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Edilson Landim
Antologia on line

Guarapari / ES

Suicida perfeccionista

 

Todo o Bairro de Honório não comentava outra coisa: como pode uma pessoa passar quatro anos, morando vizinha de Sonhinha, e não saber quem era ela? Gata das mais safadas, deitando-se com qualquer um em qualquer telhado, Sonhinha fora assediada durante tanto tempo pelo primo Firmino e sempre dizia que não queria nada com ele. O primo fazia juras amorosas e confessava que não a desejava para uma aventurazinha, mas para casar. Sonhinha, pensando em ver-se livre daquela obsessão, um dia dá uma decisão para o primo:
- Já que você é doido, quer casar-se comigo, marque a data.

Semanas depois, de papel passado, mudou-se da casa dos pais para a do primo, bom marceneiro, que ganhava bastante dinheiro. Nem a lua de mel terminara, Firmino vai à casa de madame FLU-FLU, no Botafogo, concluir uns serviços, quando ouve algazarra das meninas da madame na cozinha, tomando café. Estava explicando à dona da casa algum detalhe do armário da suíte e, ao levantar os olhos, viu a prima. Perguntou:
- Madame, que faz Sonhinha aqui?
Madame se espanta.
- Você conhece Sonhinha?
- Sim.
Então, madame confidencia que é a garota mais fogosa do rendez-vous. Revela ainda: aquela, Firmino, nasceu para ser vadia, não vai com todo freguês, não olha nem para o dinheiro, até de graça, se gostar. Já me criou muitos casos. De onde você a conhece?
- Ela é minha esposa, casei-me há três dias.
Madame não acredita e diz na sua língua: Mon Dieu, qu’est-ce passe?
Firmino sai deprimido e vai para o bar do bairro beber e conta o incidente para o garçom. O garçom conta para o chefe, o chefe para todos no boteco. E com a cara cheia diz em voz alta que vai se matar. Todos aconselham: você deve é matar aquela vagabunda. – Não posso – se lamenta, passei quatro anos atrás dela, sem que me quisesse. A culpa é minha. Sou uma besta, um idiota, devo morrer.

Sonhinha chega em casa mais cedo e não encontra o esposo. Às 9 horas da noite, recebe um telefonema do Hospital Souza Aguiar, comunicando que o marido estava internado. Lá encontra Firmino todo roxo de pancadas, cheio de hematomas. É que escolhera a Central do Brasil para se suicidar. Comprou o bilhete, entrou na plataforma dos trens, às 5,30, hora do maior rush, e com os trens já atrasados. As plataformas ficam apinhadas de trabalhadores que saem suados das fabricas, acotovelando-se, para serem os primeiros a entrar nos vagões. Diante desta situação, Firmino resolve pular da plataforma e se deita na via férrea, esperando o trem elétrico. Há um corre-corre, um reboliço infernal, os guardas pedem à torre a total paralisação, pulam e tiram o intruso, levando-o para a Delegacia, no porão da Central. Dão-lhe uma surra caprichada e, todo quebrado de cacetes, levam-no para o Hospital, com um aviso: se vier novamente tentar essa besteira na Central ou arredores vai morrer mesmo, mas de porradas.
Sonhinha leva o marido para casa e no caminho pondera: primo, que hora você foi escolher? Ele se cala.

Não totalmente restabelecido, contrata um táxi para levá-lo a Ponte Rio-Niteroi e no vão central obriga o taxista a parar e se joga daquela altura. No momento ia passando um barco cujos pescadores ouvindo o barulho da queda retiram o corpo. Com a ajuda do G-Mar do Corpo de Bombeiros levaram-no para o hospital, com vida, apenas muito machucado e com pequenas fraturas. Sonhinha, à noite, soube pelos jornais e televisão da grande notícia. No hospital, Firmino ficou uns cinco dias. Quando já estava em casa, a esposa, apavorada, implorou: Primo, deixa dessa bobagem de se matar. Vamos tocar a vida, numa boa, eu não faço gostosinho para você quando me procura? Mas se está com o propósito de se matar, vai à loja de ração do Angelo e compra veneno para ratos e se mate em casa.
– Não, quero uma morte que seja falada e comentada para esquecer a minha estupidez.

