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Juliana Silva
Brasília / DF

     
 

 

O terceiro mundo

Conto publicado na Antologia de Contos de Autores Contemporâneos - Vol.17


Larissa e Júlia eram duas dos cento e cinqüenta candidatos a uma vaga de repórter em uma das maiores empresas jornalísticas de São Paulo.

Sentadas na sala central da referida empresa, as duas colegas aguardavam, ansiosamente, o momento de sua entrevista com o Editor-chefe do Jornal Córtex Universus. Ao observarem a face desanimada dos candidatos já entrevistados, que saíam a cada cinco minutos da sala ao fim do corredor, Larissa e Júlia naufragavam em um misto de esperança e incerteza.

Apesar de serem amigas de infância, as duas tinham a plena convicção de que ali,naquele exato momento de suas vidas, eram duas irremediáveis rivais, disputando com unhas e dentes um ínfimo espaço no mercado de trabalho. Por esse motivo, estavam nitidamente tensas e prefeririam manter uma certa distância em tal ocasião de concorrência cega. Todavia, poravareza ou ironia do destino, Larissa e Júlia receberam os dois últimos números de inscrição para a entrevista que, até aquele instante, ainda não havia aprovado qualquer dos cento e quarenta e oito candidatos à vaga de repórter. Assim, elas haviam ficado muito próximas, não só em virtude de seus números subseqüentes de inscrição, mas, sobretudo, em decorrência do medo de não conquistarem o emprego. Quando Larissa ouviu a secretária chamar o candidato de número cento e quarenta e nove para a entrevista, suas mãos ficaram trêmulas e suas pernas bambearam até que pudessem levá-la à sala do Editor-chefe.

— Boa tarde. – Disse serenamente o editor ao ver Larissa entrando em sua sala.- Sente-se, por favor, e responda às perguntas que eu lhe fizer, de modo calmo e reflexivo, sem necessidade de nervosismo.

Larissa obedeceu às instruções e se sentou em frente ao Editor-chefe, que iniciou o questionário com uma pergunta um tanto quanto excêntrica:

— A senhorita, por acaso, conhece o universo ?
— Não, senhor...
— Alex. Pode me chamar de Alex, sem o senhor. E eu, como posso chamá-la?
— Larissa.
— Pois bem, Larissa, eu andei viajando por todos os planetas de nosso sistema solar e só me resta conhecer o terceiro mundo. Gostaria, então, que você me descrevesse as principais características desse mundo, incluindo os hábitos das pessoas, o convívio delas com os recursos ambientais e as ações que têm sido concretizadas a fim de preservá-los.
— Bom... O terceiro mundo é basicamente composto pelos países sub-desenvolvidos...
— Não, Larissa, desculpe-me, eu não fui muito claro. O terceiro mundo é o mundo em si. O terceiro mundo é o planeta Terra. O seu planetinha, entende?
— O nosso planeta, Alex.
— O seu planeta, Larissa. – Corrigiu o editor com voz enfática. – Eu não sou daqui. Sou um jornalista interplanetário, cruzando o universo para completar meus relatórios sobre as condições de vida em todos os mundos do universo. Adquiri a forma humana apenas para facilitar o meu trabalho. Falo mais de sessenta tipos diferentes de línguas e, portanto, não me foi nada difícil aprender o Português, o Russo, o Mandarim, o Árabe, além de outros idiomas terráqueos. Cheguei a este planeta há pouco menos de dois dias e estou com certas dificuldades em concluir meu relatório sobre as condições de vida no terceiro mundo, o seu mundo. Por isso, necessito de um repórter ágil e inteligente que me auxilie nesse serviço. Se você souber responder com precisão às seguintes perguntas, você será imediatamente contratada. Posso começar, então ?

