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Lúcia
de Fátima Guedes de Lima Bravo
Absintada
Chegou de sua maquinal rotina, sentou-se ao abraço de seu ordinário sofá. Pôs a vista através de sua janela, observou o tempo de oportunidades, percebeu só a escuridão da noite, era único meio de saída do seu particular universo de confinamento. Viu brilhar nos raios da estrela cadente, quão fútil a idealização de sua vida. Banhou-se na tentativa da água levar pelo ralo abaixo seus escuros sentimentos. No entusiasmo do momento, vestiu-se num ‘pretinho básico’ pintou os lábios de carmim, colocou nos olhos a clara sombra azul-céu do dia, perfumou-se de feromônios, avant l’amour, pour femme. Caiu nos mistérios da libertina noite, entrou nos bares e experimentou absinto, nas boates temáticas, sambou rock, tango, forró. Beijou bocas sem nomes, inebriou-se... Nauseou-se de sua correta pseudomoral, de ser guiada pelo senso comum. Olhou o céu e viu nos raios do crepúsculo, sua insana sensatez. Saiu da noite, na solidão do tempo, novamente a seguir sua vida, a dirigir seu automático carro vermelho.
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