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O
terceiro mundo
Conto
publicado na Antologia de Contos de Autores Contemporâneos - Vol.17
Larissa e Júlia eram duas dos cento e cinqüenta candidatos
a uma vaga de repórter em uma das maiores empresas jornalísticas
de São Paulo.
Sentadas
na sala central da referida empresa, as duas colegas aguardavam, ansiosamente,
o momento de sua entrevista com o Editor-chefe do Jornal Córtex
Universus. Ao observarem a face desanimada dos candidatos já entrevistados,
que saíam a cada cinco minutos da sala ao fim do corredor, Larissa
e Júlia naufragavam em um misto de esperança e incerteza.
Apesar
de serem amigas de infância, as duas tinham a plena convicção
de que ali,naquele exato momento de suas vidas, eram duas irremediáveis
rivais, disputando com unhas e dentes um ínfimo espaço no
mercado de trabalho. Por esse motivo, estavam nitidamente tensas e prefeririam
manter uma certa distância em tal ocasião de concorrência
cega. Todavia, poravareza ou ironia do destino, Larissa e Júlia
receberam os dois últimos números de inscrição
para a entrevista que, até aquele instante, ainda não havia
aprovado qualquer dos cento e quarenta e oito candidatos à vaga
de repórter. Assim, elas haviam ficado muito próximas, não
só em virtude de seus números subseqüentes de inscrição,
mas, sobretudo, em decorrência do medo de não conquistarem
o emprego. Quando Larissa ouviu a secretária chamar o candidato
de número cento e quarenta e nove para a entrevista, suas mãos
ficaram trêmulas e suas pernas bambearam até que pudessem
levá-la à sala do Editor-chefe.
—
Boa tarde. – Disse serenamente o editor ao ver Larissa entrando
em sua sala.- Sente-se, por favor, e responda às perguntas que
eu lhe fizer, de modo calmo e reflexivo, sem necessidade de nervosismo.
Larissa
obedeceu às instruções e se sentou em frente ao Editor-chefe,
que iniciou o questionário com uma pergunta um tanto quanto excêntrica:
—
A senhorita, por acaso, conhece o universo ?
— Não, senhor...
— Alex. Pode me chamar de Alex, sem o senhor. E eu, como posso chamá-la?
— Larissa.
— Pois bem, Larissa, eu andei viajando por todos os planetas de
nosso sistema solar e só me resta conhecer o terceiro mundo. Gostaria,
então, que você me descrevesse as principais características
desse mundo, incluindo os hábitos das pessoas, o convívio
delas com os recursos ambientais e as ações que têm
sido concretizadas a fim de preservá-los.
— Bom... O terceiro mundo é basicamente composto pelos países
sub-desenvolvidos...
— Não, Larissa, desculpe-me, eu não fui muito claro.
O terceiro mundo é o mundo em si. O terceiro mundo é o planeta
Terra. O seu planetinha, entende?
— O nosso planeta, Alex.
— O seu planeta, Larissa. – Corrigiu o editor com voz enfática.
– Eu não sou daqui. Sou um jornalista interplanetário,
cruzando o universo para completar meus relatórios sobre as condições
de vida em todos os mundos do universo. Adquiri a forma humana apenas
para facilitar o meu trabalho. Falo mais de sessenta tipos diferentes
de línguas e, portanto, não me foi nada difícil aprender
o Português, o Russo, o Mandarim, o Árabe, além de
outros idiomas terráqueos. Cheguei a este planeta há pouco
menos de dois dias e estou com certas dificuldades em concluir meu relatório
sobre as condições de vida no terceiro mundo, o seu mundo.
Por isso, necessito de um repórter ágil e inteligente que
me auxilie nesse serviço. Se você souber responder com precisão
às seguintes perguntas, você será imediatamente contratada.
Posso começar, então ?
Larissa,
completamente atônita, indagou-se mentalmente de que hospício
havia fugido aquele estranho Editor-chefe . Sem saber como agir, porém,
ela respondeu, confusa:
—
Antes de fazer a primeira pergunta, Alex, permita-me tirar uma dúvida...
— Sim.
— Se você já passou por quase todos os planetas do
sistema solar, por que em seus relatórios a Terra seria o terceiro
mundo. Não deveria ser o último ?
