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Rio
de Janeiro / RJ
Constatação
Depois
de algum tempo observando seus olhos, tentando se ver intimamente
como se pudesse enxergar sua alma, Tchekovinsk despertou do estado
de letargia ao perceber uma profunda tristeza em seu olhar...
Era sempre assim, normalmente acordava bem cedo e ainda conseguia
se atrasar. Quanto mais tempo tinha, mais lento ficava. Era como se
fosse uma tendência natural ao desânimo, causando uma
luta entre o corpo e o espírito, como se um fosse se tornando
um fardo pesado para ser carregado pelo outro.
Estes pensamentos vinham como nuvens a sua mente, enquanto preparava
um pequeno repasto para quebrar o jejum. Um pãozinho dormido
com manteiga e um pouco de café eram suficientes para mantê-lo
até a próxima refeição. “E além
do mais, quantas pessoas por aí afora não tem nem um
pão duro para comer?” – pensou.
Só então percebeu que estava falando sozinho. Olhou
o relógio... Precisava sair com urgência...
Começou a imaginar o quanto sua vida podia ser diferente do
que era hoje. “Por que motivo escolhi este caminho que sigo?!”
- perguntava-se. E respostas vinham ao pensamento, porém nenhuma
delas explicava o suficiente.
E outra pergunta saltava aos seus ouvidos: “Por que estou exatamente
nesse lugar trabalhando com essas pessoas?”
Tchekovinsk procurava encontrar uma resposta exata, porém em
questões de relacionamentos não existem fórmulas
matemáticas ou receitas de bolo já prontas, como se
fossem as melhores soluções. Aprendemos na base dos
erros e acertos. Tudo é questão de experimentar um pouco
aqui e acolá, até chegarmos a um denominador comum.
De uma coisa ele tinha certeza... “Estou trabalhando no lugar
em que eu devo realmente estar, pois nada na vida acontece por obra
do acaso” – concluiu.
Fazendo uma análise rápida de tudo que ocorrera em sua
existência nos anos “idos e vividos” podia dizer
que nos dois últimos, ocorreram as maiores mudanças
em toda a vida deste Oficial de Polícia.
Quando retirava o carro da garagem, lembrou-se do último assalto
que sofrera numa situação idêntica saindo de casa...
O trânsito no Rio de Janeiro tornara-se insuportável,
e dirigir nas principais ruas da cidade não era missão
das mais fáceis. A vida estava realmente estressante e Tchekovinsk
tinha a impressão de que tudo que tinha para fazer “era
sempre para ontem!”
Quando chegou às proximidades do Estádio do Maracanã,
percebeu a presença de uma ambulância do Corpo de Bombeiros,
e constatou que havia ocorrido um grave acidente. Reduziu a velocidade
e pode ver um casal caído no asfalto... ensanguentados...
A cena era horrível. Muito sangue pelo chão... uma motocicleta
tombada... um rapaz gritando com uma terrível fratura exposta...
uma moça deitada na calçada... aparentemente morta!
Esta imagem pela manhã, entristeceu Tchekovinsk e o fez mergulhar
profundamente em suas reflexões, enquanto diminuía a
marcha, como se quisesse parar e desistir de ir em frente. Mesmo assim,
cumpriu religiosamente seu itinerário e como se seguisse para
um abatedouro, foi em direção ao trabalho.
A esta altura já não dirigia, pois não podia
perceber mais nada. Era como se o carro estivesse guiando-o ao seu
destino.
“Diante de tanta fragilidade - pensou - para que correr tanto,
se posso cair de repente e ficar pelo asfalto?”
No trabalho já não pensava mais em si, pois a rotina
estava começando e não tinha tempo para sentir suas
dores. Já não importava o que ele sentia... o que ele
pensava... o que ele queria... pois a partir de agora ele tinha que
se transformar na “máquina” que a Organização
precisava, deixando de ser um homem cheio de angústias.
Tchekovinsk constatou que já não conseguia chorar diante
de um ser humano... morto no asfalto... pois apenas uma lágrima
brotou de seus olhos. E por mais que quisesse chorar profusamente
como nos velhos tempos - quando ainda era um adolescente - sentiu-se
um deserto, mas não havia com refazer o caminho, e a impossibilidade
do retorno ao passado causou-lhe um forte aperto no coração.
E ali, diante do espelho, ele pode perceber que aquela única
lágrima representava muito mais do que todas as lágrimas
que já derramara em toda a sua vida, pois essa era muito mais
sentida, e vinha não de seu corpo, mas de dentro de sua alma.
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