Lilian
Souza de Araujo
Anápolis
/ GO
O
casamento de Síssi
Maria Cecília ou Síssi, como gostava de ser chamada,
acordava cada vez mais cedo e dormia cada vez mais tarde nas
últimas semanas, os preparativos de seu casamento estavam
absorvendo todas as suas energias, mas isso não a deixava
cabisbaixa, pelo contrário, Síssi parecia resplandecer
cada dia mais, e ficar ainda mais eufórica com o chegar
da data tão esperada.
O clima estava muito propício para que tudo fosse bem
à alma de Síssi, afinal de contas o Outono já
havia chegado: Sua estação favorita. O amor estava
no ar para ela nessa estação, o sussurrar dos
ventos por entre as árvores que ficavam alaranjadas lhe
deixava totalmente radiante. Adorava deitar-se nas folhas ao
chão, que formavam tapetes alaranjados, desde sua mais
tenra infância. Não fora por acaso que escolhera
essa estação para se casar. Não, tudo fora
calculado milimetricamente por ela desde que seu amado noivo
fizera o pedido de sua mão há um ano.
O mês escolhido foi Maio, que era o “Mês das
Noivas”, e era ainda o mês em que ela e Paulo se
conheceram, e também sua estação preferida.
A lua de mel se daria em Campos do Jordão, pois em suas
pesquisas na net descobrira que com a quantidade de árvores
na região tudo seria um paraíso só. Um
paraíso alaranjado.
-
Não é mesmo muita sorte meu fofinho? – Repetia
Sissi a seu noivo.
Ela
era tida como uma garota de muita sorte pelas amigas, dentre
as mais íntimas: Gina e Amanda, ou Nananda, como balbuciava
a irmãzinha, e acabou pegando. Síssi achava que
não era só sorte, mas sentia no fundo que “Alguém
lá em cima” gostava muito dela. Não ficava
citando o nome de Deus à toa, achava falta de respeito,
também não encrencava com ninguém por causa
de questões religiosas ou políticas, tão
pouco futebolísticas. Apenas acreditava n’Ele e
se sentia amada e cuidada.
Era
feliz! Ninguém podia negar.
[...]
Faltando
uma semana para o Dia, Síssi exagerou em sua agenda corrida
e acabou apanhando um resfriado.
-
Que azar!- disse Nananda.
-
Que nada, não é azar, é só gripe.
- Retrucou Síssi, com seu bom humor usual.
-
Só gripe, mas às vésperas do casório,
enlouqueceria qualquer noiva. - Completou Gina.
-Mas
não minha Síssi. – Interveio o noivo de
olhar apaixonado.
[...]
A
partir daquele dia, um conjunto de fatos estranhos começou
a ocorrer em torno de Sissi. Parecia que de repente a boa sorte
da garota havia virado.
Quando
foi fazer a prova do vestido, a costureira estava com um humor
do cão, havia brigado com o marido. Disse coisas terríveis
sobre casamento, desfiou um rosário de lamentações
sobre as amarguras de se viver a dois, e não bastasse
o fato dessas palavras já ser o suficientemente ruim
para uma candidata ao cargo de casada, a distração
da costureira lhe rendeu diversas alfinetadas. Só Síssi
mesmo para continuar sorrindo, e ainda oferecer gentis palavras
de conforto à pobre senhora, outra noiva teria exigido
trocar de costureira, principalmente em se tratando das costumeiras
“noivas à beira de um ataque de pânico”,
que todas parecem ser quando a data se aproxima. Mas essa não
era uma descrição correspondente a dócil
Síssi.
No outro dia, chamou as duas amigas para irem ao salão,
cuidar dos últimos preparativos, mas as duas deram suas
desculpas e se esquivaram do compromisso. Síssi achou
estranho, mas não reclamou, mal sabia ela o quanto iria
precisar de um ombro amigo naquele dia.
Quando lá chegou teve a pior notícia que poderia
ouvir, um encanamento havia estourado e comprometido toda a
estrutura do espaço que ela escolhera para realizar a
cerimônia. Síssi empalideceu, em segundos, todas
as implicações que aquela notícia trouxe
passaram pela sua cabeça. Não estava mais sorrindo.
Saiu meio atordoada e apressada para tentar encontrar outro
local.
Ligou para Paulo e contou-lhe a novidade com a voz embargada.
O noivo disse para ela ir ao seu encontro. Síssi enxugou
as lágrimas e dirigiu até o escritório
onde ele advogava, mas não bastasse tudo, o pneu do carro
furou, e um dia antes ela emprestara o estepe a seu irmão
mais novo, que garantiu que era só o tempo de ir à
borracharia e já o traria de volta. Como sempre, não
foi o que ele fez. E na correria ela se esquecera disto completamente.
Pobre Síssi, terminou a tarde guinchada. Os olhos inchados.
[...]
Faltando
dois dias, fatos menos graves aconteceram ainda, uma madrinha
que não iria mais poder vir, somado ao fato que sua filha
era uma das damas.
O pior de tudo mesmo foi quando foi pegar o vestido. Ela havia
pedido que estivesse numa embalagem lacrada de modo que seu
noivo não pudesse ver, para não estragar a surpresa,
pois não era supersticiosa quanto a isso, mas não
abria mão de ver seu noivo no altar ficando embasbacado
ao lhe ver no modelo escolhido com toda cautela.
Dessa vez suas amigas tinham ido juntas, para compensar o outro
dia, que com certeza deveriam ter estado lá.
Síssi subiu elétrica pela escadaria. As amigas
admiravam cada vez mais seu otimismo, principalmente depois
dos últimos e lamentáveis fatos. Mas, mais uma
vez, a sorte lhe abandonara. A tal costureira problemática
havia abandonado o emprego pouco depois da prova de Síssi,
e as outras funcionárias haviam se esquecido de seu vestido.
Síssi, desceu as escadas correndo, passou por Paulo e
continuou sem rumo. Sentou-se num banco na praça, ficou
pensando por um longo tempo. Olhou para cima num gesto de indignação.
Foi então que uma brisa suave começou a soprar
pequenas folhas alaranjadas sobre ela. Sentiu-se abraçada
e confortada novamente. Lembrou-se que “Alguém
lá em cima” gostava muito dela. Levantou-se e foi
correr atrás do prejuízo.
[...]
Dia
doze de Maio: Síssi casou-se na igreja que uma tia indicou,
não era o salão escolhido. Entrou com um vestido
que lhe arrumaram às pressas, não era o tão
sonhado modelo. Uma madrinha e nova dama haviam substituído
as desistentes.
Maria Cecília entrou deslumbrante, com um brilho no olhar
inconfundível: era a Síssi!
Síssi,
que se casou com o mesmo noivo Paulo (Rss!), no seu mês
de Maio, na sua estação de Outono!