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Nilda Dias Tavares
Rio de Janeiro / RJ

     
 

 

Conversa com meu pai

Conto publicado na Antologia de Contos de Autores Contemporâneos - vol. 14


 
A lembrança mais antiga que eu tenho, é você chegando do trabalho, e eu correndo pro seu colo, esperando o chocolate ou as balas que você sempre trazia pra mim. Quantos anos eu tinha? Uns três ou quatro... Morávamos em Deodoro!

Depois me recordo de você me ensinando os deveres da escola. Você chegava do trabalho abatido, cansado, mas nunca se recusou a me ensinar! Lembro-me de você me trazendo livros: “Meu Pé de Laranja Lima”, “O Pequeno Príncipe”, “O Conde de Monte Cristo” e tantos outros... E depois me perguntando o que eu achara, como havia entendido e tirando as minhas dúvidas...

Você me ensinou a amar os livros... Contigo foi que eu aprendi que os livros são nossos companheiros pela vida afora... E agora eu sei, que eram livros que você pegava emprestado, pois não tinha condições de comprá-los!

Você foi o meu primeiro herói! Por mais rebelde que eu fosse, jamais levantou a mão num gesto de violência! Era com conversa, paciência e carinho que você tentava resolver nossos problemas.

Aí eu cresci, e um belo dia, você descobriu que a sua bonequinha tinha se transformado numa mulher... Imagino o ciúme que você sentiu! Um estranho estava se apoderando dos sentimentos da sua garotinha! Que triste destino o dos pais: amar, ensinar, ver a sua garotinha crescer, e entregá-la a um estranho. E ainda ter que gostar dele! E você passou por isso cinco vezes, cinco meninas... Como um herói! Com os dois filhos, foi mais fácil. Eram homens, podiam se defender sozinhos...

E foi assim, que você com tanto amor, nos abençoou! Quantas vezes, você tomou conta dos meus filhos, para que pudéssemos ir ao cinema... Com que carinho, você brincava com o seu bando de netos... E com que determinação, você juntava toda a família na sua casa nos Natais!
E que Natais maravilhosos! Como um alquimista, você transformava tudo em alegria... Suas brincadeiras, eram pura magia, sempre fazendo seus netos esperarem ansiosos o Papai Noel, que viria num trenó lá do céu...

Mais de trinta pessoas dentro de um apartamento! Bacalhoada, peru, rabanadas, bolinhos de bacalhau, o vinho! A árvore de Natal, toda enfeitada com bolas coloridas! E a algazarra frenética da criançada...

Lembro-me quando faltava luz, você reunindo a criançada, sentadinhas no chão, ouvindo atentas as histórias de fantasmas e bruxas que você contava. E como elas riam com o próprio susto...

Por quê você não nos deixou de herança a sua sabedoria? O seu talento...Como eu queria ser como você! Você era perfeito! E que orgulho eu sentia por ser sua filha!

Mas, um dia você me decepcionou... Uma estranha entrou em nossas vidas...

Não sei até que ponto, mas você traiu a minha mãe! Porém, mais do que isso: traiu a confiança e a crença que eu tinha em você! Descobri que o meu ídolo era de barro, e se quebrou! Brigamos, ou melhor, eu briguei com você...

Você preferiu se afastar da “outra”, e eu passei a entender que você não era nenhum deus. Era só um ser humano, de carne e osso, com as fraquezas de todo o ser humano. E peço a Deus, que você não tenha sofrido muito, ao ter que optar entre uma paixão na maturidade, e a sua família! Fui egoísta! Em nenhum momento, eu tentei conversar com você, saber dos seus sentimentos, esquecendo que era dessa forma, que você fazia comigo, mesmo quando eu estava errada! Julguei e condenei você, esquecendo como você nos criou, o carinho que sempre nos dedicou.

A mamãe nos reaproximou! Que mulher extraordinária! E que amor imenso ela lhe tinha!

Nunca mais brigamos, pelo contrário, ficamos mais unidos...

