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Patrícia Diniz Santos
Natal / RN

Encontro com a memória

 


Na velha pracinha, onde os aposentados costumavam jogar dama ou dominó, um senhor mantinha-se isolado, cabeça baixa, mãos trêmulas, rabiscando sobre uma folha pautada, borrada, enquanto era observado pelo curioso forasteiro.
- Com licença, posso interrompê-lo? - disse o curioso.
- Pois não, o senhor já o fez.
- Eu não pude deixar de notar como o senhor estava entretido em meio às suas palavras e como sou um homem das letras, um acadêmico da capital, vindo visitar uma velha tia enferma, fiquei interessado pelo seu ofício e gostaria de trocar algumas palavras. Chamo-me Adolfo Reis; e o senhor, qual a sua graça?
- Sebastião Cosme.
O forasteiro conversava enquanto fazia notas no seu computador de mão.
- O que é isso? - perguntou o velho.
- É um palm top, nele faço notas do que preciso lembrar.
- Mas o que houve com a sua memória? - disse o ancião sem compreender muito.
O professor voltou a questionar o nativo:
- Seu Sebastião, queira matar a minha curiosidade: por favor, o senhor escreve?
- Todos os dias da minha vida, desde que aprendi a ler.
- Assim que pus os olhos no senhor pude ver que havia algo de intelectual, uma ótima oportunidade de debater questões referentes às letras. Em qual faculdade o senhor concluiu os estudos.
- Na faculdade mais importante de todas, meu filho: a vida.
- Como?!
- Repito caso não tenha ouvido, mas se o problema for causado pela minha falta de formação, vou lhe contar uma coisa: Aos cinco anos, andava oito léguas acompanhado da minha mãe para ajudá-la na lida, nas casas de família. Ela lavava roupa e enquanto isso eu colocava pedras e latas velhas empilhadas no chão, na lateral da casa, para poder subir e espiar pela janela da casa grande.
- Mas o senhor era um tanto atrevido!
- Não imagine maldades, já vou esclarecer: naquele tempo os mais abastados mantinham professoras para ensinar em suas casas o básico das letras e dos cálculos. Eles eram alfabetizados e só então enviados para uma escola normal na capital. E eu ficava pendurado, meio sem jeito, ávido por conhecer cada um dos sinais que estavam sendo ensinados àquelas crianças. Vez em quando, catava uma pedra e ia escrevendo as letras no chão para não esquecer.
- E não havia escola por aqui? - rebateu o curioso.
- Só a uns 100 km de distância. Veio chegar um grupo escolar uns dois anos depois.
- Aí, claro, sua mãe o matriculou.
- Mais uma vez equivocado, senhor acadêmico. Só podia freqüentar o grupo quem comprasse farda e material. E ainda mais um menino como eu, andava de pés no chão. Nem dinheiro para sapato, imagine para educação. Isso era coisa de rico. Tive de aprender um ofício, trabalhei nas fazendas, ajudei na criação de gado e virei vaqueiro. Vi muito chão e muita desgraça nesse mundo de meu Deus. Casei, tive dez filhos, mas esses eu fiz questão de colocar na escola. Só não roubei nem matei para dar a eles a educação que eu não tive. Foi quando fiquei sabendo de um tal de mobral. Papagaio velho não aprende, mas eu já sabia muito, somava que era uma beleza e devagar já escrevia meu nome.
- O senhor é um tanto persistente.
- Quando Deus manda a estiagem, tem gente que cava um buraco e se enterra, outros acham água, não é mesmo?
- E quando o senhor pretende publicar seus escritos?
- Eu já o fiz. Melhor, fizeram por mim. Meu filho mais velho virou doutor e pegou de surpresa a minha pasta cheia de papel velho, esquecido pelo tempo. Mandou por na prensa e enviou pra uns concursos aí, quiseram até me homenagear. Só que para isso eu tinha que entrar num tal de avião e ir pro sul. Eu nem sou ave de arribação pra sair do meu cantinho! Quem quiser que venha aqui me ver e me prestigiar.
- Agora já estou ligando o nome à pessoa, fiz uma tese sobre seu trabalho, mas nunca imaginei que iria encontrar essa lenda viva.
- Fico feliz pelo reconhecimento, mas de lenda eu não tenho nada, sou muito real até.
- Desculpe-me pelo mau jeito.
- Não por isso.
- Quero convidar o senhor para comparecer à faculdade, para dar uma palestra.
- O que eu tenho para falar, já digo nos meus livros.
- Tem muita gente por aí que faria qualquer coisa para conseguir aparecer. E por dinheiro.
- Minha cota de trabalho já dei, escrevo por prazer. Aliás, só quero dinheiro para viver, não vivo por ele.
- Nem vi a hora passar, tenho que me apressar senão perco o ônibus de volta.
- O senhor esqueceu sua memória.
- Ah, refere-se à engenhoca eletrônica. A memória que eu não poderia ter esquecido é a mais importante: falo de resgatar uma bela história como essa. Dessa sim, nunca mais vou esquecer!
O velho completou:
- Tem coisas que nenhum livro ensina.
- Eu não duvido, Seu Sebastião. Pode acreditar...

 
"Quem?" Contos Selecionados - Outubro de 2009