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Julio
Cesar Novaes Ferreira
Pindamonhangaba
/ SP
Causo
assustador
Numa certa cidade do sul de Minas Gerais que ficava no meio da Serra
da Mantiqueira, anos atrás a mata em volta ainda era exuberante
e pouco explorada. Muitos sítios e fazendas possuíam
imensas extensões de terra cobertas por ela. Muitas estórias
se ouviam falar sobre elas, como a presença de onças
e macacos diversos. Havia toda uma lenda em volta disto: que ninguém
poderia se adentrar nela, pois seria atacado ou coisa pior...
... A fazenda de um dos tios do Juliano, o Bebém, que tinha
o nome de Juvenal, ficava num dos locais mais altos na redondeza e,
como todas as outras, era circundada pela tal mata, fazendo divisa
com as terras de outra fazenda, a dos Coqueiros.
O dia estava claro naquela manhã de sábado na fazenda
do Bebém (Juvenal), onde o Juliano e o irmão foram com
as primas passar o final de semana. Foram para lá na sexta
à tarde, depois da escola. A viagem levou cerca de uma hora
e meia na carroceria de um caminhão que ia para aquelas "bandas".
Quando chegaram, já estava anoitecendo. Uma brisa suave vinha
do vale logo abaixo, começava-se a formar pequenas nuvens de
neblina e um friozinho agradável se fazia presente. O caminhão
os deixou na estrada junto à porteira da fazenda, mas daquele
ponto até a sede ainda tinha uns 3000 metros que deveriam ser
feitos a pé.
A noite ia chegando e o crepúsculo insistia em não deixar
escurecer. Isto era, de certo modo, muito bom, pois a caminhada seria
mais difícil no escuro. Mas logo no horizonte surge bela e
com cor de fogo, em meio ainda a pequenas nuvens de neblina, a lua
cheia predizendo uma noite clara. Aquela imensidão de árvores
ao redor deixava em tudo uma sensação de tranqüilidade
e paz! A felicidade das crianças estava estampada em seus rostos.
Os sons vindos do mato eram sinfonia nos ouvidos delas, até
que o tio resolveu contar uma estória mirabolante...
Ele começou a dizer que por ali viveu, há muito tempo
atrás, um certo capitão que foi condenado à morte
injustamente. Ele fora decapitado e sua alma nunca descansou em paz.
Sempre se locomovia pela região em cima de um enorme cavalo
branco que, depois de sua morte, desapareceu. Mas dizia-se que todas
as noites este mesmo cavalo voltava a fim de buscar o seu patrão
para fazer as cavalgadas de que ele gostava... E quando a lua estava
cheia, como naquela noite, mais eles apareciam. Aquela estória
realmente não caiu bem nas cabeças das crianças...
Antes estavam andando dispersas pelo caminho, mas à medida
que o tio falava, elas se juntavam em silêncio ao redor dele,
cada vez mais e mais... Os sons agora viraram um flagelo nos ouvidos...
Parecia que tudo estava condizendo com a estória! Os sons dos
grilos viraram gritos de horror, a brisa começou a soprar mais
forte, parecendo que a lua queria se esconder também... E foi
nesta situação que, de repente, surge à frente
deles um som de cavalos! Os gritos foram inevitáveis: os quatro
começaram a se esconder atrás das pernas do tio! O menor
se pôs a chorar! E quando os cavalos chegaram perto para que
eles pudessem ver, o tio se desmanchou em gargalhadas!... O cavaleiro
era o empregado dele que vinha ao seu encontro, puxando mais dois
cavalos para que pudessem levá-los até a sede da fazenda.
Foi trabalhoso fazer com que as crianças ficassem calmas! O
tio e o empregado tiveram que repetir por várias vezes que
tudo era uma brincadeira, que nada daquilo dito por ele era verdade!...
Mas, na ingenuidade de cada um, não parecia que fosse. Só
ficaram mais à vontade quando chegaram à sede. E quando
a esposa do Juvenal, a dona Cida, soube do acontecido, ficou uma "arara"
com ele: "- Imagine só,. contar isso para as crianças!"
- ela repetia com severidade. Mas o assunto da noite, após
o jantar, começou a ter rumos parecidos. O tio começou
a falar de um certo escravo que vivia ali há muito tempo atrás.
Ele tomava conta de tudo e de todos, era enorme e muito forte, não
havia o que pudesse com ele! Qualquer tipo de intruso na fazenda era
logo despachado, pois todos tinham medo dele. E que, num dia de chuva
muito forte, muitos relâmpagos caíam por toda parte.
Os senhores da casa e suas filhas estavam apavorados! Então,
o escravo se pôs no meio do terreiro e começou a gritar
para que Deus parasse de atormentar os seus patrões, parecendo
disposto a enfrentar até os raios para defender a família.
Num dado momento, um derradeiro raio o atingiu em cheio, sendo ele
totalmente queimado... Não sobrou nada do imenso homem, mas,
depois daquele enorme barulho, a chuva começou a acalmar. Os
raios cessaram e logo tudo passou... Disse ainda que, até aquele
dia, o escravo fiel tomava conta da casa e de todos que ali viviam.
Ele estava sempre por perto espantando tudo o que era ruim. Depois
de mais aquela estória, as crianças foram dormir todas
juntas na mesma cama...
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