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Antologia
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O maestro e a solidão
Em uma noite Sr
Sebastião, pai de João, chegou chorando e reunindo a
família dizendo Amanhecendo, João, com seus nove anos, foi até a casinha onde Alice morava e começou a tocar sua gaitinha. Ela então como de costume, abriu a janela, sorriu e foi falar com seu amor. João, soluçando aos prantos, contou que iria embora. Os dois se lamentaram chorando a dor da despedida. Com a natureza como testemunha, juraram amor eterno. Passaria o tempo que fosse, onde quer que eles estejam o amor seria o mesmo. Com lágrimas rolando eles se despediram. A família de João partiu com o romper da aurora. Foram para um vilarejo perto dali, mudando sucessivamente, até chegar à capital, onde Sr Sebastião arrumou emprego em uma construtora. João, até seus doze anos, manteve contato com Alice por cartas, depois disso, não teve mais notícias. No tempo de colégio várias meninas se interessavam por ele, que por sinal era muito bonito, um lindo menino de média estatura, cabelos negros e olhos verdes. Na adolescência não foi diferente, sempre fazendo sucesso com as moças que conhecia, mas fiel àquela tão doce e meiga menininha que ele amava. Voltara por aquelas bandas para encontrar Alice, mas foi em vão. Procurou por vários lugares, mas ninguém sabia do paradeiro daquela família.
Depois de muita fama e dinheiro, aos trinta e nove anos, João resolveu voltar para junto de seus pais, que residiam em uma magnífica mansão no melhor bairro de São Paulo, comprada por ele. Dona Maria e Sr Sebastião, toda vez que falavam do filho, se desmanchavam de alegria. Só ficavam tristes, por ele viver tão solitário. Com sua chegada, deram uma luxuosa festa, onde reuniram amigos e familiares para comemorar seu retorno ao Brasil. Durante a noite muita coisa aconteceu, pessoas elegantes, e a comida era de primeira qualidade. João como sempre, estava impecável e com seu ar sedutor e misterioso era o foco das atenções. Aproximou-se do piano e tocou melodias fabulosas. No fim da noite, João deslumbrado com a comida, disse que queria ver as mãos de fada que haviam a preparado. Foi até a cozinha e quando olhou dentro dos olhos daquela cozinheira sentiu uma coisa mágica em seu interior. Parecia até que conhecia aquela mulher de algum lugar e para seu espanto, quando foi abraçá-la, viu que tinha no pescoço, uma pintinha, bem redondinha com um risquinho comprido no meio que a cortava. Marquinha tão pequena, mas que aos olhos de João se tornaram a coisa mais preciosa durante todos aqueles anos desde que deixou a fazenda. Naquele momento, João abraçou forte àquela mulher e começou a chorar. Quando conseguiu falar, olhou dentro dos olhos dela e disse: "O tempo passou e aqui estou meu amor. Aquele sentimento lá da fazenda continua o mesmo. Minha alma esperava a sua e meu coração, sempre bateu por você. Sou eu minha menininha, seu eterno e apaixonado João". Desesperadamente Alice, começou a chorar abraçando seu amado com todas as suas forças. Abraçavam-se e deixavam seus sentimentos de amor e felicidade transcenderem a todos ali presentes. Era algo que estava guardado nos corações daquelas duas crianças. Após o reencontro, falaram de suas vidas e sentiram que o amor, mesmo com o passar dos anos, continuava o mesmo. Cada palavra pronunciada, gesto, olhar, toque, enfim, cada sentimento expressava tudo. Não demorou muito tempo e João pediu Alice em casamento. Disse que eles já estavam atrasados por trinta anos e que não poderiam perder mais tempo. Foi uma cerimônia encantadora. Um amor que esperou trinta anos para se concretizar. Foram para Europa. Quando retornaram de viagem, João que havia se tornado maestro titular de uma finíssima orquestra da capital, tomou sua posição e sempre que se apresentava, tinha os aplausos de Alice na primeira fila. O sonho de criança era a realidade na vida daqueles dois. Após dois anos de casados, Alice sente fortes dores na cabeça, e resolve consultar um médico que diagnosticou um tumor sem cura, localizado em uma área nobre do cérebro e que teria tardar seis meses de vida. Sem saber o que fazer e com muito choro e desespero decidiram buscar recurso no exterior, mas não obtiveram êxito. Então, aproveitaram ao máximo o tempo que restara e saíram de viagem por vários locais conhecendo coisas que até mesmo João que era tão viajado não conhecia. Como a morte chega sem ter dó e leva quem se ama. Alice, para o desespero de João, parte, deixando-o ali sem rumo. Sem razões para viver e sem motivos para esperar aquela tão doce e meiga menininha que ele tanto amava. Ficou três anos sob o uso de medicamentos e encontrou na música a homeopatia para a mente, que o fez reerguer. Hoje, aos setenta e dois anos, João ainda é o maestro regente daquela orquestra, mas não com aquela alegria esperançosa estampada no rosto que ele tinha. E sim, triste e amargurado por ter perdido seu eterno e grande amor. A menininha. Continuou sendo fiel a ela e até hoje vive sozinho pelos corredores daquele teatro. |
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Novos Talentos do Conto Brasileiro - Edição Especial
- Junho de 2009 |