— Simples, Larissa. O planeta Terra ocupa a terceira órbita
do sistema solar. Agora, quantos habitantes vivem nesse seu planeta ?
— Cerca de seis bilhões, distribuídos desigualmente
em cinco continentes.
— E quais são as condições de vida desses seis
bilhões ?
— Pode-se dizer que a minoria vive muito bem e a maioria vive muito
mal.
— Especifique mais sua resposta, por favor, Larissa.
— De um modo geral, a riqueza e o bem-estar são altamente
concentrados na Terra. Enquanto poucos indivíduos desfrutam de
banquetes em suas mansões luxuosas, muitos outros nem sequer possuem
comida ou uma simples casa. Enquanto alguns países detêm
grande poder econômico por serem exploradores, outros submergem
em ruínas sociais por serem endividados, no presente, e por terem
sido brutalmente explorados, no passado.
— Em um mundo tão assimétrico, o que as pessoas costumam
valorizar?
— A maioria dos terráqueos, com poucas e louváveis
exceções, valorizam bens materiais, aparência física,
poder, fama e status social. Trata-se de um mundo infelizmente degenerado,
no qual as pessoas nem sempre valem o que elas são, mas, muitas
vezes, o que elas têm.
— E qual é o tipo de relação dos terráqueos
com seus recursos naturais?
— A natureza na Terra tem sido constantemente agredida. Florestas
são desmatadas em nome de um certo progresso, animas têm
sido extintos, mares vêm sendo poluídos e ecossistemas têm
sido desequilibrados. Daqui a alguns anos, é bem provável
que os recursos hídricos já estejam bastante escassos no
mundo.
— Neste seu mundo tão assimétrico e auto-destrutivo,
ocorreram quantos episódios de violência ou de guerras ?
—É praticamente impossível dizer exatamente quantos
fatos violentos ou bélicos vêm ocorrendo ao redor do globo.
O que posso lhe responder é que são muitos, tão numerosos
quanto catastróficos. Só a segunda guerra mundial, por exemplo,
dizimou milhões de seres humanos, em virtude de interesses absolutamente
espúrios.
— Muito bem, Larissa. Pelos dados que você me forneceu sobre
seu mundo, posso concluir meu relatório asseverando que o planeta
Terra é um dos mais atrasados do universo. Só para você
ter uma rápida idéia, os seres de Júpiter viveram
harmoniosamente durante séculos, sem que qualquer deles morresse
de inanição, mesmo porque eles se alimentam mediante um
processo semelhante à fotossíntese terrestre.
— Mas Júpiter está tão distante do Sol !
— Para você ver como a tecnologia jupteriana de captação
e utilização de raios ultra-violeta é incrivelmente
mais avançada do que vocês, terráqueos, possam imaginar.
— Está concluído seu relatório sobre o terceiro
mundo, então, Alex?
— Quase, Larissa. Preciso que você faça uma observação
profunda sobre a Terra para inseri-la em meu relatório, por meio
de uma frase simples, mas não simplória.
— Bem... Eis a observação para seu relatório:
enquanto permanecer uma divisão estúpida entre três
mundos, a Terra nada mais será do que um pequeno planeta, perdido
no caos infinito do universo e no caos de suas grandes desigualdades,
cada vez mais cruéis e cada vez menos aceitáveis.
— Ótimo, Larissa, com essa observação você
acaba de ser contratada. Partiremos agora mesmo para a sede do jornal,
na Lua.
— O quê ? – Perguntou a moça, atônita.
— Sim, você não quer ser uma repórter interplanetária
?
— Lamento, Alex, mas não posso exercer este emprego. Nenhum
terráqueo viveria bem na Lua por muito tempo... – Respondeu
Larissa, saindo aterrorizada daquela sala de entrevistas, enquanto Júlia,
a última candidata ao cargo de repórter, adentrava o recinto
dominado pelo excêntrico Editor-chefe.
Por
solidariedade, Larissa resolvera aguardar o término da entrevista
de sua amiga. Após cinco minutos, Júlia abria a porta da
sala com um sorriso estampado na face. Absolutamente curiosa e com tom
irônico, Larissa perguntou-lhe:
—
Você aceitou ir trabalhar na Lua?
— Sim, por que eu não aceitaria?
— Pelo mesmo motivo que os outros cento e quarenta e nove candidatos
à vaga de repórter, Larissa. – Respondeu o Editor-chefe,
que andava atrás das moças e resolvera interferir na conversa.