Os anos passaram, os netos cresceram e veio a doença. Maldito câncer!Eu e meus irmãos não podíamos acreditar! Não queríamos crer! E nunca contamos a mamãe...

Você ficou no hospital, eu e meus irmãos nos revezávamos a sua cabeceira...

Víamos você definhar lentamente. Murchar como uma flor tão valiosa, única da sua espécie, e nada podíamos fazer... Rezávamos pela sua cura, mas você só piorava... Até que num ato de desespero, pedi a Deus, que se você não fosse ficar curado, então, que Ele tivesse piedade e lhe desse o descanso eterno!

Será que eu errei? Esta dúvida vai estar para sempre em meu coração!

Você se foi no dia seguinte... Coincidência? Talvez algum dia você me diga...

Existe desde então, um tremendo espaço vazio no meu coração! Era você que me ouvia, quando eu estava triste. Que me aconselhava, quando eu estava com problemas. Que me fazia levantar a cabeça e lutar, quando eu me sentia fracassar. E era você que me fazia rir muito...

Os Natais nunca mais foram os mesmos! Nunca mais, a grande família que você deixou, se reuniu para o Natal! Nem poderia! Não seria a mesma coisa sem você!

Eu quero lhe pedir perdão! Por tudo! Por todas as vezes que eu esqueci como você era especial! Por brigar com você, em vez de escutá-lo! Por pedir a Deus, que aliviasse os seus sofrimentos! Por fazer tudo errado!

Alguns dirão que agora é tarde! Eu não penso assim! Acredito que você possa ler esta carta! Que possamos ter esta conversa!

Beijos, pai! Muitas, enormes saudades!
Receba esta carta, no maravilhoso lugar, onde eu acredito que você está!
Até um dia, se Deus permitir!


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A Presidenta

Conto publicado na Antologia de Contos de Autores Contemporâneos - vol. 15


O helicóptero pousou rente a rampa do Palácio. Com a ajuda de um militar, desci do helicóptero, em direção à rampa do Palácio presidencial.


Militares, políticos e jornalistas do mundo inteiro esperavam-me para a cerimônia de posse. Subi a rampa do Palácio, enquanto uma multidão gritava alegremente o meu nome: “Sa-ri-ta! Sa-ri-ta! Sa-ri-ta!”


Virei-me para a multidão, sorri e acenei! Era o meu povo! Eram os meus eleitores, uma multidão de “manés”. Finalmente! Eu era a Presidenta da “República de Somanés”, meu amado país.


Encerradas as festividades, arregacei as mangas. Hora de trabalhar. Comecei por exigir que se fizesse uma nova Constituição em tempo recorde: um mês! Fiz uma lista de exigências que deveriam constar da nossa Carta Magna:


1) O salário do Presidente será proporcional a dez vezes o salário mínimo. Ou seja, se o salário mínimo fosse, por exemplo, trezentos “míseros” (moeda corrente de “Somanés”), o salário do presidente seria de três mil “míseros”.
2) Não haverá nenhum benefício tais como carro, avião, alimentação, etc... A única exceção será a moradia: o palácio. Todas as demais despesas serão de responsabilidade do Presidente. Direitos: duas secretárias, um assessor, um porta-voz e três office-boys.
3) Só um ministro será eleito e designado Ministro do Bem Estar do Povo e da Honestidade Somanense. Salário relativo a oito salários mínimos, sem benefícios. Direitos: um assessor, uma secretária e um office-boy.
4) Serão eleitos cinco senadores. Um para cada região: Sul, Sudeste, Centro Oeste, Norte e Nordeste. Salário: seis salários mínimos. Sem benefícios. Direitos: uma secretária e um office-boy.
5 ) Ficam extintos os cargos de deputados federais, deputados estaduais, vereadores e prefeitos, visto tais cargos terem-se mostrado inúteis.
6) Cada estado terá um governador-geral eleito. Salário de quatro salários mínimos, sem benefícios. Direitos: uma secretária e um office-boy.
7) Todos os segmentos do povo “Somanense”, participarão da votação do salário mínimo anualmente. Representantes de classes, profissionais liberais, donas de casas e estudantes, formarão um Conselho Deliberativo, sem remuneração.
8) Este mesmo Conselho participará de todas as decisões importantes para os “manés”.
9) A pena para o crime de corrupção, assassinato, estupro, seqüestro e roubo, será a “Castração” para os homens, e a “Remoção de Todos os Pêlos”, para as mulheres, sem direito à maquiagem.
10) Revoguem-se as disposições em contrário.

