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Julio Cesar Novaes Ferreira
Pindamonhangaba / SP


Causo assustador

 


Numa certa cidade do sul de Minas Gerais que ficava no meio da Serra da Mantiqueira, anos atrás a mata em volta ainda era exuberante e pouco explorada. Muitos sítios e fazendas possuíam imensas extensões de terra cobertas por ela. Muitas estórias se ouviam falar sobre elas, como a presença de onças e macacos diversos. Havia toda uma lenda em volta disto: que ninguém poderia se adentrar nela, pois seria atacado ou coisa pior...

... A fazenda de um dos tios do Juliano, o Bebém, que tinha o nome de Juvenal, ficava num dos locais mais altos na redondeza e, como todas as outras, era circundada pela tal mata, fazendo divisa com as terras de outra fazenda, a dos Coqueiros.

O dia estava claro naquela manhã de sábado na fazenda do Bebém (Juvenal), onde o Juliano e o irmão foram com as primas passar o final de semana. Foram para lá na sexta à tarde, depois da escola. A viagem levou cerca de uma hora e meia na carroceria de um caminhão que ia para aquelas "bandas". Quando chegaram, já estava anoitecendo. Uma brisa suave vinha do vale logo abaixo, começava-se a formar pequenas nuvens de neblina e um friozinho agradável se fazia presente. O caminhão os deixou na estrada junto à porteira da fazenda, mas daquele ponto até a sede ainda tinha uns 3000 metros que deveriam ser feitos a pé.

A noite ia chegando e o crepúsculo insistia em não deixar escurecer. Isto era, de certo modo, muito bom, pois a caminhada seria mais difícil no escuro. Mas logo no horizonte surge bela e com cor de fogo, em meio ainda a pequenas nuvens de neblina, a lua cheia predizendo uma noite clara. Aquela imensidão de árvores ao redor deixava em tudo uma sensação de tranqüilidade e paz! A felicidade das crianças estava estampada em seus rostos. Os sons vindos do mato eram sinfonia nos ouvidos delas, até que o tio resolveu contar uma estória mirabolante...

Ele começou a dizer que por ali viveu, há muito tempo atrás, um certo capitão que foi condenado à morte injustamente. Ele fora decapitado e sua alma nunca descansou em paz. Sempre se locomovia pela região em cima de um enorme cavalo branco que, depois de sua morte, desapareceu. Mas dizia-se que todas as noites este mesmo cavalo voltava a fim de buscar o seu patrão para fazer as cavalgadas de que ele gostava... E quando a lua estava cheia, como naquela noite, mais eles apareciam. Aquela estória realmente não caiu bem nas cabeças das crianças... Antes estavam andando dispersas pelo caminho, mas à medida que o tio falava, elas se juntavam em silêncio ao redor dele, cada vez mais e mais... Os sons agora viraram um flagelo nos ouvidos... Parecia que tudo estava condizendo com a estória! Os sons dos grilos viraram gritos de horror, a brisa começou a soprar mais forte, parecendo que a lua queria se esconder também... E foi nesta situação que, de repente, surge à frente deles um som de cavalos! Os gritos foram inevitáveis: os quatro começaram a se esconder atrás das pernas do tio! O menor se pôs a chorar! E quando os cavalos chegaram perto para que eles pudessem ver, o tio se desmanchou em gargalhadas!... O cavaleiro era o empregado dele que vinha ao seu encontro, puxando mais dois cavalos para que pudessem levá-los até a sede da fazenda. Foi trabalhoso fazer com que as crianças ficassem calmas! O tio e o empregado tiveram que repetir por várias vezes que tudo era uma brincadeira, que nada daquilo dito por ele era verdade!... Mas, na ingenuidade de cada um, não parecia que fosse. Só ficaram mais à vontade quando chegaram à sede. E quando a esposa do Juvenal, a dona Cida, soube do acontecido, ficou uma "arara" com ele: "- Imagine só,. contar isso para as crianças!" - ela repetia com severidade. Mas o assunto da noite, após o jantar, começou a ter rumos parecidos. O tio começou a falar de um certo escravo que vivia ali há muito tempo atrás. Ele tomava conta de tudo e de todos, era enorme e muito forte, não havia o que pudesse com ele! Qualquer tipo de intruso na fazenda era logo despachado, pois todos tinham medo dele. E que, num dia de chuva muito forte, muitos relâmpagos caíam por toda parte. Os senhores da casa e suas filhas estavam apavorados! Então, o escravo se pôs no meio do terreiro e começou a gritar para que Deus parasse de atormentar os seus patrões, parecendo disposto a enfrentar até os raios para defender a família. Num dado momento, um derradeiro raio o atingiu em cheio, sendo ele totalmente queimado... Não sobrou nada do imenso homem, mas, depois daquele enorme barulho, a chuva começou a acalmar. Os raios cessaram e logo tudo passou... Disse ainda que, até aquele dia, o escravo fiel tomava conta da casa e de todos que ali viviam. Ele estava sempre por perto espantando tudo o que era ruim. Depois de mais aquela estória, as crianças foram dormir todas juntas na mesma cama...

 
Novos Talentos do Conto Brasileiro - Edição Especial - Junho de 2009