– Nenhum deles sabia que Lua é a designação
dada à sede desta empresa jornalística, que fica na periferia
de São Paulo.
— Ele lhe deu essa informação ? – Indagou Larissa,
indignada, à Júlia.
— Não, eu mesma deduzi.
— Como ?
— Pensando em quantos planetas existiriam dentro da própria
Terra, dentro do Brasil ou dentro desta grande metrópole. Ora,
se o Sol é o centro do universo, e a Terra gira em torno do Sol,
então o nosso planeta, que é o terceiro mundo, está
na periferia do universo. Assim, se a Lua gira em torno do nosso mundo,
então ela também está na periferia do universo, na
periferia do Brasil ou na periferia de São Paulo . Vá agora
mesmo, olhe para a escuridão do céu e veja se a Lua não
está, minguante, nova, crescente ou cheia, no grande subúrbio
desta capital paulista!
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Túnel
de incógnitas
Conto
publicado na Antologia de Contos de Autores Contemporâneos - Vol.18
Entre o riso e a lágrima existe uma incógnita chamada vida.
Um enigmático labirinto que conduz cada pessoa a desvendar o âmago
de seus próprios sentimentos, em meio a um túnel de incertezas
que separa o primeiro respiro do último piscar de olhos. Essas
foram as derradeiras frases de Amanda Sobieski, os últimos resquícios
de sonhos eventualmente não-concretizados, as últimas letras
de palavras que nem sequer foram ditas. Letras estáticas cuja função
precípua foi preencher a tela de um micro-computador vazio, em
uma sala vazia, de um apartamento esvaziado por furacões da angústia
que gera o vácuo entre o tudo e o nada, entre o luxo e o lixo,
entre o começo e o fim.
— Eu não sei por quê... – Disse a senhora do
apartamento ao lado, quando indagada pela polícia. – A Amanda
sempre me pareceu uma pessoa tão...
— Tão o quê, senhora ? – Redargüiu o policial,
no mais lídimo mau humor das segundas-feiras cinzentas.
— Equilibrada.
— Bem, isso não explica absolutamente nada.
— Quem sabe seja mais útil o senhor conversar com o porteiro
do prédio...
— Ele também não me forneceu qualquer informação
minimamente esclarecedora, como, aliás, nenhum condômino
deste maldito edifício residencial, o que dificulta muito a minha
investigação.
— Desculpe, mas não lhe parece um tanto quanto óbvio,
policial? Aquela janela escancarada, por acaso, não evidenciaria
indubitavelmente um ato de loucura, de ausência de amor ou de Deus
? Aquelas últimas palavras, então, não revelariam
os indícios de uma despedida intranqüila e desesperada ?
—Talvez alguém possa ter empurrado a moça, senhora.
Nós trabalhamos com hipóteses.
— Então procure as hipóteses mais factíveis,
policial, e pare de incomodar os moradores deste prédio com perguntinhas
desconexas sobre insanos que despencam do décimo sexto andar. Agora,
se o senhor me der licença, eu tenho muito mais o que fazer...
Com toda a rispidez do mundo, a senhora fechou a porta na cara do policial,
antes mesmo que ele pudesse prendê-la por desacato. Atônito,
aquele homem conhecido por sua habilidade na apuração de
casos insólitos ou enigmáticos, quedou-se repentinamente
sem quaisquer reações.
Não sabia, ao certo, se os peritos do Instituto Médico Legal
poderiam fornecer os indícios conclusivos para determinar a causa
mortis de Amanda Sobieski. Havia tentado, por diversas vezes, localizar
os pais ou qualquer familiar da moça, mas todos esses atos foram
infrutíferos ou inócuos. Por um breve instante, o policial
respirou fundo e passou a andar com calma pelo apartamento vazio de Amanda,
em busca de qualquer vestígio que indicasse a cabal ocorrência
de um acidente, de um suicídio ou de um crime. Olhou de relance
para a tela do computador localizado no centro da sala e leu, pela centésima
vez naquela tarde, a primeira fase que ali jazia com letras grandes e
resplandecentes: entre o riso e a lágrima existe uma incógnita
chamada vida. Essa primeira mensagem, em si, não lhe parecia estranha
nem esclarecedora. Era apenas mais um devaneio poético de uma mente
imiscuída em investigações existenciais, sem muito
fundamento ou sentido na prática. No entanto, a frase que se seguia
pareceu-lhe substancialmente íntima, como aspecto de um passado
recente. Um enigmático labirinto que conduz cada pessoa a desvendar
o âmago de seus próprios sentimentos, leu o policial em voz
alta, em meio a um túnel de incertezas que separa o primeiro respiro
do último piscar de olhos. Letras de reflexão, de desencanto
ou de despedida ?
