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Larissa Nascimento Sátiro
Feira de Santana / BA


Quando o mundo veio a mim

 


Eu quero falar de um mundo que é só meu. E ao qual eu não entendo porque não posso, não quero e, às vezes, não consigo. Ele é largo, sem arestas, sem corrimão. É tão imenso que é incompreensível. Ele guarda as verdades circunscritas no seu próprio tempo que só existe porque ele existe. Ele vibra. É pura excitação. Ele quer se abrir inteiro e se dar totalmente, para finalmente poder ser meu.

Ele quer se dar com violência e sensualidade, de uma vez, no tempo de um instante. Mas teme. E enlouquece. E sorri sutilmente fingindo que se dá sutil e doce. Mas mente. E já posso ouvir sua respiração profunda e compassada se aproximando cada vez mais.

Haverá como evitar o temido encontro?

Faz sol mas parece que está tudo escuro. Num tom meio oliva. Um tom de angústia. Este mundo conhece o seu destino e segue para ele. Sabe que pode a qualquer tempo mudá-lo. Mas que sentido haveria em mudar o fim para o quê veio e se fez carne? Seria jogar fora todo o passado e o presente... e não haveria futuro posto que este se prende ao fio de navalha tenso que há entre esses dois tempos.

O mundo sabe que é o que quer ser. Cria suas leis e as cumpre contra sua vontade. Mas quebrar as leis significa alterar os tempos todos de forma imprevisível. E ele, o mundo, tem medo. Se o mundo souber onde começa, fatalmente reconhecerá seu fim. Deixará de ser eterno. O mundo é eterno porque não sabe onde começou. E o mundo quer ser eterno.

Imagine o que sente o mundo agora... imagine o que sinto eu quando sinto seu hálito desconhecido se aproximando... É como um prisioneiro, que após anos de cárcere é convidado a ser livre. Sempre almejou a liberdade e de repente, quando ela chega, vem como fera cruel da qual só se ouve o rugido... E se aproxima, e já se vê sua sombra sobre o umbral das janelas. E com medo da fera o prisioneiro, ainda preso àquele último instante, hesita. E intenta cometer um novo delito; assim poderia retornar à segurança de uma rotina que sempre o prendeu à existência.

Existir fora dos muros exigiria novas leis. Novas leis desafiam a eternidade a cada instante. Não pode esse homem se libertar. Nem pode o tal mundo do qual falo tampouco libertar-se dessa solidão. Pois ambos desconhecem a verdade. Talvez nem a reconheçam se ela vier um dia.

E assim fica registrado o fatídico momento em que o mundo finalmente veio a mim, e eu, para não perdê-lo de vez, fugi de mim mesma.

 
Novos Talentos do Conto Brasileiro - Edição Especial - Junho de 2009