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Romulo Jose Ferraz
Cuiabá / MT


Experiências mortais

 


Pois bem, em um outro documentário, disse um pouco de como comecei a encarar o ofício de seringueiro, e como vim com minha família, de Minas Gerais, em 1957, para aventurar e ser proprietário de um pedaço de terra em uma colonização, hoje Porto dos Gaúchos MT.
Mas o dinheiro de meu pai acabou e reunidos em família resolvemos que alguns dos mais velhos teriam que sair àprocura de serviço, mas, serviço nessa época por lá, só tinha duas opções: derrubada de mata com foice e machado, ou seringal. Foi então que eu e meu irmão Paulo decidimos ser seringueiros, e como o seringalista estava contratando gente para ir tirar borracha no seringal...


Fomos contratados como seringueiros, mas para chegar no Seringal foram precisos quatro dias viajando Rio Arinos abaixo, de lancha, até chegar na barra do Rio Arinos e Rio Juruena. O rio Juruena neste ponto tem 2000 metros de largura, é um monstro de rio, mas que poucos lugares se vê sua largura por ter muitas ilhas, e é numa ilha dessas que seria minha morada por oito meses.
O ano era 1959, eu estava apenas com 18 anos, e meu irmão com 16 anos, dois garotos no meio de assassinos e bandidos, pois eram essas as pessoas que enfrentavam esse tipo de serviço.
O barraco era em uma ilha por causa dos índios canoeiros que eram selvagens e só comportava uma pessoa, sendo que o barraco mais próximo tinha três quilômetros de distância. E esse barraco foi minha casa durante oito meses em que fiquei sozinho só com a companhia de meu cachorro. E em oito meses foram diversas as aventuras que vivi nesse inferno verde. Algumas deixaram saudades pois foram episódios de felicidade que marcaram em minha vida, mas, em compensação, tive três aventuras mortais, em que senti que seria o meu fim. A primeira experiência foi quando inseto peçonhento e está em outro conto.


A segunda experiência foi quando me perdi na mata e fiquei quatros dias perdido. Tudo por causa de um jacu que eu derrubei com um tiro, ele caiu no chão e saiu correndo e na ânsia de pegá-lo não reparei direito o rumo, quando me vi estava sem saber que rumo eu tinha que voltar. Meu cachorro, na hora que sai do barraco, tinha corrido atrás de um bicho e eu fui sem ele mesmo. Mais ou menos escolhi um lado e caminhei e não deu certo, de repente eu estava perdido. E onde eu me perdi era um espigão, divisor de água, eu nessa época era só um garoto inexperiente, não conhecia ainda todas as armadilhas das matas. Depois de quebrar cabeça e raciocinar um pouco resolvi, já estava anoitecendo; "eu vou andar em linha reta até encontrar um córrego", e depois de uma hora andando cheguei a um, bebi água, e daí escolhi uma árvore, trepei nela, enrosquei nos galhos e ali passei a noite. No outro dia cedo amarrei o jacu na cinta e fui descendo o córrego, pois na minha mente logo estaria no rio Juruena. Andei o dia inteiro margeando esse córrego e nada de Juruena, anoiteceu, o jacu já tinha jogado fora, estava começando a feder, pois não carregava fogo, cortei com a faca um palmito e comi aí trepei de novo em uma árvore, me enrosquei nos galhos e me amarrei também com cipó, foi então que consegui dormir. No outro dia continuei descendo o córrego que já era um ribeirão de mais ou menos 10 metros. E assim foi até tarde e nada de jJuruena e quando já estava pensando em trepar numa árvore vi o clarão do rio, aí pensei comigo, "agora estou em casa, vou dormir aqui pois já esta anoitecendo e amanhã cedo eu estarei no meu barraco".

Dormi tranquilo, trepado num pau, contente por ter saído no rio, enxergava a outra margem bem pertinho mas lá no Juruena é assim: uma ilha junto com outra. Mas, no outro dia que olhei o rio de perto me assombrei, vi que o rio não era o Juruena, pois a água estava correndo no sentido contrário. Cheguei até a chorar nessa hora, pois o desespero apoderou-se de mim, sentei no chão, depois de desabafar em prantos, pus a cabeça para funcionar, então foi que percebi que no dia que perdi eu estava num espigão divisor de água e na escolha que fiz de sair em algum córrego eu saí em outra bacia de um outro rio grande. Daí pensei, vou continuar descendo rio. N ão fui muito longe e saí numa picada de seringa abandonada, pensei comigo, talvez por ser o final largaram esses pés de seringueiras por aqui sem explorá-las, mas eram os índios que matavam todos os que se aventuravam em tirar borracha naquele rio, fui saber depois que saí. Conclusão: a minha comida era só palmito, e ainda posei mais uma vez na beira desse rio, no outro dia lá pelo meio dia que saí em uma estrada de seringueiro o qual tinha passado por ali nesse dia. Segui a trilha agora bom de andar, e com mais uma hora saí no porto dele, olhei e vi a feitoria dele do outro lado do rio numa ilha, aí comecei a chamar e logo ele respondeu a em seguida veio de canoa até onde eu estava. Ele se assustou de ver o meu estado, pois estava todo rasgado, todo arranhado de espinhos, foi então que contei o que tinha acontecido e ele me disse que eu estava retirado mais de 30 km da onde eu me perdi. Eu imaginava que estava muito para baixo porque nunca tinha ouvido falar desse rio, aí foi que ele me contou que era por causa dos índios que ninguém tirava borracha desse rio, mas que agora que os índios ficaram amigos vão explorar as seringas desse rio. Passei dois dias acampado com esse seringueiro, até que passou uma carona e eu fui para o meu barraco. Muitos não conseguem voltar quando se perdem, às vezes morre de tédio, apavorados, ou onça, cobras, sucuris, jacarés etc, pois quando se costeia um rio tem que atravessar pantanal, e tinha que se virar sozinho porque ninguém sabe o que esta acontecendo com a gente, por morar só. A culpa sempre caía nos índios, pois eram eles que matavam e levavam para comer. É assim que diziam.

 
Novos Talentos do Conto Brasileiro - Edição Especial - Junho de 2009