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Luiz
Carlos Morete
Cornélio
Procópio / PR
O
folgado
Ele só não era mais folgado por falta de espaço.
Era daqueles que gostava de levar vantagem em tudo, o que só
favorecesse a ele. Quanto aos outros eram só detalhes que nem
mereciam sua preocupação.
- Olá gente? Tudo bem aí? - dizia Roberlei ao chegar
ao barzinho, puxar uma cadeira e ir sentando-se na maior tranquilidade.
Que temos aí? Olha só: torresminho, frango a passarinho,
queijinho e cervejinha. Garçom, traz um copo!
Os outros que estavam na mesa se olhavam e ficavam se mordendo de
raiva. O que acontecia era o seguinte. Roberlei gostava de se aproveitar
de toda situação e pior que isso, de graça. Não
mexia no bolso para tirar um centavo. E não era só nessas
simples reuniõezinhas de amigos: aniversários, confraternizações,
encontros. Entrava com a maior cara-de-pau e nem se envergonhava.
Voltemos ao barzinho.
Depois de se "alimentar" na maior fartura, antes da conta
chegar, ele já se despedia.
- Bom, amigos, a coisa tava boa mas tenho compromisso. Sinto muito
em não poder ficar, mas tenho que ir indo. Tchau! - e ia mesmo.
Era sempre assim. Mas chegou em um ponto que a turma não estava
aguentando mais. Não podiam sair para jogar uma conversa fora,
que lá vinha o Roberlei na maior folga.
- Gente, a coisa não pode continuar assim. Temos que dar uma
lição no Roberlei para ver se ele aprende. Tem de aprender.
O cara é "mala"!
- Mas não podemos esquecer que ele é o filho do patrão.
- Por isso mesmo. - disse Rogério.
- Tenho uma idéia! - falou Paulo. Vamos ver se vocês
concordam.
- Concordamos com qualquer coisa! - disseram ao mesmo tempo os demais.
- Olha, é o seguinte. O mês que vem é aniversário
do Márcio. Vamos fazer uma festinha e a idéia é
fazer com que o Roberlei pague a conta sozinho.
- Mas vamos convidar o "mala"?
- Claro. No próximo encontro, aqui, vou trazer um gravador
de bolso e vamos obter uma promessa de que ele vai pagar a conta,
sem ele ficar sabendo. Vamos combinar com o dono do bar que se ele
não quiser pagar a conta vai ter de pagar em serviços,
como lavar pratos e atender os clientes. Combinado?
Todo mundo concordou.
Sexta-feira. Dia nacional da cerveja. Os amigos novamente se encontraram
no barzinho. A certa altura da conversa eis que aparece Roberlei,
com o mesmo papo de sempre. Puxou a cadeira e lá vai ele!
- Roberlei, é o seguinte. Mês que vem é o aniversário
do Márcio. Estamos programando uma festinha e gostaríamos
que você comparecesse. É uma festa surpresa. Mas você
teria que nos ajudar nas despesas. Concorda?
- Claro! Amigo é para essas coisas. - disse ele, indo direto
nos beliscos.
- Concorda? - perguntaram surpresos os outros.
- Com tudo que vocês quiserem. Podem combinar!
- Não vai ser uma festinha barata. Assim mesmo você concorda?
- Já disse que sim! Vamos fazer o seguinte: deixa por minha
conta.
Todos se surpreenderam. Mas o gravador estava funcionando sem ele
perceber.
"Deixa por minha conta" - pensou Roberlei. "Vou dar
um jeito de ser de graça. Para mim, é claro".
Tudo combinado, os amigos se despediram e marcaram novo encontro.
E iam ter de aguentar Roberlei até o aniversário.
Chegou o aniversário e o que temiam aconteceu. Roberlei nem
deu a cara. Desculpou-se dizendo que estava doente e que precisava
ir ao médico. Mas os demais nem se preocuparam. Estavam com
a promessa feita por Roberlei devidamente gravadas.
A festa foi até altas horas. Regada o uísque, vinho,
cerveja e tudo a que tinha direito. A conta ficou meio salgada e agora
era ver se o plano dava certo.
Por alguns dias Roberlei não deu sinal de vida. Mas quando
chegou a sexta-feira...
- Tudo bem amigos? Que beleza de mesa essa! Garçom, traz um
copo!
- Não quis vir à festa do Márcio, Roberlei?-
perguntou Paulo.
- Sabe como é. Tive que ir ao médico e depois outros
compromissos me impediram de comparecer. Foi uma pena. Mas fica para
a próxima.
Nisso se aproximou ou dono do bar, o Sebastião, e falou para
o Roberlei.
- A conta da festa, Roberlei. Falaram que você é que
iria pagar. Deu esse valor. Como você vai acertar? Com dinheiro
ou cartão?
Roberlei ficou branco, mas falou:
- Como pagar? Se nem participei? - retrucou.
- Mas você nos falou que iria pagar a conta, na frente de todos
nós.
- Eu não falei nada! Se eu falei, prove! - desafiou Roberlei.
Paulo tirou um pequeno gravado e o ligou. Estava tudo ali.
- Mas que m...! - disse o folgado.
- Agora nós vamos indo embora. Você se acerte com o Tião!
O dono do bar ficou olhando para o Roberlei e disse:
- Como é que fica? Estou esperando! - cobrou o dono do bar.
- Sacanagem!
A contragosto tirou o cartão e passou para o Sebastião:
- Faz em seis vezes? - perguntou.
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