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Michele Fávero
São Paulo / SP

Cotidiano

 

Janelas da alma suplicam
uma medida rápida, por favor.
Anjos desfigurados rondam as portas,
esqueceram o simples, divulgam a dor.
Pessoas rudes e uma realidade tosca,
distúrbios, prazeres e deveres
marcas de uma sociedade triste.
Poucos vivem em benefício dos outros,
muitos destroem em favor próprio.
Palavras transcendem na imensa ignorância,
de um horrendo show de arrogância,
transborda a sensação de vazio.
A solidão grita e desola
em meio do grotesco materialismo.
Fecham-se as portas e abram-se as jaulas,
cadeados mentais favoráveis à destruição.
Não entendo que evolução é essa,
onde matar é sinônimo de sentenciar
e amar é o mesmo que ter e machucar.
Onde está escondida a falange?
A infantaria recrutando os cansados,
no sombrio contexto do falso e das diferenças.
Estamos atrasados.
Lá vai mais um menino morto,
e um coração de mãe que chora.

 
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Publicado no Livro de Ouro da Poesia Brasileira Contemporânea - Edição 2008