|
Moro do Lado de Dentro é o terceiro livro de poesia do escritor, engenheiro civil e servidor público Marcos Airton de Sousa Freitas, piauiense, 42 anos. Os dois primeiros são A Vida Sente-se a Si Mesma e A Terceira Margem Sem Rio. Marcos tem participação na Antologia de Poesias, Contos e Crônicas Livre Pensador, na Antologia de Poetas Brasileiros Contemporâneos e no Panorama Literário Brasileiro 2004/2005 – As 100 Melhores Poesias de 2004. Este novo livro reúne 65 poemas, que radiografam os mistérios e os desmistérios da vida. E é dividido em quatro partes: Um Jeito Meio Assim; Irreversibilidade; Endereço de Infância; e Por Sonhos, Serra, Sina e Suor.
Marcos Freitas é mais um poeta independente escolhido pela Poesia para, também, prosseguir com a saga da Esperança, uma vez que a indústria cultural, neste país da economia do quem é quem (e alhures) continua na contra-mão da Poesia. Essa indústria não investe em Poesia; a Poesia, dizem os proprietários da indústria cultural, não dá lucro. Isto mesmo: Poesia não dá lucro. Ainda bem. Mesmo poetas consagrados como Carlos Drummond de Andrade, por exemplo, nunca tiveram tiragem de suas obras superiores a 3 mil exemplares, num país que tem hoje mais de 180 milhões de brasileiros.
Tem sido assim, esta discriminação contra o Poeta e a Poesia, desde os tempos de Platão e Aristóteles. Os dois, aliás, chegaram à Estética através do estudo e da discussão da Poesia. E o fato é que a esmagadora maioria dos poetas também prefere dar as costas à indústria cultural. A Poesia, por estar na raiz da criação literária de todos os povos e culturas que registraram alguma manifestação literária, continua com a sua tarefa de revelar o humano que se esconde por traz de cada um de nós.
O mistério da Poesia é de uma transparência desconcertante para um Mundo tão desumano, belicoso, entrevado, cheio de sombras, contradições sociais, segredos, rasteiras, negociatas... A Poesia, na sua transparência/mistério, depois que se desprende do Poeta, pertence ao outro – e, por extensão à sociedade, posto ser tijolo e argamassa, matéria-prima do processo civilizatório. Quando o Poeta é sincero, a sua poesia não mente. E isto provoca uma identificação - que se transforma em cumplicidade - com o leitor. O outro. A sociedade.
Na poesia, os contrários se atraem, se recolhem, se repesam, se revezam e se completam, numa generosidade e crescimento mútuo pra lá de fraterna. Numa sedução pra cá de eterna. A Poesia é água, terra, mar, ar e, às vezes, fogo. Tem sido assim - “O que se partiu, cristal não era”, (Drummond) – e assim será, até o fim do Mundo. Até o fim de tudo. Quer dizer, do verso. Por que existe Poesia? Por que existem pessoas que gostam de Poesia? Por que essas pessoas, desde que o Mundo é Mundo, continuam incentivando a Poesia?
A Bíblia fala em “sal da terra”. As angústias humanas (também os prazeres) são desberlotados pelo Poeta no Poema. E o Poema, como se sabe, é o depositário fiel da Poesia. O código humano é uma estética poética e este código está presente, em grande parte, na poesia de Marcos Freitas. Quem ama não pode estar errado, mas quem não ama está errado porque não ama. Para quem não sabe, a palavra cria armadilhas, mas, quem sabe, cria armadilhas semânticas com as palavras, que instigam a inteligência.
A luta (pacífica) de classes, o sofrer, o prazer, a vida, a morte, a dor, o sorriso, a brochura, o tesão, o segundo, a eternidade etc cabem no Poema. Cabem no liquidificador da Poesia. E a humanidade e o universo se encaixam direitinho no coração do Poeta, na medula da Poesia. Seria o poeta um super-homem? Uma mulher maravilha? Claro que não, eles não existem. Ao contrário do Poeta, que sofre e ama, como dizia Cassiano Ricardo. E ao contrário de certos homens - donos e gerentes do poder - o Poeta não odeia. Ao contrário dos que elegem a mais valia como filosofia máxima de vida, o Poeta apenas ama.
O Poeta se questiona permanentemente e isto não quer dizer que ele não tenha a tão falada paz de espírito. Ele tem a paz já no corpo em si. O Poeta se questiona constantemente porque o Homem e o Universo ainda estão incompletos. O Artista se imbui da paisagem e do cheiro do seu povo e por isto mesmo é formador de opinião, criador de cultura e de civilização. O passado que era Arte e não se sabia; a paisagem que era Arte e não se intuía, os problemas sociais que eram Arte e não se atinava, viram Arte no presente para a eternidade. Transmutam-se em Poesia.
Você pode até não concordar com essa Arte, com essa Poesia, com as idéias dessa arte, mas tem alguma coisa neles que lhe prende a atenção, que lhe aguça a inteligência e a sensibilidade. A vida que o Artista ou Poeta cria para si mesmo, nos leva a instantes quase mágicos, de uma carga estética e emocional que nos transportam, por alguns momentos, para outra dimensão. Como se existisse o mágico, como se existissem os instantes. “Arte longa, vida breve” (Horácio). A condição humana que o Artista ou o Poeta criam revela o quanto somos, enquanto semente e sumo, polpa concreta e sensações. A realidade, física e existencial, provoca no Artista ou no Poeta o dom da criação estética. A ausência do amor físico, por exemplo, leva o Poeta a cantá-lo como se, assim, o trouxesse para o presente, para perto de si; e o traz. O Artista ou o Poeta, em sua solidão de trabalho, cria uma arte solidária. No caso do Artista ou do Poeta, a Arte, a Poesia, são saídas do abismo existencial em que se encontram. Comovido pela dor geral, o Poeta escreve versos sinceros e, por isto mesmo, comoventes. “A verdade é revolucionária” (Lênin).
Essa estética acompanha a poesia de Marcos Freitas, onde quer que ele esteja: Teresina, Fortaleza, Brasília, Alemanha, República Tcheca... Há no cidadão planetário Marcos Freitas uma vontade de mudar a realidade mesquinha. Há no poeta Marcos Freitas uma vontade danada de mudar o Mundo. Não quero dizer com isso que o homem Marcos Freitas maximiza o poeta que ele carrega dentro de si. Quero apenas lembrar de Mário Quintana: “fora da poesia não há salvação”.
Há em cada ser humano uma porção que se comove com a Poesia. Marcos Freitas é um homem que se resolve com a poesia. Como, aliás, quase todos os seres humanos se resolvem através da Arte, de uma forma ou de outra. O Mundo é pequeno para o Poeta. Por isso ele vive. E quando todas as vozes parecem calar, Ele canta.
Menezes y Morais
Brasília, verão de 2005
|