Sonhinha, resmungando baixinho: o homem pirou de vez, foi para o quarto aprontar-se para sair, quando ouviu Firmino ao telefone perguntar quanto custava uma corrida até o Cristo Redentor. Saiu correndo, desligou o telefone e ameaçou de chamar a Polícia. E quase histérica gritava: do Cristo, não, Firmino, é uma blasfêmia e vai dar muito trabalho aos bombeiros.
Não saiu de casa como pretendia, ficou na sala, sentou-se ao lado dele e puxou conversa: Firmino, de uns dias para cá estou com uma idéia, talvez esteja dentro dos seus planos.
– Qual – indagou?
- Na castanheira, onde malham o Judas.
Havia, na saída do Bairro no final das casas de vila, uma castanheira enorme, que pendia os galhos para a direita e esquerda, e na qual a garotada pendurava um boneco do Judas no sábado de Aleluia.
- Primo – continuou Sonhinha, se seu intento é ser falado, podia enforcar-se na castanheira, todos iam falar de você sempre e se lembrar.
Firmino pensou, pensou, não respondeu nada. Foi ao armazém, comprou alguns metros de corda, e em casa preparou um laço bem forte, experimentou se entrava na cabeça. Sonhinha só olhava.
Escolhe no guarda-roupa um terno bem velho, rasga os bolsos do paletó, como os do boneco confeccionado pelos moradores do bairro, suja as calças esfregando-as no chão, e enche os bolsos de dentro do paletó e das calças com papel, tornando-os bem inchados. Sonhinha desconfiada indaga: Que faz criatura? – Vou me enforcar como o boneco do Judas, tenho que ser igual aos da malhação, só falta o boné cinzento.

Foi ao armarinho e só encontrou bonés azuis. Não os quis. Percorreu diversas casas de moda, até encontrar o tal boné cinzento e voltou para casa. Depois, trajando como o boneco do Judas, foi à cozinha e com fuligem das panelas manchou o rosto, pegou uma escada de abrir e fechar. Ainda capengando, caminhou em direção à castanheira, já com o laço no pescoço e o boné. Sonhinha acompanhou-o até a esquina e ficou parada aguardando.
Firmino abriu a escada, subiu os degraus vagarosamente, atingiu o galho, amarrou a corda e com os pés jogou a escada longe. Foi um baque só. Até o estertor da morte foi sentido por Sonhinha que correu para casa. Como o bairro estava de olho, acorreu todo mundo, formando-se um tumulto de fotógrafos, televisão, repórteres, policia e bombeiros. Um espetáculo digno do desejo do falecido. Sonhinha sai de casa e se aproxima da multidão, quando alguém aponta para ela. Um policial pergunta se era esposa do suicida e dá voz de prisão, como cúmplice no suicídio, algemando-a.

Seus pais contrataram um advogado que fez de tudo para chamar a atenção e promover-se. Alegou que o ex-marido da ré era psicopata, que ela nada podia fazer. Argumentava que na segunda tentativa de suicídio o médico deveria ter providenciado a internação num hospital psiquiátrico. Armava na mídia e no fórum um festival de questionamentos e desencadeava uma enxurrada de intimações. O Juiz ignorou as interferências externas e as controvérsias jurídicas e determinou que o julgamento da ré fosse pelo Tribunal do Juri.
Chegada a quaresma, no sábado de Aleluia, os garotos dependuraram nos galhos da castanheira um boneco igualzinho aos dos anos anteriores, até no boné cinza. Os moradores, que passavam pelo local, se lembravam do suicida e muitos, persignando-se, rezavam pela sua alma.


 
Publicado na Antologia de Contos de Outono - Abril / 2010