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Neri
França Fornari Bocchese
Pato
Branco / PR
Uma
pescaria muito especial
A data foi marcada, o coração batia em ritmo acelerado.
Foi à semana mais comprida da vida de Gabriel. Iria pescar.
E, pescar no Sítio do Vô, que bem poderia se chamar Sitio
do Vô Mazuti.
Ganhou uma bota especial para o momento, de cor preta, de borracha.
Assim podia enfrentar a umidade da beira do açude, a grama
molhada e, ainda andar onde tivesse água rasa, ou se embarrar
nos muitos olhos d´água. Não se esqueceram de
passar na farmácia, comprar repelente, protetor solar, pilhas
novas para garantir o uso da lanterna.
Foi uma semana inesquecível. Barraca, colchão inflável.
O chapéu e claro a vontade de ir pescar entrelaçada
com a ternura dos avós.
O anzol, a vara, o material usado na pescaria, o Vô tinha lá
no sítio. Ele gosta de passar horas na beira do açude
e, junto com a bem amada, companheira escolhida depois de um tempo
em que viveu um pouco perdido, sozinho. Companhia, encanto, muito
amor, fazem parte do seu viver.
O Vô e a Vó foram dias antes para prepararem a vivenda,
com o caseiro deixar tudo arrumado. Caçaram as pacas, para
fazerem um almoço diferente. Em volta do açude as famílias
de pacas são tanta que dá para escolher aquela que se
quer caçar ou pegar na armadilha. Carnearam um leitão,
assim salame, queijo de porco, morcilha, fresquinhos para o café.
Enfim, na casa tudo cheiroso, com flores no vaso, As camas macias,
a rede no alpendre, o balanço de corda amarrado na árvore
de cinamomo.
Partiram numa sexta-feira à noite não deu para esperar
o dia de sábado amanhecer. O pai de motorista, a mãe
com o Gustavo no colo e o Gabriel como se diz no sitio: mais feliz
que um potro correndo solto.
Era noite de luar. A lua Cheia parecia cumprimentar os visitantes,
se fez mais bela do que nunca. Os pássaros noturnos, os insetos
com certeza ensaiaram uma sinfonia toda especial.
- Paiê, nós vamos ainda hoje pousar na barraca. Lembrou
o menino.
Dormir no sitio do Vô e embaixo de uma guabiroveira, aventura
para nunca mais ser esquecida. A vida se tornou mais Bela. Quando
se tem 6 anos, esses momentos passam a serem muito especiais. Conseguiram
montar a barraca e, pai e filho naquela noite mágica, envoltos
num diálogo até de madrugada afirmaram os laços
não só de paternidade, mas de amizade. Vencidos pelo
sono, adormeceram.
Eles cansados e confiantes dormiram na Paz de quem aproveita com sabedoria
o momento único. Bem se sabe que o cachorro chamado Amigo,
garantia a proteção. A Vó Helena e a mãe
como sempre, mulheres preocupadas, levantaram-se várias vezes
para darem uma espiada através da janela, nos hóspedes
da Barraca Azul.
O sábado amanheceu com o Irmão, o Senhor Sol, "belo
e radiante com grande esplendor". A família depois de
um café substancioso foi conhecer o sítio. Caminhar,
explorar cada canto e chegar ao açude onde se daria a pescaria.
O menino aprendeu como represaram á água. O que é
uma nascente, a necessidade da mata ciliar, o respeito com a Vida,
foi uma aula de geografia na própria natureza.
A ansiedade já não era mais suportada pela criança
e pelo Avô, o Mestre da nobre e milenar arte de pescar. O neto
do coração, adotado por afinidade amorosa foi o companheiro
escolhido. Gerações se encontram, o prazer de passar
ensinamentos, a sábia convivência, ensinar e aprender
de maneira prazerosa. Sem necessidade de se ter uma Cátedra,
a própria vida se transforma em Academia.
Pescar desde sempre o homem o faz mesmo antes de o anzol ser inventado.
Uma necessidade de alimentar-se e, um lazer todo especial. A calma,
a água com seu borbulhar, a paisagem interagem na harmonia
dos seres humanos e dos outros viventes, cura até falta de
vontade de viver, desperta o Amor. Além de ser uma lição
de paciência.
As minhocas outrora catadas em baixo de uma árvore onde o gado
gosta de fazer a sesta. Como explicou o Vô, elas inquietas tentavam
pular para fora da lata. Dava dó vê-las. Como seres vivos
deveriam perceber que seria alimento para peixes famintos. A cadeia
alimentar proporciona a vida, o prazer se faz necessário alimentar-se
e servir de alimento. Agora, explicou o vô, nós pescamos
com grãos de soja, pré-aquecido. Os peixes adoram e,
as minhocas agradecem.
O homem o Ser maior, na escala da evolução não
pode esquecer-se de dar condições a essa cadeia. Não
poluir, não acabar com as espécies vivas quer sejam
amimais ou vegetais.
Acomodados, avô, neto, pai, a mãe com o pequeno no colo
só passava por ali, e claro a vó Helena pescadora por
excelência. Preparam as varas, a isca caprichada, a soja apetitosa,
jogam o anzol e nada. Nem uma iscada. Porém a vida conspira,
a criança grita de alegria, um peixe enorme. Precisou de ajuda
para tirá-lo da água. Assim se repetiu por várias
vezes. Só o guri conseguiu pescar. O avô precisou monitorar
o anzol e a isca. Os olhos ainda hoje brilham, a voz toma timbre especial
ao relatar a pescaria. Trouxe entre tilapias e carpas uns 60 peixes,
já limpos na barranca do açude pelo capataz. Trouxe
os únicos peixes para serem preparados na cidade de Pato Branco
na casa do Nono Roque.
Foi um sábado especial. As famílias de diferentes origens
e costumes, reunidas. Gerações, convivendo em uma simples
pescaria. Mas para o Gabriel, a Grande pescaria de sua vida. Para
o vô Mazuti um momento especial.
No domingo à tarde voltaram para o burburinho da cidade. Os
afazeres da semana se tornaram mais leves. Na escola a aventura foi
relatada. Foi contado pelos coleguinhas muito causo sobre pescaria
e a noite na qual dormiram na barraca. Uma lição de
amor, onde as crianças entenderam muito bem.
Disse uma delas:
- Eu queria que o meu avô tivesse um sítio.
Outra, porém afirmou:
- O meu vô tem, até uma fazenda, mas nunca me levou pescar.
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