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Adriana
Alves da Silva
São
Paulo / SP
O dia D
Talita tinha decidido que daquela semana não passaria mais,
colocaria um ponto final naquela situação, seria um
divisor de águas em sua vida, nada mais seria como antes, tudo
seria mais belo, mais puro, mais significativo... ela já estava
decidida: iria se apaixonar! Ela já sabia de cor como era,
porque lera na revista que comprara na banca de jornal, e também
lera umas poesias no livro do irmão mais velho, não
tinha muito segredo, os sintomas eram simples de serem detectados
e deliciosos de sentir: o coração batia mais forte,
a mão suava, o corpo tremia, as pernas também ficariam
bambas, a garganta seca. Sim... esses eram os sintomas iniciais. Pensou
ainda em pesquisar se havia mais alguns sintomas nos olhos, se iriam
lacrimejar ou algo parecido. Mas acabou esquecendo-se deste detalhe,
porque naquela hora havia mais coisas a pensar. Tinha que escolher
a hora, a data, a roupa. Com que roupa a gente deve se apaixonar?
Talvez um vestido florido que esvoaçasse com o vento? E os
cabelos, como deveriam estar? Presos num rabo de cavalo ou seguros
em presilhas pequenas? Decisão vital aquela! Por fim, escolheu
uma fita amarela nos cabelos, sandálias baixas de couro marrom,
e o vestido de listras mesmo. Estava pronto o figurino ! Sorria feliz
para o espelho. Ai teve que escolher a data. Terças e quintas
não eram dias bons para apaixonar-se, pois tinha curso de inglês
e natação, às segundas e quartas costumava estudar
matemática, só lhes restava então a sexta-feira.
Dia mais óbvio do mundo, mas era melhor do que domingo, pois
não gostava de domingos, os domingos sempre lhe traziam um
tédio imenso e apaixonar-se não tinha nada a ver com
domingos de tédio. Tudo pronto, enfim. Roupa escolhida, dia
escolhido...meu Deus! E a hora? A que horas a gente se apaixona mesmo?
Puxa... - pensou ela, esta seria a parte mais difícil de decidir-se,
porque havia tantas horas do dia que gostava. Gostava do amanhecer,
porque tinha cheiro de coisa fresca, de ar puro, passarinhos cantando;
já a hora do almoço, lembrava batatas fritas, que aliás,
tinham tudo a ver com as coisas do coração; mas do que
gostava mesmo era a hora do entardecer, por que havia o pôr-do-sol...sim
isso mesmo ! O pôr-do-sol seria o cenário perfeito! De
pernas estiradas no sofá, ela já tinha em sua mente
tudo pronto, decidido, desenhado. Agora faltava apenas um mero detalhe:
o ser por quem ela iria enamorar-se. Esticou seu corpo esguio e magrelo
de quase adolescente pela janela do quarto, gritou para a janela da
casa vizinha:
- MARQUINHOOOOOOSSS !!!
Ele, esticou a cabeça pela janela, segurava
ainda o controle do vídeo game na mão, com sua voz de
menino, esquisita, respondeu do outro lado:
- QUE
É ???
Talita então responde:
- Me encontra lá no parque daqui há duas horas? Quero
te mostrar umas figurinhas que troquei e são novas! Mas tem
que ser daqui a duas horas porque o sol vai se pôr, hein !
Ele responde
num gemido, de preguiça de levantar..."tá boooom
!"
Talita sai então rapidamente da janela, sobe as escadas pulando
os degraus, corre pro quarto e, afoita, separa as presilhas e começa
a se arrumar...
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