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Márcia
Vidal
Fortaleza
/ CE
Coruja,
lobo e gato: memórias
Desde muito cedo, passei a detestar três coisas: roupas brancas
e justas, penteados e ser chamada de bonequinha.
Acreditem! Mas a verdade é que toda mãe tem desejo de
fazer de sua filha uma boneca, princesa e outros codinomes dados a
crianças do sexo feminino. E a situação se agrava
quando se é filha.
Ainda me lembro, como se fosse ontem.
As pessoas da casa preparando bolos, doces e salgados, entre outras
guloseimas, enfeitando os cômodos para o que iria se realizar
dali a algumas horas.
Eu estava calma e curiosa por tamanho rebuliço, mas continuava
ali, observando o corre-corre. Uma vez ou outra, alguém sorria
e fazia gracejos. Achava estranho e até tentava imitar.
Então, aconteceu o que eu não esperava. Senti duas mãos
me erguerem e, com um largo sorriso, a pessoa sussurrou: "Hora
do banho, bonequinha".
Sem protesto, aceitei. E para comprovação, tudo era
delicioso, a água, o cheiro de pom-pom e aquela voz aveludada
que cantarolava o melo do hum-hum. Divino!
Em seguida, as mesmas mãos me colocaram numa toalha com estampas
de carneiros e me massagearam com movimentos circulares.
Mas as coisas boas duram pouco, e mais trágico do que cômico,
fez-se o momento.
Apareceram outras mãos que me puseram num vestido branco, estilo
"Maria mijona", cujo bordado arranhava além de apertar-me
o pescoço. No cabelo, foram feitas polianas ou "Maria
Chiquinhas", que me deixaram com os olhos puxados. Por fim, colocaram
meias de crochê, que marcaram as minhas pernas, causando uma
terrível coceira. Eu estava perdida!
E para meu desespero, ouvia repetidas vezes: "É uma boneca,
uma verdadeira boneca".
Fechei a cara, fiz "bico" e lancei aquele olhar que só
os felinos possuem. Gracinhas e adulações não
surtiram efeito para provocar meu riso.
Então, fiquei aguardando o que estaria por vir, em cima de
uma cama com colcha de retalhos de rede. O tempo logo passou, e o
inevitável chegou como um estalar de dedos.
Às pressas, fui levada para outra parte da casa onde havia
muitas pessoas.
Eu parecia o próprio bolo, pois várias mãos me
tocavam, apertavam minhas bochechas, o braço, os enfeites do
cabelo, tudo. Além disso, deparei-me com tantos rostos, vozes
e cores, que entrei em pânico e "abri o berreiro",
seguido de um lamento desesperado e impertinente.
Ninguém entendia nada, e continuavam a me assustar com gargalhadas
altas e comentários, para mim, nada agradáveis. Um verdadeiro
duelo. Eu queria sair dali e ter de volta a paz de antes.
De repente, uma voz: "Vocês são loucos? A menina
está sufocada! Deixem-na em paz!".
Engoli o choro abruptamente ao ouvir o que tanto almejava, sendo salva
por alguém que cheirava a rosas e tinha hálito de hortelã.
Imediatamente, reconheci minha heroína, Vovó. Rápido,
aconcheguei-me em seus braços e por eles fui suavemente embalada
e retirada para longe dali.
Estar com ela era diferente. E, naquele dia, no meu aniversário
de um ano, após ter-me salvo de outros, disse baixinho ao meu
ouvido: "Quando você crescer, tenha olhos de coruja, faro
de lobo e astúcia de gato, pois não é sempre
que irei aparecer para lhe tirar de situações como esta".
E para confirmar, sem decepcioná-la, apertei seu braço
com a minha mãozinha e deitei a cabeça em seu peito,
cujas batidas do seu coração eram como uma canção
de ninar.
Assim, de todos os presentes ganhos naquele dia, este é o único
que guardo na memória, como marcado a ferro e fogo pelo tempo.
E semelhante a isso, recorda-me um ensinamento budista que é
bastante valioso para quedas e ascensões: "Veja o vidro
como se já estivesse partido e todo o resto, também".
Palavras como estas tornam-se um complemento e explicação
para não só as épocas de turbulência, mas
para as pessoas que nos rodeiam. Porém, com tudo isso, ainda
continuo avessa a vestidos brancos, penteados e ouvir "boneca"
como elogio.
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