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Gaspar Bissolotti Neto
São Paulo / SP


Um estranho local

 


Estava viajando sozinho de carro por uma estrada pelo interior do País, quando furou um dos pneus. Parei o carro, abri o porta-malas, retirei o estepe e percebi que ele estava murcho.

Fiquei nervoso, olhei para os dois lados da estrada e só enxergava canaviais, nada mais se via além disso. Encontrava-me numa estrada deserta, pela qual não passava carro, caminhão ou pessoas. Somente uma placa se avistava: "Cemitério da Saudade a 1 quilômetro". Precisa trocar o pneu, estava sem estepe e sem ter a quem recorrer. Não havia um telefone público nas proximidades, não tinha como me comunicar com qualquer outra pessoa para pedir socorro.

Lembrei-me que há alguns minutos havia passado por uma vila. Talvez pudesse voltar a pé e pedir socorro ali. Acredito, pelo tempo que passara, essa vila deveria estar a uns quatro ou cinco quilômetros dali. O problema é que já era um final de tarde. E o local bastante sombrio. Mas não tinha outra coisa a fazer. Guardei o estepe, fechei o carro, dirigi-me à vila.

Andei uns dez quilômetros, sem avistar nenhum carro, nenhuma pessoa e nada de encontrar a vila. Pensei que talvez tivesse me enganado e que a vila estivesse mais longe do que imaginava. Já estava escurecendo e eu sozinho naquele lugar, sem ter o que fazer, a quem recorrer. Na hora, lembrei-me que se tivesse ido à frente teria encontrado o cemitério a um quilômetro de distância e quem sabe perto dele houvesse uma outra vila, comércio, um posto de gasolina, algo assim. Só que voltar agora seria uma loucura. Chegaria muito tarde.

Passei uma curva e finalmente avistei a vila. Ufa! Já estava ficando preocupado.

Em poucos minutos já estava passando pela ruazinha que saía da estrada. Vi um bar apinhado de gente. Entrei. Pedi um café e perguntei ao balconista, provavelmente seu dono, se havia algum borracheiro por ali. Ele sorriu e disse que não. Só a uns cinco quilômetros dali, entrando por uma outra estradinha que saía do final daquela rua.

Era um sujeito estranho, com uma pele bem morena e um cabelo loiro, quase ruivo. Não tinha dentes, parecia ser muito velho, bastante enrugado. De repente, percebi que já não havia mais ninguém no bar. Só eu e ele. Todos haviam desaparecido. Não entendi nada. Expliquei pra ele minha situação.

Ele me disse que junto ao bar funcionava uma pousada e que poderia, se quisesse, pernoitar lá e de manhã poderíamos procurar o borracheiro, porque naquele horário ele já deveria estar em casa.

Eu não tinha tanta pressa e a única solução que me restou foi aceitar a proposta. Lanchei no bar e acompanhei-o até meu quarto. Mostrou-me as dependências da pousada e disse que se precisasse qualquer coisa estaria ali.

O meu quarto era simples, com um armário e uma cama de casal com roupas de cama e cobertor. Tinha também um banheiro simples com chuveiro de água quente. Eu não tinha bagagem nenhuma, portando tirei a roupa e deitei-me após tomar um banho, aliás só joguei uma água no corpo porque nem sabonete tinha. Estava muito cansado e logo peguei num sono pesado. Acordei já estava claro, com o sol entrando pela janela de vidro e sem cortina. Lavei o rosto, meio tonto, sem lembrar direito de onde estava. Puxei pela memória e lembrei-me do pneu furado a uns quilômetros dali. Saí do quarto e dirigi-me ao bar, que ficava na parte da frente da pousada. Tudo fechado. Procurei pelas outras dependências e não encontrei ninguém. Aliás nada tinha por ali, além de alguns móveis e um ar de abandono total. Um vulto apareceu, tomei um susto e era um velho gato que, também assustado, passou correndo por mim, talvez até atrás de algum rato. Dirigi-me novamente ao bar, abri uma porta lateral, que estava apenas encostada e procurei alguma pessoa pela vila. Não encontrei ninguém. Fiquei aguardando para ver se chegava alguém e nada, nenhum movimento pelas casas vizinhas e nem pela estrada.

Procurei a estrada onde deveria ter o borracheiro, andei cinco quilômetros e cheguei realimente à borracharia. Fui muito bem atendido por um homem rude, mas atencioso.

Ele estranhou que eu estivesse vindo da vila e mais ainda quando lhe contei onde passei a noite. Disse-me que há muito tempo a vila estava abandonada e a pousada foi fechada quando seu dono, um homem ruivo, foi assassinado por um hóspede de forma brutal.
Pegou um pneu reserva, colocou em sua charrete e me levou até meu carro. Passamos pela vila abandonada e enquanto passava ia se benzendo, dizendo que aquele local era mal assombrado e que ele, quando podia, preferia dar a volta pela outra estrada para não passar por lá.

Chegando ao local onde o carro estava, desci da charrete e percebi que ele estava normal, com os pneus sem qualquer problema. Fiquei atônito. Quando olhei para a charrete, ela e o seu dono haviam desaparecido. Não entendi nada. Entrei no carro, coloquei a chave e ele deu partida imediatamente. Engatei a marcha e saí de lá correndo, sem sequer olhar para os lados e sem sequer entender nada do que havia acontecido. Nunca mais entrei naquela estrada e até hoje fico pensando naquela gente e naquele lugar.

 
Novos Talentos do Conto Brasileiro - Edição Especial - Junho de 2009