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Ismar Carpenter Becker
Rio de Janeiro / RJ


A guerra das maçãs

 


Ouvi dizer que numa pacata escola da Terra dos Papagaios, onde dóceis alunos estudavam e, quando chegavam à referida unidade escolar, guardavam seus pertences, mísseis e granadas nos escaninhos reservados a este tipo de material auxiliar à educação, utilizados depois por esses pupilos da nação papagaiense.
Num belo dia, no refeitório cheio de barriginhas roncando, ansiosos por se alimentar, cujo cardápio era angu com carne de baleia, os alunos resolveram pegar a sobremesa, que naquele dia era maçã, e começaram uma guerra; a fruta cruzava o refeitório zunindo, alguns se abaixavam e outros revidavam; uma merendeira levou com o fruto proibido nos pulmões, ficou roxa sem ar, chegou a jogar açúcar em de vez de sal no feijão.
A guerra frutífera continuava, as maçãs explodiam nas paredes já amareladas pelo tempo; uma professora franzina levou com a fruta na canela e chegou a pegar uma licença médica, até hoje manca, e passou a ter o maldoso apelido de "deixa que eu chuto". As maçãs continuavam a cruzar o recinto; um professor tentou acabar com a guerra, mas não teve sucesso; o outro mestre se esquivava do ataque igual a cena do filme "Matrix", pois era ágil, magro devido a ser macrobiótico; já um outro levou com uma maçã na nuca, ficou vermelho e gritou, "temos que tomar uma providência".
Mas a batalha continuava, agora no pátio, onde o restante dos alunos catavam os restos das frutas como munição e arremessavam a esmo; com isso alguém gritou: "chamem a guarda municipal papagaiense!", mas ela estava ocupada com a desordem urbana.
A guerra durou meia hora, os frutos cruzavam o recinto como mísseis pareciam meteoros perfumados, enquanto alguns gritavam "viva Adão e Eva!", referindo-se à Bíblia, e agradeciam por ter sido os inventores desta arma bélica comestível. Enquanto isso, a diretora tentou acabar com o conflito frutífero; sem sucesso, levou com uma maçã na batata da perna, e nem se preocupou nem em fazer tatuagem, pois a marca ficou.
A guerra, finalmente, terminou, o pátio ficou coalhado de restos da fruta, o cheiro perfumado invadia as narinas, os alunos voltaram para a sala de aula ao som de um rap cujo título era "meu reino por uma maçã", composto por Mc Perereca. No dia seguinte, tentaram reeditar a guerra com tangerina, num outro dia banana, e mais à frente com melancia, mas a direção tomou providência, as frutas foram suspensas temporariamente para o bem da agricultura, e foram substituídas por suco de capim colonião, mais fácil para a digestão dos alunos, futuro da globalização.
A Al-Qaeda ficou sabendo da guerra das maçãs e vem às terras papagaienses para recrutar estes alunos para lutarem pela causa no Afeganistão; também o COB os quer nas olímpiadas do município de Senador Bagdá, em 2018, onde bombinhas de São João já foram abolidas há muito tempo; usa-se hoje granadas de fragmentação, bazucas e metralhadoras nas comemorações juninas, são mais eficazes. E a educação, à base de tudo,continua desacreditada.

 
Novos Talentos do Conto Brasileiro - Edição Especial - Junho de 2009