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Cristina Linardi
Campinas / SP


Mulheres

 


- Os homens são todos iguais.
- Essa frase já é manjada.
- É, eu sei... Mas o que posso fazer? É a mais pura verdade!
- Alguém quer mais café?
- O bebê tá chorando.
- Os homens não são todos iguais.
- Claro que são! Tá louca?
- O Zé Pedro é diferente, não é?
- O bebê tá chorandoô...
- Diferente de quem? Ou de quê?
- Como assim? O Zé Pedro é meu marido, e igual aos outros!
- Nada, seu marido é um palhaço; no bom sentido, é claro. Vive gargalhando, fazendo piada...
- E o mais legal dele, Mara, é que ele não é safado, sem-vergonha, ele é brincalhão sim, mas não é estúpido.
- Ah, ta! Imaginem um brincalhão 24 horas por dia!
- Tadinho, gente, o bebê!
- Deixa eu dar de mamá! Mas imaginem! 24 horas por dia!
A mãe da criança sai da sala.
- Bom, ela tem razão, imagina, você não consegue falar sério com o cara, ele tá sempre rindo...
- Nossa, deve ser muito chato!
As amigas concordam.
- Ai, odeio homem assim, piadista, brincalhão. Gosto de homem mais sério, misterioso, isso é mais atraente.
- Ah, ta! Tipo... um Miro da vida!
- Tá louca!
- Ué, o Miro era assim, todo misterioso, sedutor, tinha aquela cara de safado contido, não tinha?
- Haha, ela mesma usava essa expressão: adoro homens safados e contidos!
- Isso foi outro tempo...
- Ah, Vera, nem vem! Você adorava o jeito misterioso dele, você sempre disse isso mesmo, que adora homens misteriosos!
- E ainda gosto, de certa forma.
- Só que mistério, bem, pode ser uma segunda família! Tem que tomar cuidado!
- Hum... pensando bem, odeio homens misteriosos.
Vera ri.
- É, eu também. Gosto de sinceridade, na lata, sempre a verdade. Se duvidar mando até apresentar certidão negativa de antecedentes criminais e de doenças infecto-contagiosas!
- Ai, que horror!
- Que nada, no mundo em que vivemos todo cuidado é pouco. E eu digo e repito, os homens continuam iguais.
Todas ponderam.
- É, de certa forma, analisando bem... hum, é... todos os homens são iguais.
- Claro. Olha, não dá outra, cara muito dengoso, romântico ao extremo, chuchuzinho pra cá, docinho de mamão pra lá, ciumento... é safado! Tá traindo...
- Ah... nem sempre...
- Claro! Lembra do Régis?
- Ah... bem, é...
Todas concordam.
- E também tem o tipo galanteador, pode conferir, se ele exagera na conquista, manda flores, bilhetinhos, te leva a jantares românticos e tem aquela conversa brega de Sidney Magal no começo, pode apostar: quando a rotina chegar, vai ser aquele cara pançudo esparramado no sofá, assistindo jogo no domingo e pedindo cerveja.
Todas caem na gargalhada.
- E o frio?
- Ai, credo! Que ódio de homem frio!
- Gente, parece uma pedra de gelo, pra arrancar um beijo, nem arrancando a roupa!
- E ainda se fizer isso, ele nem pestaneja, tira a roupa também e nada de preliminares!
Todas riem.
- O Felipe dormiu.
- Que bom!
- Alguém quer mais café?
- Ah, eu acho que o que falta aos homens é sensibilidade.
- Taí outra expressão manjada.
- E verdadeira, não?
Todas concordam.
- Isso é! Falta um pouco de sensibilidade para entender a alma feminina. Não sei se sou romântica demais, mas é muito bom ter alguém compreensivo ao seu lado, um homem que parece nos conhecer mais do que a nós mesmas.
- Que delícia, já pensou?
- Quê? Tá bom. Eu tenho um marido assim! O Ronaldo me compreende muito, quando estou de TPM ele dorme no quarto de hóspedes.
Todas riem.
- Se for esse tipo de compreensão te digo que não ajuda em nada, dá na mesma.
- Ela tá falando de compreender nossos sentimentos, respeitar nossos desejos, nossas vontades. Às vezes parece que temos um trator ao nosso lado, pronto para nos atropelar.
- É... acho que homens assim não existem.
- Existem sim... só que a maioria é concorrente!
Todas gargalham.
- Pois acreditem, eu encontrei um dentro da van.
- Sério?
- Sério! Me assustei, meninas! Entro na van, tava voltando da cidade, acho que foi semana passada. Um homem lindo, branco, sobrancelhas grossas, cabelo ondulado, óculos escuros, alto, eu realmente pensei estar vendo um Gianecchini ou um Thiago Lacerda.
- Não poderia ser um Marcos Pasquim?
- Ou um José Mayer?
- Bom, a história é minha, é o meu gosto... Bom, aquele homem lindo sentou ao meu lado. Achei muito incomum, você não encontra esse tipo de homem em lugares comuns, sei lá, achei estranho. Mas o mais estranho é que ele falava, e acreditem, não eram coisas fúteis.
- Ele puxou conversa com você?
- Sim! E não foi nada relacionado ao tempo ou a demora da van em sair do ponto. Ele começou comentando sobre o livro que estava em meu colo, nem me lembro qual, que falava sobre educação.
- O quê? Lindo, com cara de Gianecchini e falando sobre educação?
- Nossa, tá parecendo o ministro!
- Hahá, quem? O Haddad não é bonito.
- O quê? Como não! Que homem!
Todas riram.
- Lá na escola já foi proposto que só o ministro vindo pessoalmente para resolver certos problemas!
Todas gargalharam.
- Mas e então?
- Ah, então, começamos a conversar e tal. Ele, muito espirituoso, entendido de algumas questões humanas. Nossa, tivemos uma ótima conversa.
- Mas e aí? Ele te passou o telefone?
- Ah, não. Quer dizer, eu já estava achando muito estranho e maravilhoso aquele homem tão inteligente conversando comigo, aí entramos numas questões mais humanas, nem sei porquê. Ele começou a falar sobre mulher, que a alma feminina era incompreendida e que as mulheres precisam ser amadas e respeitas.
- Que lindo!
- Que lindo que nada! Aquele papo era só pra me impressionar.
- Será?
- Sim, mulher sabe quando homem tá querendo fazer isso. E outra, ele falou umas coisas tão incríveis que pensei estar conversando com outra mulher. Daí quando ele ofereceu o cartão eu não aceitei.
- Fez muito bem! Homem sensível e compreensivo demais também não dá, né?
vClaro que não! Prefiro os trogloditas que usam luvas de pelica!
Todas gargalharam.
- E já pensou? Um homem que compreende tudo? Você chora e ele te consola dizendo que sabe o que você está passando; você grita e ele faz cara de compreensivo e diz que entende seu nervosismo!
- Ai, que horror!
Todas gargalharam e concordaram que as mulheres não são, por muitas vezes, interpretáveis.

 
Novos Talentos do Conto Brasileiro - Edição Especial - Junho de 2009