— Meu Deus ! – Gritou policial como se desabasse sobre os
próprios medos. — Como pude ser tão estúpido
?
O homem, então, estremeceu com a visão embotada por lágrimas
de ressentimentos. Levou a mão ao bolso do paletó e retirou
um pequeno pedaço amassado de papel. Era a última carta
que sua filha lhe enviara, há cerca de um ano. Nunca quisera reconhecê-la
como filha e, de fato, nunca sequer havia tido qualquer contato com ela.
Nunca pretendera ter filhos, mesmo porque era um completo fiasco na excelsa
arte de amar e de traduzir seus sentimentos em atitudes concretas. Mas
a garota desconhecida lhe escrevia cartas de forma assídua e, embora
não revelasse seu nome, requeria em todas as cartas que o policial
ligasse para o número de telefone localizado na última linha.
Dez anos de cartas anônimas e ininterruptas. Dez anos de sonhos
sem respostas. Enfim, a vertigem provocada pelas ondulações
de palavras trêmulas, como tsunamis de letras machucando o espírito.
Profundamente abalado, o policial mirou mais uma vez a carta em suas mãos
e não pôde conter o choro quando leu nas linhas iniciais:
“A vida é um enigmático labirinto que conduz cada
pessoa a desvendar o âmago de seus próprios sentimentos...
Nesse labirinto não existem caminhos que o amor seja incapaz de
trilhar, nem trajetórias que a esperança deixe sem luz.
Quem não emprega efetivamente a bússola da alma no labirinto
da vida perde a direção que conduz aos sonhos e, por isso,
rende-se às mais obscuras desilusões. Quem não se
aperfeiçoa nos atos de amor aos próximos e, sobretudo, aos
filhos, torna-se refém do vácuo que o próprio mundo
continuamente engendra, como se fosse apenas mais um aspecto frio da existência
humana. Assim, não permita, pai, que esse enigmático labirinto
da vida se transforme em um túnel vazio de incertezas que separa
o primeiro respiro do último piscar de olhos.”
O policial tinha certeza que aquela carta era de Amanda, embora o papel
não trouxesse qualquer informação sobre nomes ou
endereços. Apenas havia um telefone na última linha, em
números trêmulos que pareciam se projetar além da
folha e aquém das forças já exíguas daquele
homem, tão incompetente na profissão, no amor e na vida.
De fato, ele se sentia atingido por todas as palavras daquela última
carta, como se cada vocábulo, vão ou retórico, dilacerasse
seu coração em frangalhos minúsculos de dor. Logo
ele que nunca se aprofundara no significado mais recôndito das palavras.
Logo ele que sempre compreendera a poesia como sopas de letras destituídas
de sons ou de cores. Entre o riso e a lágrima existe uma incógnita
chamada vida, dissera Amanda, em forma de desabafo, de protesto ou de
súplica. Entre a cruz e a espada existe uma intrusa chamada dúvida,
pensava o policial, em sinal de desespero, de ressentimento ou de angústia.
De fato, o homem queria ressuscitar sua filha, queria conhecê-la,
amá-la, pedir-lhe perdão pelos dez anos de cartas sem respostas.
Entretanto, o tempo havia apunhalado o policial pelas costas, jogando-o
rumo à previsibilidade dos dezesseis andares que o separavam de
sua filha, como se possível desvendar as incertezas do túnel
que separa o primeiro respiro do último piscar de olhos. Como se
realmente houvesse luz no fim do túnel. Como se entre a lágrima
e o riso existisse a outra face da incógnita chamada vida.