O povo “Somanense” viu então, o maior desenvolvimento da sua história! Os “manés”, até então vivendo abaixo da linha da pobreza, passaram a ter trabalho, fartura, saúde, educação e lazer. A cultura (teatro, música, cinema, pintura, literatura e escultura), passou a fazer parte do currículo das escolas. Os esportes eram obrigatórios. E havia escolas públicas para quem quisesse estudar. Novas universidades foram construídas!


A criminalidade caiu noventa por cento! A polícia era respeitada pelo seu caráter incorruptível! As delegacias foram equipadas com quartos individuais, com cama, armário e banheiro. E os presos tinham que trabalhar para pagar a hospedagem. Na parede de cada cela, um cartaz: “Quem não trabalha, não come!” Os presídios foram transformados em clubes esportivos, por falta de prisioneiros! Não havia mendigos nas ruas. Todos tinham emprego e moradia. Os orfanatos foram transformados em creches para crianças, cujas mães trabalhavam. Os órfãos foram adotados pelas famílias “somanenses”.


As artes receberam incentivos fiscais, com a condição de uma vez por mês, serem apresentadas gratuitamente para o povo. E todos tiveram acesso ao teatro, cinema, literatura, etc Os bancos tiveram que baixar a taxa de juros. Só os verdadeiros patriotas se candidatavam a cargos políticos. O “mísero” não faltava nos cofres públicos e era empregado nos produtos hortifrutigranjeiros, na pecuária e na pesca. Os “manés” agora tinham hospitais excelentes.
Havia eleição anual para senadores e governadores. Havia poucos “manés”, candidatos. Ser político, já não entusiasmava as classes dominantes, que deixaram de ser dominantes.
A indústria e o comércio cresciam. Estradas e viadutos eram construídos para dar vazão ao fluxo rodoviário. Carretas enormes corriam pelas estradas levando maquinários, alimentos e outros produtos; levando a prosperidade aos mais distantes recantos do país. O movimento dos portos aumentou com o crescimento das importações. O “mané”, finalmente, era feliz.
O mundo inteiro reconhecia a prosperidade dos “manés”.


Eu estava felicíssima, tinha conseguido fazer de “Somanés”, um país grandioso.Mas o que eu não sabia, era que nos subterrâneos escuros da corrupção, antigos políticos tramavam contra o governo...


Eu havia trabalhado até tarde com o ministro e já ia me deitar, quando os traidores de “Somanés” invadiram o palácio. Alertada por membros da guarda presidencial, comecei a correr. Não sabia para onde, só sabia que precisava fugir. Para bem longe! Ao longe eu ouvia o ruído da multidão que gritava: Sara!! Sarita!! Sarita!! Sarita!!! Não abandone os “manés”!!!


Meus inimigos se aproximavam rapidamente. Corri ainda mais, mas tropecei e caí... Caí num poço escuro que parecia não ter fundo. Gritei aterrorizada!!!


E caí da minha cama! Foi tudo um sonho! E eu acordei confusa... O sol entrava pela janela e batia no meu rosto... Aliviada, vi que estava em casa. Nada havia mudado.
Olhei da minha janela e levei um susto! Lá fora, eu vi, caminhando tranqüilamente, uma multidão de “manés”!!!

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Amor de carnaval

Conto publicado na Antologia de Contos de Autores Contemporâneos - vol. 16



Ano de 2000. Era o primeiro carnaval do século. Todas as previsões de catástrofes que acabariam por destruir o mundo, felizmente, falharam. O evento que enlouqueceria todos os computadores, não aconteceu. A alegria de se viver o término de um milênio, e se começar outro, era geral.


