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Wilson
Gorj
Aparecida
/ SP
O
eterno retorno
1. BALANÇO
Soube dos médicos que lhe restavam apenas alguns meses de vida.
Tratou, portanto, de aproveitá-los o máximo que pôde.
No entanto, por mais que se aferrasse ao presente, era o passado que
tomava conta de seus sonhos.
Sonhava com sua infância. Com a casa onde nascera e, por muito
tempo, fora feliz. Entendeu com isso que, antes de morrer, deveria
vê-la pela última vez.
Deste modo, empreendeu sozinho a viagem de carro rumo à cidade
natal.
Durante o trajeto, tentava recompor o lar querido em todos os detalhes.
Lembrou-se de cada cômodo da casa. Recordou-se também
da varanda e, principalmente, do quintal onde havia a velha mangueira.
Do galho pendia um pneu amarrado a uma corda. Ah, o pneu. Seu coração
balançava nessas doces lembranças.
E balançou até cair. Teve um baque ao chegar.
No endereço, não encontrou mais a antiga residência.
Em seu lugar - triste ironia - haviam construído uma loja de
pneus.
2. DE VOLTA ÀS RAÍZES
Três décadas depois, resolveu retornar à sua cidadezinha
natal.
O desapontamento foi imediato. Nada ali lembrava o lugar de antes.
A começar pela rua de sua antiga casa. O progresso também
passara por ela. Era agora avenida movimentada.
A decepção não parou por aí. No seu endereço,
não encontrou mais a residência da família. A
casa, bem como a escola em que estudara, foram demolidas e, no local,
construíram uma extensa fábrica. Pensou em seus colegas,
nos amigos de infância. Chegou mesmo a procurar por alguns deles.
Mas em vão; não encontrou nenhum. Sequer um rosto conhecido.
Naquela cidade nada mais parecia familiar.
Cansado da procura, sentou-se num banco da Praça Central, a
qual, aliás, também não conservava traços
do seu tempo.
Definitivamente, ali não era mais o seu lugar. Melhor, então,
partir.
Estava para ir embora, quando, à sua frente, julgou conhecer
uma árvore. Levantou-se e, meio incrédulo, aproximou-se
dela.
Reconheceu-a. Era a mesma árvore de sua adolescência.
A surpresa foi maior quando nela encontrou duas iniciais talhadas
a canivete. Embora imprecisas, teve certeza. Eram suas.
Tocou-as. Sentiu, de repente, uma grande ternura por aquela árvore.
Os anos passaram, vencera o progresso, mas ela ainda resistia, retendo
no tronco as marcas do passado, mapa de um tempo perdido.
Era como se finalmente encontrasse ali uma amiga.
Abraçou-a. O velho tronco sorveu-lhe as lágrimas.
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