Larissa, completamente atônita, indagou-se mentalmente de que hospício havia fugido aquele estranho Editor-chefe . Sem saber como agir, porém, ela respondeu, confusa:

— Antes de fazer a primeira pergunta, Alex, permita-me tirar uma dúvida...
— Sim.
— Se você já passou por quase todos os planetas do sistema solar, por que em seus relatórios a Terra seria o terceiro mundo. Não deveria ser o último ?
— Simples, Larissa. O planeta Terra ocupa a terceira órbita do sistema solar. Agora, quantos habitantes vivem nesse seu planeta ?
— Cerca de seis bilhões, distribuídos desigualmente em cinco continentes.
— E quais são as condições de vida desses seis bilhões ?
— Pode-se dizer que a minoria vive muito bem e a maioria vive muito mal.
— Especifique mais sua resposta, por favor, Larissa.
— De um modo geral, a riqueza e o bem-estar são altamente concentrados na Terra. Enquanto poucos indivíduos desfrutam de banquetes em suas mansões luxuosas, muitos outros nem sequer possuem comida ou uma simples casa. Enquanto alguns países detêm grande poder econômico por serem exploradores, outros submergem em ruínas sociais por serem endividados, no presente, e por terem sido brutalmente explorados, no passado.
— Em um mundo tão assimétrico, o que as pessoas costumam valorizar?
— A maioria dos terráqueos, com poucas e louváveis exceções, valorizam bens materiais, aparência física, poder, fama e status social. Trata-se de um mundo infelizmente degenerado, no qual as pessoas nem sempre valem o que elas são, mas, muitas vezes, o que elas têm.
— E qual é o tipo de relação dos terráqueos com seus recursos naturais?
— A natureza na Terra tem sido constantemente agredida. Florestas são desmatadas em nome de um certo progresso, animas têm sido extintos, mares vêm sendo poluídos e ecossistemas têm sido desequilibrados. Daqui a alguns anos, é bem provável que os recursos hídricos já estejam bastante escassos no mundo.
— Neste seu mundo tão assimétrico e auto-destrutivo, ocorreram quantos episódios de violência ou de guerras ?
—É praticamente impossível dizer exatamente quantos fatos violentos ou bélicos vêm ocorrendo ao redor do globo. O que posso lhe responder é que são muitos, tão numerosos quanto catastróficos. Só a segunda guerra mundial, por exemplo, dizimou milhões de seres humanos, em virtude de interesses absolutamente espúrios.
— Muito bem, Larissa. Pelos dados que você me forneceu sobre seu mundo, posso concluir meu relatório asseverando que o planeta Terra é um dos mais atrasados do universo. Só para você ter uma rápida idéia, os seres de Júpiter viveram harmoniosamente durante séculos, sem que qualquer deles morresse de inanição, mesmo porque eles se alimentam mediante um processo semelhante à fotossíntese terrestre.
— Mas Júpiter está tão distante do Sol !
— Para você ver como a tecnologia jupteriana de captação e utilização de raios ultra-violeta é incrivelmente mais avançada do que vocês, terráqueos, possam imaginar.
— Está concluído seu relatório sobre o terceiro mundo, então, Alex?
— Quase, Larissa. Preciso que você faça uma observação profunda sobre a Terra para inseri-la em meu relatório, por meio de uma frase simples, mas não simplória.
— Bem... Eis a observação para seu relatório: enquanto permanecer uma divisão estúpida entre três mundos, a Terra nada mais será do que um pequeno planeta, perdido no caos infinito do universo e no caos de suas grandes desigualdades, cada vez mais cruéis e cada vez menos aceitáveis.
— Ótimo, Larissa, com essa observação você acaba de ser contratada. Partiremos agora mesmo para a sede do jornal, na Lua.
— O quê ? – Perguntou a moça, atônita.
— Sim, você não quer ser uma repórter interplanetária ?
— Lamento, Alex, mas não posso exercer este emprego. Nenhum terráqueo viveria bem na Lua por muito tempo... – Respondeu Larissa, saindo aterrorizada daquela sala de entrevistas, enquanto Júlia, a última candidata ao cargo de repórter, adentrava o recinto dominado pelo excêntrico Editor-chefe.

