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Pedro
Marcílio Albuquerque de Castro
Solonópole
/ CE
Triste
despedida
Ele acordou cedo, como de costume, e tomou seu demorado banho quente.
Vestiu-se apressadamente e desceu até a cozinha para tomar
seu café da manhã. Lá embaixo, encontrou as torradas
com queijo fatiado e ovos mexidos já à sua espera. Enquanto
as degustava, passou uma rápida vista no caderno de esportes
e alegrou-se com a cogitação de uma possível
negociação envolvendo um famoso jogador e seu clube
de coração.
Estamos mesmo precisando de reforços.
Deixou a mesa, pegou as chaves do carro sobre a geladeira e foi até
o quarto da filha. Encontrou-a alegre e sorridente, sentada no colo
da mãe, sobre a cama. Fazia planos para o fim de semana, que
se aproximava, enquanto sua mãe desembaraçava seus cabelos.
- Estou saindo... - disse ele da porta. Depois, aproximou-se e despediu-se
rapidamente das duas, com um leve beijo em suas cabeças. Em
seguida, dirigiu-se para o trabalho.
No fim da tarde, após mais um cansativo e estressante dia de
trabalho, na volta para casa, enfrentou o pesado trânsito daquela
metrópole. Apesar de fazer parte de sua rotina diária,
o congestionamento daquele fim de tarde e início de noite estava
ainda mais vagaroso. Nem mesmo no inverno, quando as avenidas ficam
completamente alagadas por causa da chuva, demorava-se assim. Deveria
de ter acontecido algo: algum atropelamento ou abalroamento.
Buzinas e palavrões voavam do lado de fora de seu carro, e
isso o deixava irritado. Para fugir a este drama, ligou o rádio
FM de seu automóvel e tentou encontrar uma música que
o distraísse. Todavia, nem uma estação o agradou.
Decidiu mudar para as estações AM, à procura
de algum noticiário.
Quem sabe, alguém não explica a causa desse congestionamento
caótico de hoje.
Estava certo.
Na primeira estação sintonizada, uma voz grossa e pausada
noticiava um trágico acidente, acontecido a um ou dois quilômetros
dali, envolvendo mais uma vez um motorista alcoolizado, que havia
avançado com sua caminhoneta uma preferencial e colhido em
cheio um veículo de passeio, vitimando suas duas passageiras
- mãe e filha.
Que coisa triste, meu Deus.
Logo em seguida, seu celular toca. Do outro lado da linha alguém
o avisa de que sua esposa e filha sofreram um acidente e que estão
feridas em um hospital ali próximo. Ele fica aflito. Tenta
arrancar mais informações, mas a pessoa do outro lado
da linha não lhe diz mais nada, além do necessário
- nome e endereço do hospital em que as duas se encontram.
Sua aflição aumenta. Não sabe como elas estão,
e nem mesmo o que aconteceu. Teme que estejam muito feridas, que corram
risco de vida.
O trânsito não anda.
Ele então se desespera.
Desce do carro, atravessa o canteiro central e se dirige para a pista
do outro lado, onde os veículos trafegam no sentido contrário,
e o trânsito flui com grande mobilidade. Pega um táxi
e manda o motorista seguir rápido para o hospital em que sua
esposa e filha estão. Não é muito longe dali,
e em poucos minutos estariam lá.
Dentro do carro, o desespero aumenta à medida que se aproximam
do hospital. Tenta imaginar o estado de saúde de sua esposa
e filha, e o que poderia ter acontecido com elas. Lembra da notícia
no rádio, da coincidência (mãe e filha), mas a
refuta de seus pensamentos. Elas nunca andam por aquela parte da cidade,
a não ser quando resolvem visitar uma tia de sua esposa, o
que nunca acontece com frequência.
Não pode ser. Elas a visitaram semana passada; passarão
mais de mês para visitá-la novamente. É apenas
uma grande coincidência. Elas estarão bem...
Tenta encontrar maiores informações através do
celular, mas ninguém o ajuda - sabem apenas o mesmo que ele
(ou pelo menos assim o dizem), e nada mais. Na verdade, estão
ambas mortas, mas ninguém quer lhe dar a notícia por
telefone.
Ele chega ao hospital.
Reconhece seu pai, visivelmente transtornado, e sua irmã num
recanto segurando sua mãe, que chora copiosamente. Sua visão
escurece, mas antes de perdê-la completamente ele associa uma
coisa a outra: a mãe e filha da estação de rádio
AM são sua esposa e filha - elas novamente visitaram a tia
de sua esposa, saberia ele mais tarde, para levar-lhe uns medicamentos
qualquer.
Desespero.
Algum tempo depois.
Sentado sozinho em seu quarto, ele aponta para sua cabeça o
Taurus prateado que comprou na semana anterior, numa "feirinha"
próxima a sua casa. Há muito tempo vem pensando em suicídio,
mas apesar de sua insuportável dor, ele não tem a coragem
necessária para puxar o gatilho.
Sua vida não tem mais qualquer sentido. A única coisa
que lhe restou foi a última lembrança que tem delas:
a rápida despedida na manhã do acidente, no quarto de
sua filha. Ainda pode vê-la sentada no colo da mãe, com
os cabelos molhados, sendo desembaraçados por ela, enquanto
planejava algo para aquele final de semana. Lembra que estava atrasado
para o trabalho, e por isso mesmo não teve tempo de ouvi-la
direito, e nem mesmo despedir-se de uma maneira mais calorosa. Embora
não pudesse imaginar que aquela era a última vez que
as via, sentia-se imensamente culpado por não as colocar à
frente de seu trabalho, e de quaisquer outras coisas em sua vida.
Meu Deus, como isso dói. Daria minha vida por apenas mais cinco
minutos com elas. Para dizer-lhes o quanto eu as amava e que elas
eram as coisas mais importantes de minha vida.. .
Era tarde. Permitiu que seu trabalho, o futebol na TV e outras coisas
mais fossem sempre mais urgentes.... Agora elas já se foram,
e não há nada mais que possa fazer.
Ele chora um choro amargo e sem lágrimas - ele já não
as tem mais.
Gostaria tanto que elas estivessem aqui... - suplica, enquanto encosta
a ponta do Taurus em seu ouvido direito.
Mas elas não estavam. E jamais estariam novamente.
Por fim, ele finalmente puxa o gatilho.
Como nessa história, estamos demasiado preocupados com nossos
trabalhos e afazeres diários que, geralmente, esquecemos as
coisas que realmente importam nesta vida. Não atentamos para
isso porque as dificuldades da vida obrigam-nos a trabalhar e a correr
cada vez mais. E somente quando acontecem tragédias como a
descrita acima, é que nos apercebemos do tempo que perdemos
e do quão errado estamos, com relação àquilo
que priorizamos.
Mas ainda há tempo...
Por mais mórbido que possa parecer, procurarei a partir de
hoje, sempre que for viajar ou mesmo sair para o trabalho, despedir-me
das pessoas que amo com mais amor e ternura - em silêncio e
sem muito alarde, é claro, para não assustar ninguém
-, não me esquecendo de dizer-lhes o quanto eu as amo, e o
quanto representam para mim (...), porque pode muito bem ser a última
vez que eu as vejo. Tentarei conscientizar-me de que a vida é
curta e incerta. Não quero, a exemplo do personagem da história
acima, arrepender-me de não ter me despedido das pessoas que
amo como deveria, e tampouco de lhes demonstrar o quão importantes
são para minha vida.
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