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Sergio Tavares
Antologia on line

Rio de Janeiro / RJ

 

Constatação

 

Depois de algum tempo observando seus olhos, tentando se ver intimamente como se pudesse enxergar sua alma, Tchekovinsk despertou do estado de letargia ao perceber uma profunda tristeza em seu olhar...
Era sempre assim, normalmente acordava bem cedo e ainda conseguia se atrasar. Quanto mais tempo tinha, mais lento ficava. Era como se fosse uma tendência natural ao desânimo, causando uma luta entre o corpo e o espírito, como se um fosse se tornando um fardo pesado para ser carregado pelo outro.
Estes pensamentos vinham como nuvens a sua mente, enquanto preparava um pequeno repasto para quebrar o jejum. Um pãozinho dormido com manteiga e um pouco de café eram suficientes para mantê-lo até a próxima refeição. “E além do mais, quantas pessoas por aí afora não tem nem um pão duro para comer?” – pensou.
Só então percebeu que estava falando sozinho. Olhou o relógio... Precisava sair com urgência...
Começou a imaginar o quanto sua vida podia ser diferente do que era hoje. “Por que motivo escolhi este caminho que sigo?!” - perguntava-se. E respostas vinham ao pensamento, porém nenhuma delas explicava o suficiente.
E outra pergunta saltava aos seus ouvidos: “Por que estou exatamente nesse lugar trabalhando com essas pessoas?”
Tchekovinsk procurava encontrar uma resposta exata, porém em questões de relacionamentos não existem fórmulas matemáticas ou receitas de bolo já prontas, como se fossem as melhores soluções. Aprendemos na base dos erros e acertos. Tudo é questão de experimentar um pouco aqui e acolá, até chegarmos a um denominador comum. De uma coisa ele tinha certeza... “Estou trabalhando no lugar em que eu devo realmente estar, pois nada na vida acontece por obra do acaso” – concluiu.
Fazendo uma análise rápida de tudo que ocorrera em sua existência nos anos “idos e vividos” podia dizer que nos dois últimos, ocorreram as maiores mudanças em toda a vida deste Oficial de Polícia.
Quando retirava o carro da garagem, lembrou-se do último assalto que sofrera numa situação idêntica saindo de casa...
O trânsito no Rio de Janeiro tornara-se insuportável, e dirigir nas principais ruas da cidade não era missão das mais fáceis. A vida estava realmente estressante e Tchekovinsk tinha a impressão de que tudo que tinha para fazer “era sempre para ontem!”
Quando chegou às proximidades do Estádio do Maracanã, percebeu a presença de uma ambulância do Corpo de Bombeiros, e constatou que havia ocorrido um grave acidente. Reduziu a velocidade e pode ver um casal caído no asfalto... ensanguentados...
A cena era horrível. Muito sangue pelo chão... uma motocicleta tombada... um rapaz gritando com uma terrível fratura exposta... uma moça deitada na calçada... aparentemente morta!
Esta imagem pela manhã, entristeceu Tchekovinsk e o fez mergulhar profundamente em suas reflexões, enquanto diminuía a marcha, como se quisesse parar e desistir de ir em frente. Mesmo assim, cumpriu religiosamente seu itinerário e como se seguisse para um abatedouro, foi em direção ao trabalho.
A esta altura já não dirigia, pois não podia perceber mais nada. Era como se o carro estivesse guiando-o ao seu destino.
“Diante de tanta fragilidade - pensou - para que correr tanto, se posso cair de repente e ficar pelo asfalto?”
No trabalho já não pensava mais em si, pois a rotina estava começando e não tinha tempo para sentir suas dores. Já não importava o que ele sentia... o que ele pensava... o que ele queria... pois a partir de agora ele tinha que se transformar na “máquina” que a Organização precisava, deixando de ser um homem cheio de angústias.
Tchekovinsk constatou que já não conseguia chorar diante de um ser humano... morto no asfalto... pois apenas uma lágrima brotou de seus olhos. E por mais que quisesse chorar profusamente como nos velhos tempos - quando ainda era um adolescente - sentiu-se um deserto, mas não havia com refazer o caminho, e a impossibilidade do retorno ao passado causou-lhe um forte aperto no coração.
E ali, diante do espelho, ele pode perceber que aquela única lágrima representava muito mais do que todas as lágrimas que já derramara em toda a sua vida, pois essa era muito mais sentida, e vinha não de seu corpo, mas de dentro de sua alma.

 
Publicado na Antologia "O Melhor do Conto Brasileiro" - Junho / 2010