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  Nathalia Wigg
Rio de Janeiro / RJ

     
 
 

 





 


 

 

 

 

 

Jardim natalino

Publicado na edição 2007 de "Os mais belos Textos de Natal" - CBJE

Caminhava pela rua assistindo o pôr-do-sol, pensava no quanto que o entardecer estava agradável. Vi as primeiras luzes natalinas serem acesas nos jardins das casas. A noite chegava ao ritmo de canções que pareciam entorpecer o coração.

Duas horas depois, no meu quarto, tirando algumas roupas da gaveta, dobrando alguns lençóis, me dei conta de que a minha cabeça estava em outro lugar; refletindo sobre o âmago da vida. Foi quando percebi que o cacto na minha janela falava, em voz mansa, alguma coisa que não compreendia. Por que não compreendia? Ah Deus, porque era tão difícil compreender tudo o que o silencio tinha a me dizer? Talvez porque eu estivesse mais concentrada no meu passado do que no meu agora...

Respirei fundo, aquietei a mente e tentei ouvi-lo outra vez. Mas o meu incessante repertório interno falava no momento. Esse repertório, conjunto de histórias que habitam em nossos corações, às vezes nos separa da paz.

Lá fora, várias famílias ouviam suas músicas natalinas que ecoavam no meu quarto. Fui capaz até de imaginar o Papai Noel chegando em seu trenó. A criança que existe dentro de mim foi capaz de vê-lo e ouvi-lo!

O Natal é a centelha divina que habita no coração dos homens. É sopro constante dos poetas. É a magia que se petrifica; é o nascer de Cristo, o renascer do Deus interno de cada um de nós. É a época que pressagia o inicio do ano novo e a esperança de uma vida renovada. O Natal é a constante sabedoria das crianças...
E olhando para o cacto na minha janela, percebi que olhava para os meus próprios espinhos e decidi beijá-los; abençoá-los por terem se transformado numa obra prima da natureza. As experiências boas e ruins devem ser plantadas no lindo jardim da sabedoria, e é desse jardim que o poeta define a sua pintura literária.

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Pequenos contos contam um ponto

Publicado no volume 9 da Antologia de Contos Fantásticos - CBJE/2007

Pequenos contos contam um ponto; são referencias de histórias que podem peregrinar por vários caminhos. Mas baseando-se no fato de que tudo é infinito enquanto dura e de infinito em infinito podemos ver novos horizontes; havia um mago que no passado viu um horizonte e esse mesmo mago coexiste no presente e no futuro.

Um pequeno ponto eu posso contar de uma história perdida no espaço. Uma história sobre duas almas que se juntaram na amizade e iniciaram uma jornada espiritual; no processo da jornada eles fizeram alguns experimentos. Na verdade todos os caminhos que lhes eram apresentados consistiam em revelar a cada um deles as variadas formas de Ágape e o poder da transformação. E lhes foi ensinado que todo caminho deve resultar num único fim: A fórmula espiritual da química entre a paz e o amor de espírito.

O que fazer um homem que habita um corpo, mas se sente mais espírito do que corpo? Esse homem faz amor como os anjos se amam no céu. Existem várias formas de se relacionar e atingir o nirvana num relacionamento; existe um êxtase que explode de dentro, mas sem ser pelo modo convencional explorado por humanos. O melhor êxtase é o consciente. O “vinho” deve ser usado pra se degustar e não para se embriagar.

E esse é apenas um ponto do conto “Dele” e “Dela”:

O encontro é marcado. Um motel aparentemente trivial; que ambos desconheciam. Eles sentem a energia do local; ela joga a bolsa na cama... Ele não imagina o que há em sua bolsa... Então, ela pergunta: “Você confia em mim?” e ele diz que sim. Ela pede pra que ele sente na cama; ao mesmo tempo em que tira velas vermelhas e um incenso da bolsa que, após acesos, reinavam na escuridão do quarto. As chamas revelavam as várias faces do fogo e o aspecto mais sagrado que nele habita. O quarto de um motel trivial havia se transformado num templo mágico.

Ela pega duas vendas pretas, e uma delas, coloca cuidadosamente por cima dos olhos dele. E faz o mesmo em si própria.

O que estava acontecendo ali era um ritual de celebração da alma. As mãos sentem muito melhor o corpo e a alma do outro quando a necessidade do tato aumenta perante a ausência da visão. As mãos passam a “enxergar” o que antes só tocavam e não sentiam de fato. Cada toque surge do útero do mundo; como a necessidade de uma criança de explorar o mundo do criador. Ali estavam dois universos frente a frente em busca do portal e do fogo sagrado. Bocas e sexos se transformavam em rosas vermelhas que se beijavam, depois do ritual do toque.

As mãos começaram a se tocar lentamente... um ao outro...com a ingenuidade de uma criança e com a cautela de um felino ao pisar em território estranho...não havia pressa e nem cobranças...não importava que tipo de desejo eles estavam sentindo e se estavam excitados ou não. Só importava enxergar com os dedos...sentir a beleza que qualquer imperfeição física possa ter e a beleza ainda maior de degustar a alma do outro.

O tempo havia parado... ela tirava a roupa dele...ele tirava a roupa dela...sentindo lentamente cada poro e cada forma apresentada por um mundo novo. O tempo passava despercebido e o tato passou a ser um sentido apreciado como nunca antes. O cheiro do incenso entorpecia o olfato... os ouvidos dançavam num ritmo que oscilava entre o silêncio e a voz da alma...o sabor daquele momento era de chocolate quente.