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Jihad
Conto
publicado na Antologia de Contos de Autores Contemporâneos - Vol.19
Seria possível escapar incólume da insensatez mundana que
almeja santificar a insípida guerra de todos contra todos ? Seria
factível ?, indagou Renata ao se olhar no espelho rachado e ver
seu semblante esquálido de mortal que acorda às cinco horas
da manhã, sem a mínima vontade de um dia ter nascido. Cinco
horas da manhã ! O despertador soa estridente e neurótico,
fazendo apologia ao cumprimento dos deveres diários.
Enquanto
isso, o sol, as nuvens, as árvores, as flores, os mares, as praias
e as gaivotas do mundo zombam, com inefável pesar, dos bilhões
de vultos humanos que vagam nauseabundos pelo planeta Terra, sonhando
com chuvas torrenciais de cédulas verdes e moedas. Intrigantemente,
os passarinhos que ainda não foram extintos observam, de longe,
a transformação fantasmagórica dos seres humanos
em seres máquinas, há séculos entretidos com as varias
modalidades de jihad extrema, seja a manchada com sangue, a marcada com
lágrimas ou a impregnada de suor. Bem ou mal, os seres (humanos
e/ou máquinas) conquistaram o espaço, tecnologicamente delimitado
por regras excelsas de uma teoria da relatividade sui generis, mas se
deixaram escravizar pelo tempo. O ponteiro das horas céleres que
tolhem os desejos e os sonhos mais lídimos. A ampulheta execrável
que não espera o ódio se converter em amor. Ah, Cronos,
se tu não fosses o deus dos tempos bélicos, talvez os seres
(humanos e/ou máquinas) pudessem transcender a matéria bruta
que os prende indelevelmente à realidade nua e crua das desilusões
mundanas... Talvez o tempo não fosse mais dinheiro. Talvez o tempo
não fosse, nunca mais, prisão.
Seis horas da manhã ! Marco importantíssimo da jihad genérica
de Renata. Os passarinhos que ainda não foram extintos vêem
a moça saindo, invariavelmente com pressa, de sua espelunca localizada
no décimo quinto andar de um prédio no Bairro da Angústia.
Seus saltos finos não acompanham a velocidade de suas pernas em
direção à estação de qualquer metrô
que a leve, em menos de cento e vinte mil aborrecimentos, à sede
de qualquer empresa chamada Emprego S.A. Respeitosamente, Renata chega
quase-viva ao hall de entrada da empresa aludida e, fingindo não
estar de TPM, esboça o mais incauto sorriso amarelo em direção
à replica grotesca do quadro “Guernica”, de Picasso,
estampado na parede em torno da qual estão trabalhando os seus
colegas quase-mortos, às sete e quinze da manhã:
—
Bom dia, pessoal. – Ela diz tranqüilamente. – Desculpem
pelo atraso...
— Você já conta com mais de 362 atrasos apenas neste
ano, Renata. – Imiscui-se o chefe, enfaticamente, com um humor um
tanto quanto sanguinário, em meio ao coral das vozes desafinadas
dos operadores de telemarketing.
— Eu posso explicar...
— Não, não pode. – Responde o chefe com a sua
voz possante de barítono.
— Posso sim. – Replica a moça com seu timbre de soprano
em meio à orquestra das mãos que digitam nos micro-computadores.
— Não quero saber. E você está demitida.
— O quê ? – Exclama a moça, como se estivesse
cantando ópera.
— De-mi-ti-da ! – Replica, enfim, o chefe, em um crescendo
na escala de sol-maior, como se passasse do mi-bemol ao fá-sustenido.
Oito
horas da manhã. Os sons emitidos pelas pregas vocálicas
do chefe entram em cataclísmica dissonância com a freqüência
dos sentimentos de Renata. Ecos. Reverberações. Rajadas
de metralhadoras capitalistas. Jihad sinfônica. Apoteose de instrumentos
de cor das cruéis e sopro traumático. De-mi-ti-da, cantam
no fundo as mocinhas novatas no Emprego S.A, em meio aos violinos que
o desespero toca de forma tão magnífica. De-sem-pre-ga-da,
reforçam em seguida os Office-boys da empresa como tenores em serenata
contenciosa. De súbito, a exímia orquestra do Mundo-Real
afina seus instrumentos e executa a nona sinfonia de Beethoven para compor
a trilha sonora da vida teoricamente humana. E Renata dança, chora
e engasga, embalada pela melodia das flautas-ácidas que pareciam
ser tão doces nos musicais de Hollywood..
