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Antologia
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Marias
Maria é uma moça bonita, jovem, atraente, independente. Cuida de seu corpo, pois precisa dele para se realizar. Tem estatura mediana, é morena, mas gosta de usar máscaras. As pessoas a desejam, querem tocá-la, talvez nada mais. Mas ela sabe disso. Hoje é sábado, por isso sairá. Irá a um baile, haverá \"show\" de rodeio, música sertaneja, não a de raiz, que defende a tradição do sertão e a cultura do povo mais simples, porém não menos inteligente. Trata-se um novo estilo, chamado sertanejo universitário. Ver-se-á fumaça de cigarro, latas de cerveja no chão atrapalhando o movimento rústico daqueles seres, chamam de dança. Todo mundo sorrindo sem motivos concretos e outros animais sendo maltratados, a diferença básica está no chapéu, que os de cima usam. Ontem ela foi ao salão de beleza. Pintou os cabelos, fez alisamento, pois se sente mais segura assim, também fez depilação pubiana, pois tem a pretensão de transar nesse fim de semana e, claro está, precisa encantar o parceiro que ainda conhecerá. Maria passou a semana toda pensando em como se vestiria no dia do baile, qual perfume usaria, em qual carro desfilaria pela cidade antes e depois da festa. Ela gosta das pick-ups, são grandes e espaçosas, faz com que ela se sinta mais importante, mais bem vista. Entretanto, basta-lhe uma saveiro semi-nova, o que ela quer é uma companhia motorizada. Para chegar ao local do sacrilégio, ela convida como choffeur um amigo apaixonado, é óbvio que ele aceita. O iludido abre-lhe a porta do automóvel para que ela entre, entrega-lhe flores, ela finge que se emociona, elogia a roupa cafona do coitado e vão ouvindo acordes alienantes durante o trajeto. Quando chegam, as notas são as mesmas. O que muda é a companhia, pois ela o abandona na primeira oportunidade. Depois, alegará que se perdeu quando foi ao banheiro. Realmente se perdeu, mas foi nos braços de um bonitão de esporas. Todavia, esse cowboy não serve para ela, pois não lhe daria o valor que ela julga merecer. Nisso o ser humano é como Deus, quer o veredicto . A nossa estrela vai para a pista e se movimenta freneticamente. De onde estamos, vê-se em uma mão um cigarro aceso, em outra, uma lata de cerveja emprestada de alguém. Sua cabeça está em outro mundo, é como uma fuga da realidade. Mas o que Maria não sabe e talvez nunca venha a saber é que foge exatamente para a verdade deplorável de sua existência. Há um bobo da corte que comanda o festejo, ele faz graças na intenção de animar o pessoal. Mas nesse reino, devido à algazarra, ele utiliza um microfone para se comunicar com o resto, que aplaude, assobia, grita e sorri das rimas mal feitas pela figura emblemática. Maria ainda não sabe, mas vomitará daqui a alguns instantes. O álcool já faz o devido efeito e seu estômago começa a maltratá-la. Ela disfarça, vai ao banheiro e faz o serviço. Lava-se. Aguarda alguns instantes até se recuperar um pouco. Dentro do possível, retoca o batom e volta para a multidão a mesma lady que chegara acompanhada do amigo apaixonado. Este, por sinal, encontra-se sentado num canto a olhar vagamente as coisas, desolado, bebendo sem perceber. A vida é assim, muitas vezes agimos sem dar-se conta. A madrugada vai alta. A moça de quem falamos dançou até surgirem bolhas nos pés, bebeu a cerveja de vários colegas de noite e fumou até enjoar, pois não o faz no dia-a-dia. Já chega a hora de encontrar um bom acompanhante, aquele que vai lhe dar o derradeiro prazer e lhe dar uma carona confortável de volta. Já sabemos que esse homem não é nem o amigo apaixonado e nem o bonitão de esporas. Ela não precisa nem procurar, os homens vêm até ela. No fim de festa costuma-se apostar todas as fichas. Nesse instante, o primeiro cidadão mais ou menos apresentável que demonstrar boas intenções usufruirá dos carinhos de Maria. Ela olha para João, que lhe observa há alguns instantes. Ela sorri, ele se aproxima. Conversam qualquer coisa de banal e caminham em direção ao carro do indivíduo. A moça percebe que é um veículo interessante, já o fita com outros olhos, está feliz. Dançou, fumou, bebeu, divertiu-se e não gastou praticamente nada nessa noite. Quando chegar em casa esquecerá de agradecer a Deus por sua saúde, mas dormirá com o sorriso no rosto. João é um bom rapaz. Não gosta de literatura, nem de cinema, nem de artes plásticas. Não costuma ler e nem se mantém atualizado com o mundo. Nunca ouviu falar de Vinícius de Moraes, não saberia relacionar Da Vinci a Monalisa, e acha que Freddie Mercury é só mais um cantor boiola dos anos oitenta. E ainda haverá quem diga que o narrador dessa história é que se muniu de sua pena mais preconceituosa, quando em verdade apenas delineia uma narrativa literária, e por isso mesmo artística, referente à realidade circunstante. Voltemos a João. Adora música sertaneja, a nova vertente, claro está. Veste-se com chapéu, botas e cinturão. Bebe cerveja em abundância. Sorri com facilidade. Tem bom coração. Tem um carro. Nos arredores do circo, parece-nos zona rural, devido às vestimentas das pessoas que ali estão e pelo aspecto rústico da acústica. Porém, estamos na cidade. O casal sai ouvindo no cd player os mesmos arpejos que costumam ouvir durante a semana, iguais aos que vieram ouvindo e que ouviram durante o tempo que ali estiveram, gostam mesmo desse tipo de som. João é um cara simples, gostou de Maria. Ele pretende levá-la embora sonhando em ganhar um beijo como recompensa e, quem sabe, sair com ela de novo. A moça quer mais. Ela deseja saciar seus anseios de mulher. Quer sentir o prazer que lhe é de direito. Então, insinua-se para o rapaz, que fica meio constrangido, mas gosta, pois tem instintos. Ela diz, Bem que poderíamos ficar num lugar mais confortável, só eu e você, o que acha. Ele apenas sorriu e se endereçou ao motel mais próximo com o coração acelerado. Transaram. Magia para um, cotidiano para a outra. Ela dominou os gestos, a palavra, pois João é tímido. A única atitude deveras ativa do rapaz foi pagar a conta, como manda a cartilha do bom cavalheiro. Foram embora. Ele a deixou em casa, com cara de bobo, pois não esperava tanto de sua amada. Conseguiu seu telefone, por isso irradia felicidade. Agora, a donzela dorme relaxada em si mesma. A noite foi como programara. Sonhará com animais pulando e vozes dispersas, mas não se lembrará disso no dia seguinte, assim como também não se lembrará de João. |
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Novos Talentos do Conto Brasileiro - Edição Especial
- Junho de 2009 |