Por solidariedade, Larissa resolvera aguardar o término da entrevista de sua amiga. Após cinco minutos, Júlia abria a porta da sala com um sorriso estampado na face. Absolutamente curiosa e com tom irônico, Larissa perguntou-lhe:

— Você aceitou ir trabalhar na Lua?
— Sim, por que eu não aceitaria?
— Pelo mesmo motivo que os outros cento e quarenta e nove candidatos à vaga de repórter, Larissa. – Respondeu o Editor-chefe, que andava atrás das moças e resolvera interferir na conversa. – Nenhum deles sabia que Lua é a designação dada à sede desta empresa jornalística, que fica na periferia de São Paulo.
— Ele lhe deu essa informação ? – Indagou Larissa, indignada, à Júlia.
— Não, eu mesma deduzi.
— Como ?
— Pensando em quantos planetas existiriam dentro da própria Terra, dentro do Brasil ou dentro desta grande metrópole. Ora, se o Sol é o centro do universo, e a Terra gira em torno do Sol, então o nosso planeta, que é o terceiro mundo, está na periferia do universo. Assim, se a Lua gira em torno do nosso mundo, então ela também está na periferia do universo, na periferia do Brasil ou na periferia de São Paulo . Vá agora mesmo, olhe para a escuridão do céu e veja se a Lua não está, minguante, nova, crescente ou cheia, no grande subúrbio desta capital paulista!

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Túnel de incógnitas

Conto publicado na Antologia de Contos de Autores Contemporâneos - Vol.18


Entre o riso e a lágrima existe uma incógnita chamada vida. Um enigmático labirinto que conduz cada pessoa a desvendar o âmago de seus próprios sentimentos, em meio a um túnel de incertezas que separa o primeiro respiro do último piscar de olhos. Essas foram as derradeiras frases de Amanda Sobieski, os últimos resquícios de sonhos eventualmente não-concretizados, as últimas letras de palavras que nem sequer foram ditas. Letras estáticas cuja função precípua foi preencher a tela de um micro-computador vazio, em uma sala vazia, de um apartamento esvaziado por furacões da angústia que gera o vácuo entre o tudo e o nada, entre o luxo e o lixo, entre o começo e o fim.


— Eu não sei por quê... – Disse a senhora do apartamento ao lado, quando indagada pela polícia. – A Amanda sempre me pareceu uma pessoa tão...
— Tão o quê, senhora ? – Redargüiu o policial, no mais lídimo mau humor das segundas-feiras cinzentas.
— Equilibrada.
— Bem, isso não explica absolutamente nada.
— Quem sabe seja mais útil o senhor conversar com o porteiro do prédio...
— Ele também não me forneceu qualquer informação minimamente esclarecedora, como, aliás, nenhum condômino deste maldito edifício residencial, o que dificulta muito a minha investigação.
— Desculpe, mas não lhe parece um tanto quanto óbvio, policial? Aquela janela escancarada, por acaso, não evidenciaria indubitavelmente um ato de loucura, de ausência de amor ou de Deus ? Aquelas últimas palavras, então, não revelariam os indícios de uma despedida intranqüila e desesperada ?
—Talvez alguém possa ter empurrado a moça, senhora. Nós trabalhamos com hipóteses.
— Então procure as hipóteses mais factíveis, policial, e pare de incomodar os moradores deste prédio com perguntinhas desconexas sobre insanos que despencam do décimo sexto andar. Agora, se o senhor me der licença, eu tenho muito mais o que fazer...


Com toda a rispidez do mundo, a senhora fechou a porta na cara do policial, antes mesmo que ele pudesse prendê-la por desacato. Atônito, aquele homem conhecido por sua habilidade na apuração de casos insólitos ou enigmáticos, quedou-se repentinamente sem quaisquer reações.


Não sabia, ao certo, se os peritos do Instituto Médico Legal poderiam fornecer os indícios conclusivos para determinar a causa mortis de Amanda Sobieski. Havia tentado, por diversas vezes, localizar os pais ou qualquer familiar da moça, mas todos esses atos foram infrutíferos ou inócuos. Por um breve instante, o policial respirou fundo e passou a andar com calma pelo apartamento vazio de Amanda, em busca de qualquer vestígio que indicasse a cabal ocorrência de um acidente, de um suicídio ou de um crime. Olhou de relance para a tela do computador localizado no centro da sala e leu, pela centésima vez naquela tarde, a primeira fase que ali jazia com letras grandes e resplandecentes: entre o riso e a lágrima existe uma incógnita chamada vida. Essa primeira mensagem, em si, não lhe parecia estranha nem esclarecedora. Era apenas mais um devaneio poético de uma mente imiscuída em investigações existenciais, sem muito fundamento ou sentido na prática. No entanto, a frase que se seguia pareceu-lhe substancialmente íntima, como aspecto de um passado recente. Um enigmático labirinto que conduz cada pessoa a desvendar o âmago de seus próprios sentimentos, leu o policial em voz alta, em meio a um túnel de incertezas que separa o primeiro respiro do último piscar de olhos. Letras de reflexão, de desencanto ou de despedida ?


