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Marcelo Allgayer Canto
Antologia on line

Cachoeirinha / RS

 

Eu me lembro

 


Meu avô gostava de contar histórias. Algumas delas me pareciam verdadeiras, outras, poderiam ser invenções, ou até lendas. O fato é que seu entusiasmo em impressionar os mais jovens era notório. Ia meu avô então relatando os acontecimentos que poderiam ser verdadeiros ou falsos.
Eu me lembro que, numa de suas conversas com os netos, o velhinho começou a falar sobre o Alcindo, um jogador de futebol que ele apreciava. Meu avô dizia que ele fazia peripécias com a bola, ou seja, jogadas fantásticas e dribles extraordinários. Em determinadas investidas os zagueiros dos times adversários chegavam a ficar irritados e partiam para a falta como último recurso.
Alcindo morava nas proximidades de nossa casa no bairro Menino Deus, em Porto Alegre. Meu avô admirava o Grêmio de Futebol Porto Alegrense, time que logo comecei a gostar e torcer.
O atacante Alcindo, sem sombra de dúvida, era um craque em seus áureos tempos. Até foi convocado para a Seleção Brasileira de Futebol. Eu me lembro que na época, anos setenta, eu pensava que ele poderia até driblar o time adversário inteiro em qualquer partida. Depois fui crescendo e vendo como as coisas funcionam. Percebi que ninguém é totalmente polivalente e com os jogadores de futebol não é diferente.
Com efeito, percebo que muitas pessoas sonham em brilhar em gramados de futebol. Meu avô sonhava com isso também, entretanto, perdeu seu pai cedo e logo teve de trabalhar. Sua atividade teve de ser outra, já que na época os jogadores de futebol não eram remunerados.
Hoje em dia, quando vou ao estádio, lembro da vibração do meu avô nas arquibancadas do Estádio Olímpico. De grito de gol, quando a pelota entrava, estufando as redes dos times adversários. Às vezes, quando assisto a um jogo, eu me lembro dessas coisas.... Eu me lembro do gesto do velho com o punho cerrado e comemorando o gol.
Quando vou assistir a uma partida, procuro vibrar com as jogadas de meu time, reclamar do juiz, enfim, criar gosto por uma partida de futebol. Isso tudo me anima e é como se fossem atitudes que fizessem homenagens àqueles que gostaram de alguma coisa na vida, no caso, o jogo em quatro linhas.

 
Publicado na Antologia de Contos de Outono - Abril / 2010