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Valéria
Victorino Valle
Anápolis
/ GO
Soluços
do corpo
Amanheci grávida. Uma felicidade clandestina, doce e obstinada,
segue sem atropelos através da manhã de março.
Recordo-me do dia anterior e sinto que, mais uma vez, você flutua
no meu hálito quente. A imagem do menino vadio e sua voz de
leite e mel promovem o meu delírio em lento voo.
Estranha lucidez a minha... Meu coração é conhecedor
de sua liberdade: seu coração não pode ter uma
só dona, você é diversos e intensos amores. Mas
o seu sopro de sedução invade as minhas veias descontroladamente
e diante do seu encanto único e experiente, tombo em seus braços.
Se você quer: fico, queimo a razão e a consciência.
Na brisa da lembrança, vislumbro as linhas do seu corpo, ouço
o arfar do peito e seu olhar calmo convida para desejar o ritmo que
você deseja. São momentos singulares e febris. O seu
desejo é começo e tropeço, é fogo e armadilha,
sua boca vermelha entreaberta é a grande cilada que laça,
prende e sufoca. E na prisão dos seus abraços emerge
a fome atroz da sexualidade, é o prazer que desejo e possuo.
Nessa noite de quem sonha amor travesso, na loucura dos primeiros
e quentes momentos, você balbucia coisas sem nexo que se transformam
em extasiantes ondas de calor. É uma urgência que encosta,
desliza e alisa meu corpo entregue e cheio de espera. São emoções
imprevisíveis de um sonho antes disperso agora enrijecido e
latejante. Há reciprocidade nos olhos suplicantes de desejo
e num incrível devaneio aceitei ser a eleita, a favorita. Havia
orgulho e pudor em mim. Timidamente senti com intensidade você
me cobrir com suas carícias lentas, com perícia suas
mãos tateavam meu corpo como arma poderosa: liberdade, encanto
e comando. Ainda ecoa forte em mim sua voz murmurando:
_ Vem...Liberte os versos e a poesia...
No descontrole que não busquei, sinto que caí na armadilha
do imprevisível: estou impotente e à deriva. No meu
corpo sensações indescritíveis e efeitos alucinantes.
Seus dedos atrevidos buscam amor urgente e provocam suspiros e murmúrios.
Sua boca abriga os meus seios com uma língua afinada e afiada.
Não consigo libertar os versos e a poesia com a minha própria
voz, assim uso gestos para que você os liberte. Sacio os meus
lábios na pele de todo o seu corpo que espera por mim, e com
beijos suaves e ardentes, arranco gemidos abafados em compassos ritmados
e íntimos: marcas de paixão e explosão. Desfalecemos...
transcendemos ... Os corpos entrelaçados se fundem, somos seiva
e alívio, úmidos e afogados na belíssima luta
de corpos nos lençóis revoltos. Somos dois de desejo,
outrora sucumbidos, agora embebidos e embriagados nos soluços
do corpo.
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