Eu, minhas irmãs, Nelly, Neide, Graça, e Auretes, minhas primas Leninha e Nádia, e as amigas, Amélia, Severina, Mara e Sueli; combinamos fazer fantasias iguais. Depois de algumas discussões, combinamos de sair fantasiadas de havaianas.


Pedimos a minha tia Margarida para fazer nossas fantasias e quando fomos buscá-las, ficamos radiantes. Estavam lindas, a minha era branca.


À noite, nos arrumamos em minha casa, cada havaiana de uma cor diferente. Sem falsa modéstia, éramos um grupo de onze belas jovens havaianas, e chamávamos a atenção das pessoas. Fomos brincar em um clube da moda; o salão estava repleto de foliões, cantando e dançando. Quando entramos, todos os olhares se dirigiram em nossa direção com admiração.


A música estava alta, a alegria era geral e nos misturamos à multidão, dançando e cantando. De vez em quando, um pierrô azul, passava por mim e dizia com uma voz rouca e sensual: “Eu te amo!” - A cada volta do salão, ele me repetia as mesmas palavras.


A princípio, eu achei engraçado. A cada vez, eu ria e dizia:- Eu também! Depois comecei a reparar nos olhos por trás da máscara. Eram olhos azuis, quase da cor da fantasia. Seus olhos me olhavam com tal ternura, que eu comecei a me interessar.


Num certo momento, ele pegou a minha mão delicadamente, e me conduziu para uma mesa, afastada do salão. Sem resistir, eu o segui obediente.


Estava totalmente hipnotizada! Conversamos durante toda aquela noite. Pedi que retirasse a máscara, mas ele me disse que só o faria no último dia de carnaval. Fiquei ainda mais curiosa, mas concordei com todo aquele mistério. Eu disse o meu nome, minha idade, enfim, a minha ficha toda. Da minha parte, não haveria nenhum mistério. Nos encontramos no mesmo lugar, nos três dias de carnaval. Dançamos, brincamos, cantamos e conversamos. Descobrimos que tínhamos os mesmos gostos em música, literatura...


Ele seduziu toda a turma com seu jeito alegre e misterioso, e deixando minhas irmãs loucas de curiosidade, querendo tirar-lhe a máscara.


No fim do baile do último dia de carnaval, nos beijamos. Eu estava fascinada. Ele me beijou com muita ternura, muita delicadeza. Seus lábios roçando levemente os meus. Olhou-me nos olhos, e disse: -Espere-me! - E se afastou...


Pensei que ele fosse ao bar. Mas ele não voltou... Preocupada, procurei por ele em cada canto do salão, em cada dependência, e nada. Ele não estava. Sem sentir, comecei a chorar. Minhas irmãs ficaram preocupadas comigo. Diziam que amor de carnaval era assim mesmo, que eu devia parar de pensar nele.


Depois do carnaval, a tristeza tomou conta de mim. Por quê ele desapareceu assim? Eu queria esquecer, mas as palavras dele dizendo: “-Espere-me”, não saíam da minha cabeça.


Na volta às aulas, a rotina diária me fez voltar ao normal. Eu era jovem, bonita, inteligente, e não ia ficar chorando pra sempre, por um cara que eu nem conhecia. Quem ele pensava que era?


O ano de 2000 passou, e chegou o de 2001... Como um replay de 2000, no carnaval tornei a encontrar o pierrô. Desta vez, a fantasia era verde.


Voltou a dizer que me amava, e eu acreditei. Voltou a me hipnotizar, e eu deixei. E depois, pedindo-me para esperar, ele partiu...


Ele reapareceu no carnaval de 2002 com um pierrô branco... E no de 2003 com um pierrô negro... Sempre da mesma forma. Sempre me encantando e partindo.