— Meu Deus ! – Gritou policial como se desabasse sobre os próprios medos. — Como pude ser tão estúpido ?


O homem, então, estremeceu com a visão embotada por lágrimas de ressentimentos. Levou a mão ao bolso do paletó e retirou um pequeno pedaço amassado de papel. Era a última carta que sua filha lhe enviara, há cerca de um ano. Nunca quisera reconhecê-la como filha e, de fato, nunca sequer havia tido qualquer contato com ela. Nunca pretendera ter filhos, mesmo porque era um completo fiasco na excelsa arte de amar e de traduzir seus sentimentos em atitudes concretas. Mas a garota desconhecida lhe escrevia cartas de forma assídua e, embora não revelasse seu nome, requeria em todas as cartas que o policial ligasse para o número de telefone localizado na última linha. Dez anos de cartas anônimas e ininterruptas. Dez anos de sonhos sem respostas. Enfim, a vertigem provocada pelas ondulações de palavras trêmulas, como tsunamis de letras machucando o espírito. Profundamente abalado, o policial mirou mais uma vez a carta em suas mãos e não pôde conter o choro quando leu nas linhas iniciais:
“A vida é um enigmático labirinto que conduz cada pessoa a desvendar o âmago de seus próprios sentimentos... Nesse labirinto não existem caminhos que o amor seja incapaz de trilhar, nem trajetórias que a esperança deixe sem luz. Quem não emprega efetivamente a bússola da alma no labirinto da vida perde a direção que conduz aos sonhos e, por isso, rende-se às mais obscuras desilusões. Quem não se aperfeiçoa nos atos de amor aos próximos e, sobretudo, aos filhos, torna-se refém do vácuo que o próprio mundo continuamente engendra, como se fosse apenas mais um aspecto frio da existência humana. Assim, não permita, pai, que esse enigmático labirinto da vida se transforme em um túnel vazio de incertezas que separa o primeiro respiro do último piscar de olhos.”


O policial tinha certeza que aquela carta era de Amanda, embora o papel não trouxesse qualquer informação sobre nomes ou endereços. Apenas havia um telefone na última linha, em números trêmulos que pareciam se projetar além da folha e aquém das forças já exíguas daquele homem, tão incompetente na profissão, no amor e na vida. De fato, ele se sentia atingido por todas as palavras daquela última carta, como se cada vocábulo, vão ou retórico, dilacerasse seu coração em frangalhos minúsculos de dor. Logo ele que nunca se aprofundara no significado mais recôndito das palavras. Logo ele que sempre compreendera a poesia como sopas de letras destituídas de sons ou de cores. Entre o riso e a lágrima existe uma incógnita chamada vida, dissera Amanda, em forma de desabafo, de protesto ou de súplica. Entre a cruz e a espada existe uma intrusa chamada dúvida, pensava o policial, em sinal de desespero, de ressentimento ou de angústia. De fato, o homem queria ressuscitar sua filha, queria conhecê-la, amá-la, pedir-lhe perdão pelos dez anos de cartas sem respostas. Entretanto, o tempo havia apunhalado o policial pelas costas, jogando-o rumo à previsibilidade dos dezesseis andares que o separavam de sua filha, como se possível desvendar as incertezas do túnel que separa o primeiro respiro do último piscar de olhos. Como se realmente houvesse luz no fim do túnel. Como se entre a lágrima e o riso existisse a outra face da incógnita chamada vida.

