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Elizabeth
Maria Chemin Bodanese
Pato
Branco / PR
Mamãe, cadê você?
Manhã fria do inverno de 2001. A fumaça saía
pela chaminé. Pensei da fumaça fazer uma escada e subir
lá no céu. Papai arava a terra para a plantação.
Mamãe e eu jogávamos milho às galinhas que contentes
corriam em nossa direção. Vivíamos felizes nesse
lugar porque era o sítio que papai havia conseguido comprar
depois de muito trabalhar como pedreiro na cidade grande. O sítio
era em um cantinho do Paraná, perto do rio Iguaçu, o
rio das muitas histórias como a de Naipi e Tarobá.
Depois de alimentar os animaizinhos, mamãe fazia os serviços
da casa e quando sobrava um tempinho, amarrava-me num pano em suas
costas e lá íamos eu e ela, cantando, ajudar papai.
Há dias, um rapaz, de mais ou menos uns quinze anos, rondava
a nossa casa. Durante o dia passava beirando o mato que circulava
o nosso pedacinho de terra! Olhava e desaparecia. Isso deixou papai
e mamãe apreensivos.
O asfalto para irmos até a cidade ficava longe do sítio.
Papai estranhou a atitude do garoto, mas não deu muita importância
ao fato. Imaginou ser algum moleque fugindo das obrigações,
até que, não sei por que motivo, quando nos preparávamos
para almoçar, entrou em nosso lar aquele ser com os olhos esbugalhados,
pedindo dinheiro. E meu pai não tinha dinheiro...
Eu, no colo da minha mãe, senti o vento frio ao sermos jogados
para fora da porta da casa. Em seguida, após levar um tiro
no braço, meu pai foi empurrado com o cano de uma espingarda
até nós. Fomos tocados até a mata. Fugir? Como?
Mamãe me apertava em seu colo quando outro tiro fez os animaizinhos
gritarem também.
Fiquei com mais medo... Mamãe correu... Foi agarrada. Apanhou
até cair no chão. Eu caí com ela. Mamãe
gritava o meu nome. Dizia soluçando que me amava quando papai
todo ensangüentado, agarrou o garoto armado. Foi nesse instante
que outro tiro atravessou o corpo de papai e me machucou também.
Chamei por ele e ele não me ouviu. Mamãe gritou e chorou.
Outra bala na cabeça dela a fez tombar ao lado do meu pai.
Agarrei-me nela quando um pontapé muito forte quebrou minha
perna. Doeu demais... Depois de arrancar nossas roupas, cuspir no
meu rosto, um olhar de prazer e uma saída rápida fez
aquele monstro desaparecer como uma sombra.
Por três dias e três noites chamei mamãe. Ela,
mesmo com os olhos abertos não se mexeu... Por que mãezinha?
Uma criança de dois anos não é gente grande.
Criança de dois anos precisa dos cuidados da mãe. Eu
queria mamadeira. Podia até ser água com açúcar
como você fazia quando não havia leite.
Ninguém apareceu. Socorro não havia. Poucas vezes um
vivente vinha ao sítio para comprar ovos, feijão novinho.
Eu estava cansado... Tinha medo... Minha perninha estava quebrada.
Por isso fiquei ali deitado no colo da minha mãe. No seu rosto
fazia carinho. Uma mão na mamãe; a outra, segurava papai.
Mamãe... Mamãezinha... Por que estava tão gelada?
Por que não abria os olhos? E aquele sangue? Ah mamãe,
eu me sentia tão sozinho... Mamãe, mamãezinha...
De repente, eu quis dormir um pouquinho... Parecia tonto. As árvores
balançavam tão forte! Tudo ficou escuro e frio... Mas
eu tinha papai e mamãe ali comigo. Assim eu dormi e não
quis mais acordar porque era muito ruim ficar acordado.
O que aconteceu a mim, não gostaria que acontecesse a outras
crianças. Eu queria ter vivido mais tempo. Subir em árvores,
tomar banho no rio, brincar. No entanto, onde estou não vejo
e nem sinto mais papai e nem mamãe. Sou triste. Estou perdido...
Tenho a sensação de estar paralisado embaixo de uma
pedra fria... Muito fria...
Mamãe, cadê você?
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