era privada pela timidez, ele se protegia por trás
do par de óculos. Já fora olhado com esmero desejo,
mas decidiu fitar as lacunas do chão a encarar o momento que
poderia dar-lhe a redenção, a realização
de tudo aquilo que imaginava, à noite, deitado em suas dores.
Um dia tentou contar quantas mulheres já havia amado e desejado
só por tê-las visto. Decidiu por parar a contagem, perdera
as contas ao esvoaçar dos números na mente. Fato é
que já passara por várias delas, desejou-as por segundos,
amou-a por minutos, sonhou-as por noites. Mas nunca mais as via. Mal
dava uma esgueirada de olho, um desvio disfarçado, e ao perceber
que não era notado, fitava novamente o chão. Mal sabe
ele que é justamente ao abaixar de sua cabeça é
que ele era visto, olhado, desejado por algumas delas. Os olhares
nunca se cruzaram, e os amores sempre ficaram sem casa.
Em sua malograda jornada, quantos cheiros não deixou de descobrir,
quantas sedes deixou de saciar, quantos amores, efêmeros ou
eternos, deixaram de existir pelo descruzar dos olhares. Tudo porque
o mundo é mundo. Cada qual seguiu sua vida, ia para sua casa
se dedicar às suas coisas indefiníveis.
Ele nunca mais verá aquele cabelo tão bem cuidado, aquela
pele intocada, aqueles lábios fechados que um dia poderiam
ser um sorriso dedicado a si, ou que um dia poderiam lhe dedicar um
beijo apaixonado. Nunca ele tocará aquele corpo, aquelas curvas
que desejou e amou no instante de um olhar. Na fugacidade do instante
podem morar, escondidas, sensações de sublimes amores,
e vidas incompletas.
Deitado, ele se culpa por deixar passar o instante-mor da vida. Enche-se
de coragem, concorda que no dia seguinte, se algo acontecer, ele usufruirá
dos presentes escondidos na fugacidade, mas sabendo dentro de si que,
quando o momento chegar, ele novamente fitará as lacunas do
chão onde pisa, e onde verá refletida a sua alma cinza
e sem brilho.
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