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Jihad

Conto publicado na Antologia de Contos de Autores Contemporâneos - Vol.19


Seria possível escapar incólume da insensatez mundana que almeja santificar a insípida guerra de todos contra todos ? Seria factível ?, indagou Renata ao se olhar no espelho rachado e ver seu semblante esquálido de mortal que acorda às cinco horas da manhã, sem a mínima vontade de um dia ter nascido. Cinco horas da manhã ! O despertador soa estridente e neurótico, fazendo apologia ao cumprimento dos deveres diários.

Enquanto isso, o sol, as nuvens, as árvores, as flores, os mares, as praias e as gaivotas do mundo zombam, com inefável pesar, dos bilhões de vultos humanos que vagam nauseabundos pelo planeta Terra, sonhando com chuvas torrenciais de cédulas verdes e moedas. Intrigantemente, os passarinhos que ainda não foram extintos observam, de longe, a transformação fantasmagórica dos seres humanos em seres máquinas, há séculos entretidos com as varias modalidades de jihad extrema, seja a manchada com sangue, a marcada com lágrimas ou a impregnada de suor. Bem ou mal, os seres (humanos e/ou máquinas) conquistaram o espaço, tecnologicamente delimitado por regras excelsas de uma teoria da relatividade sui generis, mas se deixaram escravizar pelo tempo. O ponteiro das horas céleres que tolhem os desejos e os sonhos mais lídimos. A ampulheta execrável que não espera o ódio se converter em amor. Ah, Cronos, se tu não fosses o deus dos tempos bélicos, talvez os seres (humanos e/ou máquinas) pudessem transcender a matéria bruta que os prende indelevelmente à realidade nua e crua das desilusões mundanas... Talvez o tempo não fosse mais dinheiro. Talvez o tempo não fosse, nunca mais, prisão.
Seis horas da manhã ! Marco importantíssimo da jihad genérica de Renata. Os passarinhos que ainda não foram extintos vêem a moça saindo, invariavelmente com pressa, de sua espelunca localizada no décimo quinto andar de um prédio no Bairro da Angústia. Seus saltos finos não acompanham a velocidade de suas pernas em direção à estação de qualquer metrô que a leve, em menos de cento e vinte mil aborrecimentos, à sede de qualquer empresa chamada Emprego S.A. Respeitosamente, Renata chega quase-viva ao hall de entrada da empresa aludida e, fingindo não estar de TPM, esboça o mais incauto sorriso amarelo em direção à replica grotesca do quadro “Guernica”, de Picasso, estampado na parede em torno da qual estão trabalhando os seus colegas quase-mortos, às sete e quinze da manhã:

— Bom dia, pessoal. – Ela diz tranqüilamente. – Desculpem pelo atraso...
— Você já conta com mais de 362 atrasos apenas neste ano, Renata. – Imiscui-se o chefe, enfaticamente, com um humor um tanto quanto sanguinário, em meio ao coral das vozes desafinadas dos operadores de telemarketing.
— Eu posso explicar...
— Não, não pode. – Responde o chefe com a sua voz possante de barítono.
— Posso sim. – Replica a moça com seu timbre de soprano em meio à orquestra das mãos que digitam nos micro-computadores.
— Não quero saber. E você está demitida.
— O quê ? – Exclama a moça, como se estivesse cantando ópera.
— De-mi-ti-da ! – Replica, enfim, o chefe, em um crescendo na escala de sol-maior, como se passasse do mi-bemol ao fá-sustenido.

Oito horas da manhã. Os sons emitidos pelas pregas vocálicas do chefe entram em cataclísmica dissonância com a freqüência dos sentimentos de Renata. Ecos. Reverberações. Rajadas de metralhadoras capitalistas. Jihad sinfônica. Apoteose de instrumentos de cor das cruéis e sopro traumático. De-mi-ti-da, cantam no fundo as mocinhas novatas no Emprego S.A, em meio aos violinos que o desespero toca de forma tão magnífica. De-sem-pre-ga-da, reforçam em seguida os Office-boys da empresa como tenores em serenata contenciosa. De súbito, a exímia orquestra do Mundo-Real afina seus instrumentos e executa a nona sinfonia de Beethoven para compor a trilha sonora da vida teoricamente humana. E Renata dança, chora e engasga, embalada pela melodia das flautas-ácidas que pareciam ser tão doces nos musicais de Hollywood..