Nove horas da manhã. Renata tenta se erguer, continuando sob a
observação clínica dos passarinhos que ainda não
foram extintos. Enquanto os humanos se digladiam por dinheiro ou poder
ou emprego, os pássaros festejam a liberdade da vida em profusão.
Aliás, os pássaros são uns dos poucos seres genuinamente
felizes, porque de fato podem voar além dos altos e baixos da vida
humana e muito aquém dos tsunamis existenciais que inundam, por
exemplo, a pobre alma de Renata.
Ah,
Renata, tu só quiseste tocar piano com mãos de fada, e sambar
sob o ritmo da felicidade, e correr pelos campos do amor transcendente
e ridicularizar, sorrindo, a inconsistência das lágrimas
nem sempre vãs... Mas, às dez horas da manhã de um
dia teoricamente útil, tu, que foste condenada à existência
por meio da união de um certo óvulo incauto e um certo espermatozóide
afoito, simplesmente não sabes para onde ir, nem o que fazer, nem
como respirar o ar já tão poluído de uma civilização
antropofágica. Ah, Renata, se tu fosses apenas um desses passarinhos
que te observam e que ainda não foram extintos, tu baterias as
asas, às onze horas da manhã, e voarias como águia
intrépida. Ao meio dia, tu poderias ser pomba branca que voa alto,
anunciando a paz aos cinco continentes da Terra, sem medo dos projéteis,
dos mísseis e das bombas atômicas. Mas tu és irremediavelmente
humana ! Tua carne frágil e teus ossos de carbono e cálcio
não suportam nem mesmo o ritmo estonteante dos ponteiros que fuzilam
tua mente, em busca de um novo emprego.
Uma hora da tarde. Renata perambula sem rumo pelas ruas do Bairro do Desespero.
Duas horas. Renata encara os outdoors publicitários nas Vielas
do Sonho e decide tentar a sorte sendo modelo internacional. Três
horas. Renata entra no ônibus que passa pela Favela das Decepções.
Quatro horas. Renata se lembra dos seus quatro meses de aluguéis
atrasados, enquanto olha atônita para seu extrato bancário
com saldo negativo no Banco Massacre Financeiro S.A, no mesmo momento
em que um moleque de dez anos furta sua carteira entre o vai-e-vem do
ônibus. Cinco horas. Renata lembra que nunca poderá fazer
fortuna sendo modelo internacional porque não é tão
anoréxica quanto a garota que está sentada à sua
frente no ônibus em questão. Seis horas. Renata desce do
ônibus na parada da Avenida Apostas, onde emprega seu último
real jogando na mega-sena acumulada
Sete
horas da noite. A moça se perde em meio aos becos sem saída
da Rua da Tristeza. Oito horas. Renata sente tontura, palpitações
e sopros no coração. Nove horas. A moça delira em
fazer plástica para dar o golpe do baú em qualquer jogador
de futebol que ganhe milhões apenas correndo atrás de bola.
Dez horas. Renata desmaia, sem poder controlar as sístoles e diástoles
de seu coração sensivelmente martirizado. Onze horas. A
moça é, enfim, socorrida por um moto-boy que a leva até
o hospital público mais próximo, encontrando à sua
frente cerca de quinhentas e sessenta e quatro pessoas que estavam na
fila, prestes a falecer, sem qualquer condescendência do Estado
de Direito ou do Estado Paralelo.
À
zero hora, enfim, Renata transcende sua existência efêmera,
libertando-se da obrigação de respirar com pulmões
humanos, conforme o ato ditatorial advindo da união acidentária
entre um certo óvulo incauto e um certo espermatozóide afoito.
Renata renasceu como pássaro que ainda não foi extinto.
Um pássaro que se entretém observando bilhões de
Renatos e Renatas, pelo mundo afora, lutando pela sobrevivência
a despeito da jihad de cada dia, a pseudo-guerra santa humana, o circular
combate entre o tempo e o mundo, a eterna dicotomia entre os anseios metafísicos
da alma e os reclames materiais do corpo. Renata, afinal, sublimou-se
e superou a jihad como pássaro. Renata, a renascida em meio ao
caos de tudo, como sinal de colapso do vácuo que engendra o nada.
Renata, enfim, a renascida...
Juliana Silva (12/06/1984) - Brasília / DF
juliana_slv_law@yahoo.com.br
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