De olhos vendados eles se abraçam... tudo parecia acontecer em câmera lenta. Não havia pensamentos na cabeça...o silencio reinava na mente. Eles se “reduziram” a dois corações cuja energia viva pulsava no planeta Terra e como constelações se sentiram mais imortais do que nunca. A alma celebrava o encontro com o Deus interno e acima de tudo, com o Deus UNO.
Velas, vermelho, fogo sagrado, incenso, fumaça, penumbra, vendas, corpos, estrelas, energia viva, beijos, abraços, crianças, deuses, despreocupados, toques lentos, serenos, poros, peitos, sexos, cabelos, olhos vendados, almas desvendadas, reveladas, mistério sem fim, simples assim... num sopro do silencio.

Movimentos lentos do inicio ao fim, num êxtase de paz. E o espírito goza e celebra. E as vendas são tiradas; a visão valorizada como nunca antes... lá estava duas energias vivas apreciando, como se fosse uma sobremesa, cada lágrima de alegria jorrada pelas velas... vermelho vivo, sangue vital, átomos, almas, fogo sagrado.

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O malandrinho de porcelana e a prostituta santa

Publicado no volume 10 da Antologia de Contos Fantásticos - CBJE/2008


Essa madrugada pairou cansada, aqui jazem noites inacabadas diante desse imenso vazio da solidão. Olhava para janela fechada, sabe, ainda podia ver alguns resquícios de luz. Tentei dormir! Mexia-me para um lado, para o outro, travesseiro sobre o rosto, semblante a contragosto.

Resolvi levantar, ascender um incenso, tomar um banho pra relaxar. Sabe aquele rango de madrugada? Pois é! Um hambúrguer de frango, agora, digere no meu estômago. Ah, mas tem tanta coisa pra digerir aqui! Pra começar, após a “ceia”, abri a janela e me deparei com uma prostituta e um menino de rua, sentados na calçada em frente, “trocando figurinhas”. Digo, o menino oferecia cocaína a ela. Discretamente, na minha janela, acompanhei aquela cena.


Minha cabeça geralmente fica atordoada de trabalho, não posso me dar ao triste luxo de acompanhar a novela chamada “vizinhança”. Mas esse caso foi peculiar! Diante daquele vizinho sem lar, impossível seria ficar indiferente! Um vizinho chamado “margem”, mas não as límpidas areias que edificam o mar, e sim a grande pobreza marginal da situação. Marginal... Do jeito que vai, indago-me com a metáfora: Será que a “areia” vai engolir o “mar”?

A prostituta usava saia curtinha, tinha pernas esmirradas que bamboleavam sobre um fino salto; tinha olhos de menina e idade pra ser minha filha! O menino, com aproximadamente 10 anos de idade, se expressava com malandragem; nos seus olhos refletia vácuo... Vácuo insano, alienado por um mundo louco, defasado por um pai colosso. O menino só queria se proteger! Acreditem...

Ouvindo o diálogo entre os dois, soube que se ele não chegasse de manhã em casa, com o dinheiro das drogas comercializadas, o pai espancava-o com rancor.

A jovem prostituta, com dó no coração, resolveu dá-lhe seus únicos 45 reais, em busca do perdão. Sim! Em busca do perdão de Deus! Pois naquela mesma noite soube que ela, antes virgem, havia vendido seu corpo para alguns homens, somando 45 reais.

Fragmentos da conversa: Meu pai me espanca/ Compra pra mim/ Tá frio aqui/ Não, não posso comprar/ Vou doar-lhe esse dinheiro/ Tô com medo/ Minha mãe me mandou trabalhar/ Sou evangélica/ Não posso errar/ Tá doendo meu coração.

Tá doendo meu coração? Diante dessa frase, minha alma desaguou. O hambúrguer, de frango, na minha barriga começou a embrulhar-me o estômago; até do frango senti pena! Culpa? Talvez! Todos nós temos. Na verdade, o culpado é aquele que proporciona situações que deixam essas pessoas a margem, tornando-as marginais.

Ainda na janela, vejo um carro da policia chegando em alta velocidade.
– PRA DENTRO! PRA DENTRO!

Levou os dois!!! E eu? O que eu fiz? Fiquei na minha janela com cara de idiota fofoqueira. Pensei o quanto aquela jovem prostituta era santa e o quanto o jovem malandrinho era de porcelana...

Liguei a televisão e me deparei com comercias, novelas, pessoas que se esvaíam de amor e subsidiavam-se com sapatos, casacos e cintos da moda! Todos eles, claro, feitos com pele de onça, leopardo, e por aí vai.

Pessoas que se alienam de seus princípios morais, não seriam prostitutas? Pelo que meu humilde conhecimento me permite, segundo o dicionário, prostituir é dar uso indevido e desonrar alguma coisa.

Se uma parte das pessoas desonra a moral, a ética, os valores humanos; essas pessoas estão fazendo uso indevido de seus espíritos.

Prostituir vai além do corpo! A jovem menina com sua alma ao relento só queria um abrigo diante desse mundo “cão”!

O fato é que todos, sem exceções, criam suas armaduras, uns na malandragem, outros com saias curtas, outros com grades nas casas, outros criando contos, crônicas, poemas, farsas...

Essa madrugada pairou cansada, aqui jazem noites inacabadas diante desse imenso vazio da solidão.

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