Nove horas da manhã. Renata tenta se erguer, continuando sob a observação clínica dos passarinhos que ainda não foram extintos. Enquanto os humanos se digladiam por dinheiro ou poder ou emprego, os pássaros festejam a liberdade da vida em profusão. Aliás, os pássaros são uns dos poucos seres genuinamente felizes, porque de fato podem voar além dos altos e baixos da vida humana e muito aquém dos tsunamis existenciais que inundam, por exemplo, a pobre alma de Renata.

Ah, Renata, tu só quiseste tocar piano com mãos de fada, e sambar sob o ritmo da felicidade, e correr pelos campos do amor transcendente e ridicularizar, sorrindo, a inconsistência das lágrimas nem sempre vãs... Mas, às dez horas da manhã de um dia teoricamente útil, tu, que foste condenada à existência por meio da união de um certo óvulo incauto e um certo espermatozóide afoito, simplesmente não sabes para onde ir, nem o que fazer, nem como respirar o ar já tão poluído de uma civilização antropofágica. Ah, Renata, se tu fosses apenas um desses passarinhos que te observam e que ainda não foram extintos, tu baterias as asas, às onze horas da manhã, e voarias como águia intrépida. Ao meio dia, tu poderias ser pomba branca que voa alto, anunciando a paz aos cinco continentes da Terra, sem medo dos projéteis, dos mísseis e das bombas atômicas. Mas tu és irremediavelmente humana ! Tua carne frágil e teus ossos de carbono e cálcio não suportam nem mesmo o ritmo estonteante dos ponteiros que fuzilam tua mente, em busca de um novo emprego.

Uma hora da tarde. Renata perambula sem rumo pelas ruas do Bairro do Desespero. Duas horas. Renata encara os outdoors publicitários nas Vielas do Sonho e decide tentar a sorte sendo modelo internacional. Três horas. Renata entra no ônibus que passa pela Favela das Decepções. Quatro horas. Renata se lembra dos seus quatro meses de aluguéis atrasados, enquanto olha atônita para seu extrato bancário com saldo negativo no Banco Massacre Financeiro S.A, no mesmo momento em que um moleque de dez anos furta sua carteira entre o vai-e-vem do ônibus. Cinco horas. Renata lembra que nunca poderá fazer fortuna sendo modelo internacional porque não é tão anoréxica quanto a garota que está sentada à sua frente no ônibus em questão. Seis horas. Renata desce do ônibus na parada da Avenida Apostas, onde emprega seu último real jogando na mega-sena acumulada

Sete horas da noite. A moça se perde em meio aos becos sem saída da Rua da Tristeza. Oito horas. Renata sente tontura, palpitações e sopros no coração. Nove horas. A moça delira em fazer plástica para dar o golpe do baú em qualquer jogador de futebol que ganhe milhões apenas correndo atrás de bola. Dez horas. Renata desmaia, sem poder controlar as sístoles e diástoles de seu coração sensivelmente martirizado. Onze horas. A moça é, enfim, socorrida por um moto-boy que a leva até o hospital público mais próximo, encontrando à sua frente cerca de quinhentas e sessenta e quatro pessoas que estavam na fila, prestes a falecer, sem qualquer condescendência do Estado de Direito ou do Estado Paralelo.

À zero hora, enfim, Renata transcende sua existência efêmera, libertando-se da obrigação de respirar com pulmões humanos, conforme o ato ditatorial advindo da união acidentária entre um certo óvulo incauto e um certo espermatozóide afoito. Renata renasceu como pássaro que ainda não foi extinto. Um pássaro que se entretém observando bilhões de Renatos e Renatas, pelo mundo afora, lutando pela sobrevivência a despeito da jihad de cada dia, a pseudo-guerra santa humana, o circular combate entre o tempo e o mundo, a eterna dicotomia entre os anseios metafísicos da alma e os reclames materiais do corpo. Renata, afinal, sublimou-se e superou a jihad como pássaro. Renata, a renascida em meio ao caos de tudo, como sinal de colapso do vácuo que engendra o nada. Renata, enfim, a renascida...


Juliana Silva (12/06/1984) - Brasília / DF
juliana_slv_law@yahoo.com.br