Eu vivia o ano todo, só pensando no momento de encontrá-lo. Nos meus dezoito anos, eu me apaixonara pelo mistério. Mas em 2004, ele não apareceu... Procurei por ele durante os dias de carnaval, mas não o encontrei. A tristeza que eu sentia era muito grande. Eu não queria comer, estudar ou conversar.


As meninas (era como nos tratávamos), vieram falar comigo. Decidiram me contar algo que descobriram há algum tempo, e não tiveram coragem de me contar: o meu pierrô era casado! No último baile, combinaram de segui-lo, sem que ele percebesse. Viram quando ele entrou numa casa, e perguntaram na vizinhança. Ficaram sabendo que seu nome era Américo, que era casado, tinha quatro filhos e a cada ano, saía no carnaval, com um pierrô de cor diferente. Não me contaram antes para me poupar de sofrimentos.


Fiquei com ódio! Fiquei com muita raiva daquele homem, que brincou com os meus sentimentos por tanto tempo.Eu não ia deixar barato! Ele tinha que me pagar! Ele tinha que sofrer como eu estava sofrendo! Eu precisava me vingar!

Peguei o endereço, e disse à turma que precisava ir sozinha a casa dele. Eu precisava ir só. Eu precisava conhecer a esposa dele, dizer-lhe como ele era falso, como havia enganado a nós duas.


Cheguei à casa do endereço. Era uma casa amarela, com cercas brancas. Cortinas delicadas davam-lhe um ar de singela elegância. Um jardim bem cuidado estava alegremente florido. Minhas pernas tremiam. A possibilidade de revê-lo, fazia meu coração disparar.
Toquei a campainha, e uma senhora aparentando uns sessenta anos, abriu a porta.


— Pois não?
— Eu gostaria de falar com o Américo.
A senhora me olhou intensamente, de uma forma estranha...
— Entre, querida, eu estava lhe esperando!
— Acho que a senhora está me confundindo com outra pessoa.
— Eu acho que não, mas veremos!
— Eu gostaria de falar com o Américo. – Eu disse de novo.
— Eu sou a esposa dele. Você é a Lara, não é?
— Sim.– Eu disse, quase caindo de susto. – Como é que a senhora sabe?
— Sente-se. O Américo me contou. Eu vou lhe contar tudo. Verá como a vida resolveu nos unir na mesma estória.
Quando eu conheci o Américo, ele era louco por carnaval. Eu não gostava, e quando nos casamos, fiz ele prometer que não ia mais brincar, nem usar fantasias. Durante os 40 anos em que fomos casados, ele cumpriu a promessa. Infelizmente, Américo ficou doente. Os exames médicos mostraram um aneurisma no cérebro. Não havia nada que se pudesse fazer. Não adiantava operar. Américo me pediu que o liberasse da promessa, que eu permitisse que ele se fantasiasse e fosse aproveitar o tempo que lhe restava. Concordei. Como eu poderia negar um pouco de alegria, a quem estava sofrendo tanto, a quem me havia feito feliz por tanto tempo? Foi assim, que você o conheceu. Um pierrô de cor diferente para cada ano...


Um dia, ele chegou em casa mais triste que de hábito. Contou-me tudo... Contou-me sobre você, me disse que as suas amigas o seguiram e que um dia, você viria procurá-lo. Deixou uma coisa para você; ele se foi pouco depois do carnaval de 2003...


Eu estava totalmente confusa. Meu Deus! Morto? O meu pierrô, morto? Como o Américo podia ser casado com esta senhora? Há 40 anos! Que idade ele podia ter? Devia estar havendo algum engano! As perguntas se atropelavam na minha cabeça, quando ela retornou. Trazia nas mãos, um álbum de fotografias amareladas pelo passar dos anos e uma caixa de madeira, parecida com caixas de charutos.


