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Antologia
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Um charuto em Paris
A tarde estava agradável no final de outono. Depois de se alojar em um hotel confortável e barato nas imediações do Quartier Latin, vestiu como um existencia-lista: camisa de malha negra, boina negra de veludo e um sobretudo negro a la Matrix. Dentro do capote, além dos passaportes brasileiro e espanhol, trazia um cog-nac, charutos Havana ("Martinica produz bons charutos? Na dúvida, trouxe os cu-banos"), a antologia de poesia francesa de Cláudio Veiga e um livro de poemas de José Inácio Vieira de Melo. Saiu pela Rua de Vaugirad até os Jardins de Luxemburgo. Vogou pela Boule-vard Saint Germain em direção a Île-de-la-Citè. As bancas de livros encheram de gula os olhos de Roberto, que comprou alguns livros. Caminhou até a Praça Saint Michel e procurou um banco tranqüilo onde pudesse contemplar o Palais de Justice. Sentou-se com gosto, como se fosse um personagem de Sartre, Balzac ou o próprio Jean Valjean. Devidamente acomodado nos seus devaneios, acendeu seu charuto. Após uma doce e macia baforada, bebeu uma dose longa de cognac. Para complementar o seu íntimo orgasmo intelectual, começou a ler o Correspondances de Baudelaire. Já lia os últimos versos quando viu um guarda chegando sua direção. Discretamente, Roberto apalpou o capote, para se certificar de que estava com os passa-portes. Um incômodo começou tomar seu corpo com a chegada do policial. Pensou em ignorá-lo, mas o perfil do guarda se agigantou em sua frente até fincar sua pre-sença ante Roberto. Na lapela lia-se: "Pierre / Gardien de la paix". O policial disparou a queima roupa: - Bonjour, monsieur! - Bonjour, monsieur! - respondeu Roberto com os olhos inseguros e se levantado cautelosamente de sua extinta placidez. - S'il vous plaît,. - continuou o guarda, para o desespero de Roberto. Em seus ouvidos a fala da Pierre tornou-se um zumbido confuso. O que o policial estava falando? Roberto se lembrava de seu aprendizado: Brasileiro, aprendera Inglês como segunda língua no ensino fundamental. Estudara Letras com Espanhol na Universidade. Depois Italiano para o doutorado em Aretino. E embora gostasse muito da França, só desenvolvera pessimamente um francês de fronteira, para leitura e balbucio de cinco ou quatro expressões. Como poderia se comunicar agora ele com Pierre? Roberto ficou calado nos infinitos quinze segundos. Seus olhos de arquearam numa dúvida. Pierre voltou a perguntar em francês quando Roberto segurou a cora-gem pelos dentes e disse um "Pardon, monsieur. Je ne comprends pas", interrompendo o guarda. Pierre olhava para o charuto aceso. Seu rosto continuava simpático embora emanasse autoridade. Roberto prosseguiu no seu francês cacofônico: - Je suis. (Deveria ele dizer que era cidadão brasileiro ou espanhol? Temia o preconceito contra os latino-americanos. Preferiu dizer uma meia verdade) Je suis un brésilien. - Touriste brésilien? - Pierre franziu amigavelmente a sobrancelha. Seu olhar continuava fixo e sedento pelo charuto. Roberto continuou preocupado. Suas roupas não eram de um turista convencional. Esta era sua primeira viagem ao exterior. Viajava sozinho, sem um roteiro prévio além daquele que traçara na adolescência. Não esperava passar por aquilo. "Por que não fora para Santiago de Compostella? Não, seu sonho era a Paris luminosa de seus romances". Discretamente voltou a passar a mão no bolso do casaco para se certificar dos documentos. Estavam lá. "Que alívio!" Roberto tomou de novo coragem e perguntou para o guarda se ele falava português. Resposta negativa. Não ousou falar em italiano, pois conhecia as rusgas entre Gauleses e Romanos. Nem arriscaria falar no odiado idioma britânico. Arriscou o castelhano: - Parlez-vous Espagnol, monsieur? Outra resposta negativa. Pierre olhava ainda para o charuto que jazia esquecido na mão de Roberto, que cada vez mais ficava tenso. "Seria proibido fumar em praça pública na França? Estaria o guarda suspeitando que estivesse com alguma droga ilícita? Estaria ele desconfiando que eu fosse um terrorista? Também, meu rosto moreno era mais levantino que sertanejo". Roberto foi sendo tomado por um pavor interno que enrijecia suas cordas vocais. Seu sonho caía das nuvens para de suas cinzas renascer neste pesadelo. Por um momento ele deixou de ser um professor universitário para ser um adolescente com medo de ser castigado. Finalmente Pierre chamou uma outra policial que passava naquele momento. Roberto se tornara pânico e vergonha. A jovem guarda que se aproximou era simpática. Na lapela, lia-se Jeane D'Arc. Os dois trocaram algumas palavras até que ela virou-se para Roberto perguntou em português se ele era brasileiro. O sotaque levemente lusitano confortou o coração de Roberto. Ao menos alguém estava falando o idioma pátrio. Ele respondeu nervosamente que sim. Com um sorriso de santa nos lábios, ela prosseguiu: - Meu colega Pierre queria comprar ao senhor um charuto. Ele aprecia os bons Havanas, só que aqui eles são muitos caros. Os de Martinica não lhe agradam. Um longo suspiro expeliu do corpo de Roberto todas as suas preocupações. Rapidamente tirou uns sete charutos de dentro do capote e ofereceu para os dois policiais. Ela recusou delicadamente. Ele pegou uns dois e agradeceu efusivamente. Os dois saíram pelo parque, tranquilos. Roberto voltou para seu charuto. Sentou-se com o coração já mais calmo. Tomou um gole de cognac e deu outra baforada, suspirosa e boêmia. Mudou de livro - desejava os versos pátrios de Zé Inácio. Roberto se sentia como um personagem de Sartre, Balzac ou o próprio Jean Valjean naquela tarde de Paris. |
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Novos Talentos do Conto Brasileiro - Edição Especial
- Junho de 2009 |