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Antologia
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Pinóquio e a menina de lata
Com o anoitecer, o jovem Pinóquio, pensou que se conhecesse os mistérios do mundo, poderia apagar essa tristeza. Seu pai, contratou os melhores professores do reino, e encheu o quarto do menino de livros de poesia, ciências, filosofia, literatura e tudo que havia de mais significativo sobre todas as coisas. Pinóquio passava noites e noites em claro, aprendendo tudo sobre o mundo, e de alguma forma, aquela estranha tristeza não mais o afetava. Porém, era só um alívio passageiro, pois quando finalmente aprendeu tudo que os mestres puderam lhe ensinar, Pinóquio foi tomado por aquela inquietude de um jeito ainda mais forte. "O que me falta? Conheço as coisas que podem ser conhecidas, sei fazer contas de cabeça e calcular a distância dos planetas; sei de tantas coisas quanto podem ser sabidas, e ainda sim, meu coração não está em paz?" Foi então que o impulso brotou dentro de si: ele queria ter voz, tinha coisas a dizer, tinha que expressar o modo como mundo lhe afetava. Sentindo umas formiguinhas alvoradas na sua alma, recolheu uma velha máquina de escrever no porão de sua casa, e decidiu escrever. Durante muito tempo o jovem Pinóquio construiu um mundo de palavras onde finalmente sentiu um pouco de paz. Noites a fio, ele arrancava das folhas em branco, lugares, pessoas, imagens e pensamentos que passaram a existir fora dele. Mas isso também era ilusão, quando vinha o pôr-do-sol, aquele aperto esquisito comprimia seu peito. Certa
manhã, uma ventania invadiu o reino de supetão, derrubando
árvores, e atiçando cachorros. A janela do quarto de
Pinóquio estava aberta, sendo assim, aquele sopro de ar roubou-lhe
um pequeno fragmento de folha, que plainou pelo céu até
sumir, sem que ele percebesse. Pinóquio, Meio sem saber o que fazer, o jovem garoto coçou a cabeça e colocou-se a pensar. Prendeu o pombo debaixo do braço, caminhou até a máquina, puxou uma folha e escreveu um pequeno bilhete: Menina-de-Lata, O pombo partiu das mãos do menino e desapareceu no céu. Pinóquio sentou-se na cama e teve uma estranha sensação. Não uma sensação como aquela de todas as tardes, de certa forma era seu exato contrário que começava a nascer. Durante algum tempo eles trocaram breves mensagens, depois viram a foto um do outro, até que um dia, Pinóquio não conseguiu dormir. Ficou olhando as estrelas durante toda noite. A imagem da Menina-de-Lata não saia de sua cabeça. Lembrou-se então, de um antigo encanto que lera num livro de alquimia. Chamava-se "A Janela". Segundo constava no livro, as pessoas distantes podiam se ver, através de dois espelhos. Pinóquio escreveu as instruções num bilhete que o pombo levou ligeiro pelo céu, como se soubesse da importância daquela mensagem. A meia-noite, exatamente, Pinóquio e a Menina-de-Lata, deveriam pronunciar o nome um do outro sete vezes diante do espelho. Quando o sino da Igreja bateu as doze badaladas, ambos com os espelhos posicionados, Pinóquio viu, lentamente, seu reflexo ser substituído pela imagem da menina. Como o encanto trazia só a imagem da pessoa ausente, para se comunicarem, cada um, havia de usar um caderno, onde as mensagens eram escritas e mostradas para outro através do espelho. E de alguma forma, naquele silêncio o menino tinha a impressão de ouvir a voz da moça brotar das letras e ecoar dentro de si. Infelizmente, a duração do feitiço era breve: quando o relógio bateu uma hora, a imagem da menina sumiu no espelho e Pinóquio tentou inutilmente agarrar-lhe pra junto de si, encontrado apenas o vidro frio e o próprio reflexo. Daquele momento em diante, o jovem se viu tomado por uma coisa que nunca havia experimentado em toda sua vida. Sentiu-se estranho e ridículo, porque percebeu, que era a Menina-de-Lata, a desconhecida admiradora, que ele havia presenciado apenas o reflexo, que lhe faltava. E aquela tristeza esquisita, inefável, que lhe consumia todos os dias, no pôr-do-sol, que nada podia preencher, era ausência dela que já estava presente nele desde sempre. Era saudade daquela desconhecida, que ele sentia, foi como recuperar uma memória distante. O jovem então jogou uma mochila nas costas, desceu correndo as escadas da casa, e partiu em sua bicicleta, pela estrada de terra, cercada de grama, e pequenos arbustos: enquanto o sol se punha no horizonte. Pinóquio contemplou o céu alaranjado e sorriu. |
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Novos Talentos do Conto Brasileiro - Edição Especial
- Junho de 2009 |