— Este é o Américo. Estas são as fotos do nosso casamento e das nossas bodas de prata. E esta aqui, foi tirada no último aniversário dele. Nós fomos felizes! Muito felizes!
Olhei fascinada para aquelas fotos. A mulher muito bonita da fotografia tinha os mesmos traços da senhora que estava ao meu lado. O rapaz da fotografia tinha o sorriso e os olhos azuis que eu já conhecia. Seu rosto sorridente olhava para a jovem com amor. Em outra fotografia, um senhor de cabelos grisalhos tinha os olhos azuis e um sorriso triste. Inconfundíveis! Era o Américo!


A senhora ao meu lado, tinha os olhos marejados de lágrimas... Eu estava muda, sem saber o que dizer.


— Não queira mal ao meu marido. Você vai compreender tudo, quando abrir a caixa que ele lhe deixou. Tome. Guarde com muito carinho. Mas deixe para ler, quando chegar em casa. Quando estiver sozinha. Meu nome é Marta. Se precisar, estarei aqui...


Saí daquela casa mais triste do que quando entrei. Não podia compreender. Ao chegar em casa, tranquei-me no meu quarto, sentei-me na cama e me enchendo de coragem, abri a caixa. Dentro havia quatro máscaras! Cada uma de uma cor: azul, verde, branca e preta. Comecei a ler a carta, escrita com uma letra delicada, que dizia:


“Querida Lara:
Agora você sabe porque eu não podia tirar a máscara! Não me odeie, por favor!Tudo começou como uma brincadeira. Eu queria ver se ainda podia cativar uma jovem. Quando eu vi você, vestida na sua havaiana branca, fiquei extasiado!
Você era a moça mais bonita daquele baile! Esse coração, insensato, velho e doente, se apaixonou no mesmo instante. Eu já sabia que me restava pouco tempo, e achei que não faria mal um pouco de ilusão em minha vida!
Mas não esperava que você também se apaixonasse. Como eu podia esperar que uma moça linda como você se apaixonaria por um homem que nem conhecia? Que nem o rosto podia ver? Mas você me amou. Eu podia ver isso nos seus olhos, sempre que nos encontrávamos. E esse amor, aquecia o meu coração. Eu sei, fui egoísta. Não me dei conta do quanto você estava sofrendo.
Saber-me amado por você, me dava forças para enfrentar a doença e a proximidade da morte. Mas saiba, que em nenhum momento, eu fui mentiroso ou falso. Todos os meus sentimentos foram verdadeiros. Eu a amei intensamente, platonicamente.Como a uma santa no altar.
Perdoe-me, querida! Perdoe este pobre velho! Contei tudo a Marta e ela me compreendeu e perdoou. Apesar de tudo, eu fui feliz. Quantos homens tiveram a ventura de ter uma companheira maravilhosa por 40 anos, e uma linda e romântica ilusão no final da vida?
Eu tive as duas coisas! Nos meus 65 anos, você foi a coisa mais linda que me aconteceu! A ilusão mais querida! Que pena, que eu tenha feito você sofrer tanto! Por favor, me perdoe!
Perdoe este pierrô, que só teve coragem de morrer, quando recomeçou a vive, quando lhe conheceu. Lembre-se sempre de mim com carinho... Para toda a eternidade, sempre seu, Américo.”


Eu sei que parece loucura, mas fiquei feliz, por ter dado alguma alegria a uma pessoa no fim da vida. E senti também, um grande alívio. Não sentia mais raiva. Agora eu sabia que ele não havia brincado com os meus sentimentos. Eu sabia o quanto ele me amara e o quanto ele também sofrera. Pobre pierrô!


Gostaria de ter estado junto dele na sua partida. Mas a Marta tinha esse direito. Que mulher altruísta! Como deve ter amado o marido! Que coração enorme!


Guardei com carinho a carta e as máscaras. Ficarão para sempre guardada em meu coração, com a lembrança dos nossos encontros.


Às vezes, parece-me ouvir a sua voz dizendo: “-Espere-me...”


Adeus, pierrô! Adeus, amor de carnaval que encheu de mistério a minha jovem vida! Jamais o esquecerei.

 

Nilda Dias Tavares (04/10/1945)
Rio de Janeiro / RJ

gitana45dias@yahoo.com.br

 

 

 

 

 




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