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Antologia
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Balé das cinzas
Haa! Se eu pudesse, como dono do tempo, me auto controlar. Se fosse possível parar o meu ciclo e penetrar na vida daqueles que me quiseram tão bem, juro que pararia. Juro também, aqui e agora que, se tivesse podido, teria deixado aquele casal viver junto por mais vinte anos, quem sabe até mesmo por toda uma exuberante eternidade. Mas não, amigo leitor. Você sabe, tanto quanto eu, que sou fluxo contínuo, que passo nas horas certas e nas erradas e que, sem muita escolha, carrego tudo que existe comigo. Não paro, por nada e por ninguém. O máximo que consigo fazer, quando assim me permitem, é adiar meus minutos. Foi o que fiz, ou melhor, foi o que tentei fazer com aquele casal que lá, no hospital de Paris, na França, se despedia para todo o terráqueo sempre. Confesso que, normalmente, não costumo ficar a espreita tentando, de alguma forma, ouvir conversas alheias. Mas naquele dia, sinceramente, não resisti. Tentei me agarrar a cada sílaba pronunciada, cada expressão lançada ao ar e a cada profundo olhar daquele casal. Queria estar interado do assunto e saber qual seria o término daquela história. E mesmo que as palavras não tivessem mais forças de atravessarem a barreira do espaço, impedidas de assim o fazerem devido aquele pulmão canceroso, que insistia em querer tirar a vida das "cinzas futuras", sei que elas chegaram ao seu destino final, o coração de Aluísio. E isso, amigo leitor, isso eu definitivamente tenho certeza. E foi exatamente no momento em que tive essa certeza, que a morte entrou linda e levemente pela ala hospital número 3, no quarto 710, onde todos nós nos encontrávamos. Sempre pensei que somente eu podia vê-la adentrar e carregar vidas consigo. Mas não, aquele dia, aprendi que essa não era uma regra, pois Aluísio e as "futuras cinzas" também a viram adentrar no quarto. E a verdade é que, aquele que quer enxergar, tudo enxerga. Não sei, mas talvez seja por isso que eles também a tenham visto. Fiquei preocupado com a presença da morte. Achei, por um instante, que ela causaria um alvoroço. Que haveria, mais uma vez, gritos de desespero. Que haveria uma nova guerra, de vida, traçada naquele local. Pensei que o sangue escorreria pela boca das "cinzas", que Aluísio mais uma vez se descontrolaria e que, mais uma vez, a enfermaria entraria em ação, tentando apaziguar todos os ânimos, inclusive o da morte. Mas não. Naquele dia, isso não aconteceu. Pelo contrário, todos, daquele quarto, já aguardavam o comparecimento da mesma. E assim, bem como quem veio fazer uma saudosa visita, é que ela foi adentrando no recinto. Após sua chegada, a morte se comportou como uma verdadeira dama. E, de forma completamente educada, harmoniosa e gentil, iniciou seu trabalho. Não se via sorrisos em sua face, porém, ela também não estava triste em executar a função que lhe foi cabida. Pelo contrário, acho até que se sentia especialmente feliz, pois sabia que estava sendo esperada e que chegara em um momento propício. E assim, na minha mais profunda e singela glória, sob o cheiro das rosas depositadas na cabeceira do leito das cinzas, ordenei para que o relógio do amor de Aluísio chegasse ao final. A morte então, sob meu comando, como se tivesse dado um beijo carinhoso, serenamente, carregou consigo o último suspiro de vida das "cinzas". E eu, novamente, quando esse fim de um novo início chegara, fiquei a observar as lágrimas floridas de adeus que escorriam solitárias sobre a face de Aluísio. Carregavam elas consigo o fogo de uma vida de aventura, de força, de paixão. Não havia arrependimentos, nem erros que não tivessem sido perdoados, nem mesmo dúvidas ou desejos irrealizados. Tudo que havia, tudo que restava, sobrava, que germinava no meio daqueles olhos, era a mais pura certeza de uma vida de euforia e de profundo amor. Minutos mais tarde, em meio ao choro silencioso de Aluísio, as "cinzas" foram transportadas para o necrotério e, de lá, saíram imediatamente para a cremação. Era o que elas desejavam. As "cinzas" literalmente desejavam se transformar em cinzas quando definitivamente mortas. E assim foi feito. E assim também, com a intenção de realizar o desejo delas, é que as mesmas foram, do local de cremação, levadas diretamente a uma aconchegante ilha, situada no oceano Atlântico, em terras espanholas. Ficaram lá, quietinhas, guardadas, aquecidas dentro daquela caixinha, a urna, esperando o momento da festa. E o momento, o praticamente último momento para que esta história fosse libertada, chegara um mês depois da morte das "cinzas". Aluísio, finalmente, estava pronto para realizar o último pedido do seu grande amor e organizara, junto com seus amigos, uma grandiosa festa de despedida em uma das praias da Espanha. Tal comemoração, chamada de Celebração da Vida, começara no início do anoitecer. Eu, mais uma vez, estive presente naquele local. Aliás, a bem da verdade, estou presente em tudo e qualquer lugar. A diferença é que consigo lembrar apenas dos fatos que marcam o, digamos assim, tempo do tempo. E essa festa, ou melhor, essa história como um todo, era uma ocasião que eu estava emocionalmente envolvido, profundamente cativado, tremendamente maravilhado e, por isso, não tive como não me lembrar do desfecho desta relação de amor. Então, assim sendo, bem lá, próximo ao mar, é que pude ver o olhar de Aluísio se misturar ao gostoso sabor das ondas. O perfume das rosas, das rosas vermelhas de amor, também lá se encontrava e se entremeava no ar, alucinando, no bom sentido da palavra, todos os convidados. Além disso, glamorosas músicas clássicas acariciavam os ouvidos dos ainda sobreviventes, que bebiam, se divertiam e, de alguma forma, celebravam a vida. Somente horas depois do início da celebração é que a urna foi aberta. Aos poucos, quase uma a uma, elas, as cinzas, saíram da caixinha em que haviam sido depositadas e foram deixando Aluísio para trás. E como em uma dança, a dança do balé das cinzas, misturaram-se ao vento oceânico, seguindo a direção de suas águas. Seguiram viagem. Fizeram, finalmente, o espetáculo do último adeus e, definitivamente, adentraram para um conto de amor. Em Paris, tudo continuava a girar, como se nada tivesse acontecido. Os carros circulavam, o vento frio batia na face dos pedestres, a sinaleira abria e fechava, o jornal dava lá suas tristes notícias. E eu, de longe ou perto, os observava e continuava com a minha penosa, e às vezes feliz, função de controlar tudo e todos. Aluísio voltou ao teatro municipal somente um ano depois, para então estrelar sua mais nova performance. Eu estava na platéia naquele dia... |
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Novos Talentos do Conto Brasileiro - Edição Especial
- Junho de 2009 |