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Alexsandre
Escorsi Messias Moro
Estrela
d'Oeste / SP
Sonho
de papel
A vida é assim. Uns sorriem e levantam-se depois do tombo.
Outros se amparam tangentes em obscuros encostos e com sorrisos amarelos
continuam a repetir as suas gerações para não
se desesperarem que a vida é assim mesmo. O dia do caçador
perpetua-se e a caça foge silenciosa sabendo que o seu prometido
dia nunca chegará. Aquele espaço de vida sonhado dilui-se
no papel borrando a esperança daquela aquarela brasileira com
nódoas indefinidas.
Uma tela a menos para sublimar os sofrimentos daqueles que nada têm
além do prazer de sonhar. Enquanto os traços dos desenhos
na parede ondulavam vertiginosamente, o pintor mergulhava embriagado
no pesadelo de sua angustia pessoal. Suas coleções ganhavam
vida própria e o encarceravam num infinito universo de imagens
alheias, numa esfera de alteridade inacessível. Restaria, então,
concordar com o conformismo de seus antepassados e amputar aquele
sonho de papel que consumiu todos os seus preciosos anos como promissor
artista plástico?
Desde o primeiro curso de pintura que realizara, a criatividade do
pintor mostrou-se inconformada às contenções
didáticas e frias do professor de arte. Os exercícios
propostos sobre temas românticos, realistas, impressionistas
resultavam sempre em originais distanciados dos esboços esperados.
Não lhe era fácil submeter-se ao condicionamento acadêmico.
Tais impulsos eram prenúncios do gênio que se revelaria
nos anos durante a faculdade de Educação Artística.
A família desaprovara sempre suas pretensões de tornar-se
um artista. Primeiro, porque os custos com o material para pintura
eram muito altos. As tintas, os pincéis específicos
e mais as telas e outros materiais, tudo seria muito difícil
de adquirir e manter. Depois, porque na família não
havia nenhum artista e os pais temiam que o filho fracassasse e não
conseguisse firmar seu nome.
Inúmeras vezes, eles tentaram dissuadi-lo do que previam ser
um engodo profissional. Não viam utilidade nas obras que o
rapaz produzia. Lembravam-se do primeiro desenho numa folha de caderno
que o menino fez e mostrou a um amigo da família. O talento
nato evidenciou-lhe instantaneamente e o amigo não poupou elogios
e estímulos. Os pais o amaldiçoavam por ter incentivado
o filho àquela arte. Contudo, cederam-lhe aos apelos e puseram
o filho numa escolinha livre de arte.
Silvio rapidamente dominou a teoria das cores primárias, secundárias,
terciárias, complementares e seus matizes. Em poucas aulas,
obtinha curiosos efeitos de luminosidade com as cores quentes em paisagens
que expressavam a exuberância ingênua e alegre de sua
infância. As cores frias lhe eram propícias para expressar
em séries de câmaras vazias o silêncio familiar
e a indiferença diante de seus ímpetos artísticos.
No começo, os desenhos eram sua modalidade expressiva preferida.
Utilizava com destreza noções intuitivas dos objetivos
do desenho a partir das proporções da forma e das gradações
e texturas de sombras do volume. Aprendeu a manejar o ponto de fuga
e que o desenho poderia ser descritivo ou expressivo.
Embora sua disposição para a arte fosse notável,
ele desencontrava-se dos projetos efêmeros dos colegas. A escola
começou a ser vista por ele como uma obrigação
pouco instrutiva e castradora. Seus amigos invejavam seus dotes artísticos
e o excluíam do grupo sempre que as atenções
se voltavam para seus trabalhos iniciais. Até o humilharam
questionando sua sensibilidade, delicadeza de espírito, seu
comportamento avesso aos esportes e às futilidades masculinas.
Não que preferisse manter-se no vácuo oblíquo
dos colegas nas conquistas às garotas. Todavia, os seus progressos
na pintura lhe eram mais importantes e o seu sonho de desenhar, pintar
e ilustrar as páginas daquela vida opaca fulgurava como uma
meta sem contornos. Não desistiria do intento artístico.
A mudança de cidade para realizar a faculdade proporcionou-lhe
uma nova perspectiva sobre a vida. Livrou-se dos venenosos valores
e sua percepção visual aprimorou-se. Desenvolveu técnicas
antigas e modernas e aprendeu a combiná-las com segurança.
O rigor metódico da academia novamente se impôs como
um entrave aos vôos nada lineares de sua imaginação.
Ainda em curso, teve várias obras premiadas e outras devidamente
destacadas. Tão logo iniciou sua carreira profissional, descobriu
que deveria submeter-se às limitações criativas
do mercado de trabalho. Isso não o impediu de continuar criando
suas obras e maturar sua técnica e estilo do desenho em papel.
Suas obras circulavam por cartazes, livros, jornais, propagandas e
se encontravam pinturas suas em galerias, salões, etc.
Casou-se com uma escritora e ilustrou-lhe muitos livros com tintas
fortes da paixão. As excentricidades de ambos completavam-se.
Sua esposa tinha um coração de ouro e uma paciência
inigualável para suportar suas crises. Fantasmas da incompreensão.
Não tiveram filhos, mas a felicidade matrimonial era velada
e protegida pelo sopro verdadeiro do amor. Ele sempre fora atormentado
e afetado pelo silêncio das palavras da crítica, muitas
vezes dura demasiadamente. Seu contraponto de equilíbrio era
a beleza intrigante dos versos da esposa, assim como as imagens únicas
e internas que ela evocava e divinamente lhe inspirava.
Um dia, a esposa encontrou seu marido embriagado e em prantos destruindo
suas próprias telas. Ele bebia há algum tempo, mas nada
que fosse preocupante. Com o rosto encharcado de lágrimas,
ele disse-lhe:
- Estou ficando cego, meu amor! Como posso viver assim? Prefiro morrer.
Ele tinha uma doença crônica da visão. Era irreversível.
De fato, ficou cego e suas obras foram difundidas e consagradas em
diversos países. Hoje ele estuda e trabalha com possibilidades
expressivas em desenhos e ilustrações para cegos com
textos em Braille. Silvio descobriu que existia um universo tátil
paralelo ao seu no qual a visualidade também era possível
e promovia a alegria. Seu sonho de papel não morreu. Ele continua
vivo inclusive entre aqueles que nunca puderam ver.
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